cereja.

eu não posso comer uvas. daquela variedade niágara. roxinhas e pequenas.
também evito mangas. da variedade palmer. bem amarelas, cheirosas e de gosto marcante.

eu evito, mas como.
evito porque comê-las me traz uma saudade tão forte que às vezes não tô pronta para sentí-la.
mas ainda assim as como porque assim que mordê-las, minha avó aparecerá ali, na minha frente.

outro dia, só de sentir o cheiro da manga no mercado, já disse – oi, vó.
-e aí? como você tá?

e vou fazendo um diálogo imaginário na cabeça. tentando entender como podem frutas tão inocentes carregarem uma carga dramática tão cortante.

– foda, vó.
mais um natal que a gente se lembra como é mais triste a vida sem você.

e aí, na minha cabeça, eu abro um vinho e e vou me lamentando na frente dela. chorando. sendo totalmente frágil, dilacerada. e menor que aquelas frutas todas.

– me dá um abraço aqui, pelo amor de deus.
vamos esquecer que a vida morre e que o tempo corre desse jeito. eu preciso curar essa tristeza aqui, vó. soltar esse amor que eu tô prendendo a tanto tempo. e comprei uvas pra gente.

merda.
lembrança é um negócio que derruba. natal derruba.
panetone derruba. e tudo que constrói os natais na casa da minha vó me atropela de dor.
– a gente te ama. e seu amor dá mais saudade em dezembro.

sempre tinha manga na casa da minha vó.
meu vô trazia da chácara e a gente só parava de comer quando cansava.
nos natais, os cachos de uvas que ela comprava eram tão bonitos – colocados numa bandeja antiga que ela tinha – que a gente quase trocava o pernil para ficar provando uvas a noite toda.

hoje fui ao mercado.
tinham uvas e mangas.
levei cerejas.

cerejas sim. um punhado.
– porque hoje vó, já tô tão sensibilizada de saudade que a única coisa que eu vou conseguir comer são cerejas / mas olha, tem feira de rua na quinta. me espera, que logo a gente se vê de novo.

 

de volta ao bar.

sentei num bar em que íamos em 2003.
e o bar de 2003, quando você volta em 2015, te recebe tirando sarro da tua cara – “o que você tá fazendo aqui?”

a banda começou a tocar cpm22, detonautas, skank e todas aquelas músicas que a banda do colégio tocava, que o garoto que você gostava cantava, e que abraçaram toda a sua adolescência no interior. eram, na época, as melhores músicas. hoje, são portões que abrem os seus 16 anos te trazendo aquela sensação estranha de que o tempo leva os dias sem perguntar.
sentada, vi uma amiga do colégio com um namorado numa mesa distante. ela não me viu, eu não a vi. eu a vi, ela me viu. a gente não se cumprimentou. porque o tempo passa, e os cumprimentos passam também. eu não sei bem porquê.

– “quer mesmo ficar aqui?”

e o bar, me punindo por aquela visita tardia, embalou músicas e lembranças que a cada canção te cutuca dizendo que não há mais nada para você ali.
eu com quase 30. vi um garoto com quase 18. e ele parecia muito um dos meninos que machucava os nossos corações nos anos pré-vestibular. só que eu sabia cantar as músicas do bar. ele não.
cadê os novos rocks? as novas melodias?
não.
o bar só tocava o que eu conhecia.

foram 3 horas que me esqueci que estamos em 2015.
fiquei ali num sofrimento particular, vivendo os meus 15, pensando que há 12 anos a gente nem imaginava que crescer e trabalhar era deixar de falar com as pessoas e olhar para o computador.
a gente foi crescendo, mas não ter celular era tão mais interessante. eu conhecia as pessoas. elas me conheciam. a gente se encontrava e quando não se encontrava, falava por horas no telefone. eu era muito mais conectada sem iphone do que agora.
e lá vem o bar de novo me surrar com a percepção que a tecnologia só facilitou a busca de receitas no google.
o resto é solidão.

voltar ao bar da adolescência é levar uma porrada.
– “você envelheceu, não é?
só que a gente vai deixar tudo aqui, desse jeitinho, pra você se lembrar do que perdeu”.

sono

sonhei que sabia que estava sonhando.
e por saber que estava sonhando, pedi um cachorro.
e com o cachorro pedi uma estrada em linha reta com jardins.
e corremos por ela, eu, o cachorro e mais um monte de gente que ia aparecendo no caminho. e elas tocavam flautas, violinos, e jogavam basquete na quadra ao lado – que eu também pedi.

apontei pro céu e pedi algumas folhas caindo.
e comentei com um cara que sabia que estava sonhando. ele sorriu. eu o beijei.
e parti com meu cachorro. de braços abertos. correndo para os nossos sonhos, transformando tudo em movimento.

o celular tocou. acordei.
e me lembrei que sonhava.
e sabia que estava sonhando.

sobre saltos.

tem um nova vizinha, no andar de cima.
e todo dia às 5 da manhã ela começa a andar de salto pela casa inteira, se preparando para ir trabalhar.
na cama, o barulho do salto me desperta dentro de um sonho meio acordado que diz:
– tomara que ela perca o emprego / tomara que ela nunca mais use esses saltos para trabalhar.
pensei em deixar um bilhete embaixo da porta: – oi, eu sou do 72B, você pode colocar os saltos só quando sair de casa? / mas aí corro o o risco de ela se uma daquelas vizinhas que atiram nos outros vizinhos sem conversar.
– veja bem, tá frio, tá cedo,
fique com seu emprego, seus saltos, mas me deixe dormir mais uma horinha.

(talvez eu tente mesmo um bilhete)
e que raios de vantagens existem em morar em apartamentos.
ah se fosse uma casa, com uma pitangueira no fundo. sem saltos, sem vizinhos no andar de cima.

saudade de casa.
já tô precisando de novo.
me espera.

a primeira vez dos 28.

amanhã vou pra casa.

e em 10 anos ainda é sempre a primeira vez.
a primeira vez eu que volto. a primeira vez que entro naquele ônibus. a primeira vez que eu abraço.
ainda é a primeira vez que sinto falta. que me emociono. que não entendo um monte de coisa.

voltar pra casa é se segurar por dentro.
é pedir pra deus voltar a existir para que os dias durem mais um pouquinho.
é parar de envelhecer. e ver que todo mundo ficou velho.

é querer colocar tudo numa caixa para olhar de novo quando der vontade.
é me lembrar que os 28 vieram para eu sentir com todas as forças.
porque eu defini, a partir de hoje, que dos 28 aos 37 seremos os melhores. sentiremos tudo.
não precisaremos mais falar das mesmas coisas. e nem irmos aos lugares que não queremos.
fazer 28 é não ser obrigatório em lugar nenhum. só onde eu quiser.

e por isso volto só onde tiver vontade. choro com quem tiver perto.
bebo com os melhores. perco o tempo com o que me faz maior.
celebro todos os dias. e paro de falar com quem não quer ouvir.

paro de falar. e começo a ouvir.
e a assistir. pra não perder os espaços, os goles, e os novos.
os novos dias. as novas expectativas. os novos velhos sentimentos.
que arrebentam, se jogam, e festejam – porque não temos nada.
só os meus 28. que poderão ser do meu jeito, de qualquer jeito, de importâncias que eu definir.

pensa bem. de que adianta esse tanto de preocupação.
se a vida vai levando. e a gente vai sendo levado junto.
eu não quero assuntos desperdiçados.
vamos apenas tocar para frente, e nos tornarmos imediatistas.
eu não vou esperar mais nada.

quero que tudo aconteça hoje.
para que os momentos sejam sempre frescos e agora.
e para que eu só volte para onde eu quiser.

por isso amanhã,
eu vou para casa.

——-

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mini crônica de domingo 1

acordei às 10h, peguei o jornal na porta e comecei um dos rituais que eu mais gosto de domingo. fazer café preto, preparar tapioca com queijo e esparramar tudo pela mesa – xícaras, folhas de jornal, geleia e o que mais for preciso pra fazer uma manhã perfeita. fiquei lembrando do sonho à noite, em que eu caminhava por horas com josh radnor, o ted de ‘how i met your mother’ – a única série que eu acompanho. andando, eu falava em português até eu começar a falar em inglês e descobrir que ele não estava entendendo nada anteriormente. e andamos. andamos. andamos. e rimos. e ele foi uma ótima companhia.

minha irmã acordou.

– tô ansiosa.
– pela viagem de amanhã?
– não. pela vida. os dias estão passando. eu quero fazer um monte de coisa. e não vai dar tempo.

ela ficou em silêncio.
eu fui lavar a louça.
pensei que seria bom viajar hoje à noite para nova york. e ligar pro josh. hey, tô aqui na sua cidade, vamos marcar um café. falar de coisas por aí. e caminhar. caminhar. caminhar.

o escafandro

Escafandro e a borboleta

Não sei baixar filmes na internet. Não gosto de comprar dvds piratas.
Sou das antigas. Quando passa na tv eu gravo. E assisto assim que posso.
Agradeço ao mais novo recurso da NET que disponibiliza um sistema que permite pausar, voltar e gravar os programas. Como fazíamos com as fitas VHS no passado. Só sei ver filmes assim. Não me peça pra baixar nada. Eu não sou desse tempo.

Gravei o Escafandro e a Borboleta. O filme ficou 1 mês no sistema. Eu achava que seria pesado demais para aquela tarde. Para as noites. Para o fim de semana.
Agora em dezembro, de férias, gravei de novo no sistema aqui da tv da minha casa do interior. E então eu tinha dois Escafandros. Um em São Paulo. Outro em Araçatuba.

Coloquei um pedaço pra ver hoje cedo. E segui até o final.
Acidente cardiovascular.
Escafandro é um filme que eu gostaria de ter feito. Nunca fiz cinema. Mas queria Escafandro.
Bonito. Bonito de doer. De chorar. De assistir a vida toda.

Jean Bauby só mexe o olho. Mas fala o tempo todo, em pensamento. E vai lembrando…de quando fazia essas coisas gostosas que a gente faz todo dia…andar, comer, beber, fazer a barba, dirigir, espirrar, pentear os cabelos.
E eu que mexo os olhos, as mãos, os dedos, os cílios, as pernas, os pés ….estou perdendo alguma coisa?

Não acredito em céu, amigos. Não vejo vida após a morte.
Acho a vida maravilhosa e triste todos os dias. Nos vejo festejando todos os dias. Gosto de festejar todos os dias. De amar todos os dias. E achar essa árvore de natal aqui do meu lado bonita, mesmo com o fim do natal. Se pudesse tirar uma foto mental, seria da janela da sala aqui de casa com o meu gato passando sobre ela. Sinto falta de todas essas coisas que ainda tenho. Acredito mais em acasos fabulosos do que em destino. Sou otimista nesta vida e pessimista pós-morte. Vejo o ser humano como um mestre do ilusionismo por criar uma casa de bonecas todos os dias. Trabalhamos. Pagamos conta. Criamos problemas. Resolvemos problemas. Vamos à manicure. Cortamos o cabelo. Fazemos compras. Arranjamos dramas. Engraxamos o sapato. Passeamos com o cachorro. Vivemos sem fim. Somos ilusionistas lúdicos. Burros inconformados. Criamos Deus. Mantemos a mente ocupada. Combatemos o tédio. Brincamos de casinha. Estamos sempre nos distraindo. Eu sei. Morrer é mesmo uma pena.

Um dia, não vamos todos nos encontrar. Os mortos, com os pré-mortos, os vivos, com os pré-nascidos. Não. Não vamos. Talvez semana que vem se marcarmos um café. Digo, vivos com vivos.
O fim da vida é tão doloroso que só nos resta deixá-la bonita. Comemorarmos o réveillon. Torcermos por mais dias. Desejarmos que os aviões não caiam. Que os carros não corram. Que a gente viva mais um pouco. Que não tenhamos um acidente cardiovascular. Um derrame. Que dê tempo de fazer mais um monte de coisas não importantes. De curtimos mais esse vento que entra aqui na sala. E de eu treinar mais um pouco meu breve repertório no violão.

Escafandro é tão bonito que corta. É um filme que abraça nossa dor escondida e abre caminho neste monte de distrações.
Acabei o filme e voltei pra vida. Pra janela onde passa o meu gato. Para as balas de café em cima da mesa. Para eventos desimportantes. Para os instantes pequenos. Para esse monte de beleza e para esses dias descompromissados no interior, cheios de tempo. Eu tenho vontade de chorar várias vezes. Sinto emoções instantâneas. Daquelas que aparecem nos momentos bonitos e me trazem saudade imediata.
Tem sido dias tão bons.
Que a vida não os leve de uma vez.