Vai devagar que o ano acabou.


Eu não tenho fôlego para festas que começam à meia-noite. Mas me esforço. Coloco uma roupa de festa e me convenço que, pela fluidez da vida, pode ser interessante se abrir para alegrias que só acontecem de madrugada.
Pegamos o táxi à 1h da manhã e emendamos conversas de amigas que não se vêem há 3 meses - e o escritório? e o joão? e o mestrado?

Na Estados Unidos, quase com a Rebouças, já há uma casa coberta por pisca-piscas. Me perdi no raciocínio da conversa do carro pensando – por que é que essa casa tem se adiantado tanto na decoração? Entre colombas pascais e panetones vivemos quantos meses? Vai devagar seu taxista, o ano acabou.

Os amigos já fecharam a viagem de Reveillon, o Fantástico está fazendo concurso de marchinhas e entre rápidos romances, cafés pretos, dores de estômago, troca de cor de cabelo e eleições, já teve até copa.
Foi de tudo tanto que eu não consigo me lembrar. E não quero aqui fazer retrospectiva antecipada, já basta aquela casinha precipitada do Jardins, mas é que acho muito estranho essa sensação voadora de vida. E eu fico com medo de ter perdido alguma coisa,  de ter me envolvido nos dias e me dado conta de repente de que é Natal. Não se pode ter tudo – diria minha irmã. É assim com todo mundo. O tempo passa e as coisas em todos os lugares do mundo vão acontecendo. Se eu envelheço, envelhece todo mundo comigo.

Semana passada passei uns dias no interior e em uma das tardes fiquei observando minha mãe molhando as plantas enquanto o gato se esparramava na terra e comia trevos que nascem desordenadamente pelo chão. Fique ali à toa com a única preocupação de manter meus pés úmidos na poça d’água que refrescava o quintal. E mesmo assim, sem um computador na frente, os dias no interior também passam rápido demais. Moro longe há 10 anos e ainda tenho saudades de dias como esse, mas como é que pode. E eu que achava que depois de 5 anos a saudade zerava.  A verdade é que quanto mais perto dos 30 eu chego, mas amolecida se faz a saudade dentro de mim. E estava um vento bom, diferente, os coqueiros faziam aqueles barulhinhos de folhas que não se ouve por aqui. Minha mãe me abraçou e eu pensei – eu não quero morrer.

Eu não quero perder.

Espera aí, seu moço. Calma.
Desacelera esse táxi que a gente ainda tem a noite toda.
E foi uma noite feliz. De cerveja, risadas, música e sentimentos genuínos.
Aproveitamos tanto que não vi passar.

Como o ano todo.

Se você gostou desse texto, pode gostar de:
Já é Natal? Cacete.

Das coisas que eu gosto

clara vanali

Das coisas que eu mais gosto de fazer na vida, uma delas é ir tomar café no fim da tarde ali no cinema Reserva Cultural, da avenida Paulista, aos domingos. E isso quando está frio. Aquele frio de outono e inverno que pede um cachecol, um sapato quentinho e uma companhia essencial.
Para mim aquele é um dos melhores lugares de São Paulo porque tem cinema e café no mesmo local. E porque há pessoas que não conseguem imaginar encerrar o domingo em outro lugar que não seja ali. O pensamento se esvazia. É apenas uma tarde fria com um pouco de garoa que espera a sua presença na próxima sessão de um filme choroso e ensolarado. Gosto do espaço pequeno que reúne velhos e casais em uma atmosfera genuína que faz a gente se esquecer de que logo a segunda-feira vem.

Trouxe sementes da Itália, há quase dois anos já. E uma das coisas de que mais gostava em Roma era dos cachos imensos que caiam sobre as janelas revelando flores roxas, rosas e brancas. No começo deste ano resolvi plantá-las em um vasinho aqui da varanda, e elas demoraram exatos 3 meses para florescerem. A primeira apareceu bonita de miolo branco no dia do meu aniversário. Eu festejei, tirei foto e publiquei. Mas no final da tarde, ela murchou, fechou e não apareceu mais. Achei que o problema pudesse ser apenas com essa, ou que por conta da grande ventania do dia não tivesse aguentado. Mas nos dias seguintes novas nasceram e novamente morreram ao final do dia – e isso tem se repetido até hoje. Na janela do meu quarto ao amanhecer, de três a quatro flores crescem bonitas para se despedirem em menos de 24 horas. Sim, elas morrem rápido. Tão rápido que durante o tempo em que estão vivas se dedicam apenas a serem o melhor que puderem. Gentis. Bonitas.

Às vezes me pego no meio do trabalho pensando em como isso tudo tem sido especial. Essa oportunidade de conhecer pessoas novas todos os dias, de provar sabores inéditos, de ver a chuva da janela, de pentear o cabelo molhado, de chorar de rir e de saber que às vezes é só chorar. De um beijo novo, quente e doce. De um almoço de mãe, de amigos que não mudam com o tempo. De se emocionar com o pouco. De saber ficar sozinha quando cabe. De abrir um garrafa de vinho quando preciso.

Das coisas que eu gosto:  de gente que sabe que um dia a morte chega e que por isso a vida tem que ser repleta todos os dias.
Uma coisa que é eu gosto é de gente grata.
Grata pelo pequeno detalhe de suspirar e vivenciar tanta coisa boa – que a gente nem percebe. É tudo tão bobo que passa. Tão simples que desaparece. Tão bonito que confunde. Que a gente tenha coerência para perceber que isso tudo é suficiente.

obs: foto da flor da minha janela – aquela que vive rápido e bem. 

a vida que vai.

nova york

Hoje li uma notícia em que dizia que um piloto de avião, que há um mês acabara de pedir a namorada em casamento, morreu com a queda do veículo durante um voo a trabalho. O pedido à namorada foi gravado. Ele planejou um passeio com ela dentro desse mesmo avião, e então fez a surpresa  - postada no youtube por ele dois dias atrás.

A cada dia que passa eu me convenço ainda mais de que isso é tudo o que nós temos. E não me julgue pessimista, por favor. Falar da imperfeição se tornou pecado – como me disse um amigo esses dias. E eu prefiro falar do desconforto do que pensar que depois desta vida haverá outras e mais outras…e que todos nos encontraremos em um caminho espiritual que nos fará entender tudo o que vivemos aqui.

Eu me contenho. Eu me calo em discussões religiosas. Mas sinto profundamente pelo ser humano ser tão egoísta a ponto de achar que não “é só” isto aqui. Não é bastante mesmo? Esse jeito das flores nascerem, do sol brilhar pelas calçadas, da nossa força nas mãos, pés e braços. Do gosto do vinho, da chuva que traz cheiro para água, da emoção de uma lágrima, de um encontro, de um amor. Dos sorrisos que envolvem uma dança, da alegria de ver um cachorro correndo na areia e dos olhos de um gato se abrindo. Do poder dos ouvidos de trazer pessoas ao escutarmos música. Da leveza da pele de sentir qualquer percepção quente ou gelada que se aproxima, do envelhecimento do corpo, do amadurecimento da cabeça e sensações. Da extraordinária manifestação de vida a cada acordar. Do sabor de um café. De um beijo. De uma sopa em um dia de gripe. De uma viagem a um lugar desconhecido. Como não pode ser o bastante? Me diz como isso tudo é pouco. E pode ainda nos fazer tão cegos a ponto de acharmos que cada morte tem um hora, cada passo tem um destino e que, disso aqui, haverá um livro no final explicando a razão de cada sofrimento.

É tão difícil dizer para alguém que a vida acaba. É tão custoso explicar porque eu sofro com cada morte que não é minha. E para mim é tão certo, triste e natural saber que a vida se vai a cada dia.
Não é falta de fé. Só não consigo viver fingindo. E só pretendo, neste texto, dizer que podemos conviver com essa percepção. Que podemos ser melhores a cada dia que se vai. Menos perfeccionistas em uma vida que nos falta controle. Menos invencíveis. Menos importantes. Nós não somos nada.

Tão fracos quanto uma pedra – que pode quebrar com qualquer batida mais forte. Tão insubstituíveis quanto um grão de areia. A natureza continua. O céu fica. O calor permanece. É mais uma vida que se vai. Somos nós buscando explicações dentro um universo que, só por existir dessa forma, já é maravilhoso.

Outro dia em uma festa de amigos, um deles me perguntou porquê eu achava que aquele encontro não iria se repetir. Não vai. Por isso resolvi ficar um pouco mais. Por isso tomamos mais algumas cervejas. Por isso estendemos as canções.

É muito confortável passar os dias pensando que o que morre é porque Deus leva. Que os motivos não podem ser questionados. Que as horas das pessoas estão cronometradas sejam crianças, velhos ou jovens prestes a se casar.
A percepção doí. Hoje me sinto um pouco mais conformada, acho. Não fico tentando entender. Somos frágeis apenas. Protegidos por nós mesmos e por uma natureza que segue, independente de quem vai ou fica.

As nossas possibilidades valem para o dia de hoje. E é isso o que nos temos.

Obs: foto cheia de beleza, sem tratamento –  tirada na primeira viagem que fiz sozinha, em 2011.

que tolos fomos nós.

Captura de Tela 2013-12-15 às 23.38.11Antigamente a gente dizia que o cara que você gostava não estava com você porque ele era um tremendo de um bon vivant – queria curtir de buenas a vida solteiro. Uma outra possibilidade era ele ser muito jovem ainda para compromisso. Tímido. Ocupado demais. E também porque ele não queria te magoar caso não rolasse algo mais sério.

A gente costumava pensar que ele não tomava iniciativa porque a ex ainda ficava no pé. Porque ainda morava com pais. Porque não tinha carro para te levar aos restaurantes. Ou então pelas muitas opções do mercado – ele poderia ter a mulher que quisesse e por isso não te enxergava no meio do bolo.

Um outro motivo era a grande amizade de vocês – e qualquer aproximação poderia tornar isso tudo um caos. Ou pelo fato de vocês realizarem muitos trabalhos juntos – ele é muito profissional para esse tipo de coisa. Faltavam oportunidades também. Correria. Sem contar o fato de ele não saber, claramente, que você era afim dele.

Mas isso tudo foi antigamente. Imagina.
Hoje a gente sabe exatamente o porquê de você estar aí pensando em alguém que não está com você. É que, por mais simples que possa parecer, ele não gosta de você. Apenas. E se por algum motivo você voltar a pensar como em épocas passadas…volte aqui, releia esse texto. Isso vai te ajudar a lembrar do porquê.

Esse é o tipo de cara que quando está longe, você nem se preocupa, se ocupa com outras coisas. Porém, toda vez que encontrá-lo – em uma situação casual que seja – vai bater aquela coisa: você vai se lembrar que gosta dele e que ele ainda…não gosta de você.

Ps: João Gilberto diz em uma de suas músicas: “Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar nas coisas do amor”.

Se você gostou desse texto, vai gostar de:
- Covardiamos

os salões de beleza e a nossa cegueira diária

luz

Eu não tenho paciência para ir em salões de beleza, minhas unhas sempre foram curtas demais para serem feitas.

Mas hoje, depois de anos, vi que elas tinham crescido um bocadinho, estavam querendo aparecer, trazer um ar mais caprichado para a rotina…logo vi que só durariam com esmalte. Marquei horário em um salão aqui da rua mesmo, e pela primeira vez em 1 ano como autônoma, saí no meio da tarde para fazer a unha. O sol estava bonito, bateu no rosto. Fui a pé. Vi que o prédio que estão levantando aqui perto já está quase na metade. O ano se foi.

O salão estava calmo. Nada como uma terça-feira à tarde para perceber que um salão de beleza com pouca gente pode ser uma experiência interessante. A televisão estava ligada. Estiquei os pés na água. Permiti que as mãos relaxassem. Fiquei pensando há quanto tempo não me desligava do mundo às 4h da tarde para fazer as unhas. Ninguém disse que era proibido. Mas nunca tive certeza se era permitido. Estipulou-se que devemos olhar para o computador o dia inteiro. Às vezes fica difícil fazer outra coisa.

Enquanto acompanhava o filme na tv, ouvi um barulho do meu lado e logo vi que tinha uma moça andando com os pés arrastados tentando chegar na cadeira do cabeleireiro. Assim que ela se sentou, percebi que ela é cega. A dona do salão começou a cortar seu cabelo, elas conversavam de coisas aleatórias e davam risadas. Puxa. Descobrir que ela é cega foi como pegar meu coração, cortar um pedaço e deixar a parte que sobrou funcionando. Aos trancos e barrancos.

Imaginem que cortem seu cabelo. Que arrumem seu cabelo.
Mas você não pode ver nada disso. Pode apenas imaginar. Tocar. Sentir o a distância dos fios até o pescoço e se despedir ao sair da cadeira.
Mas ela sorria. Se deixava levar em um momento particular de beleza.
Fiquei pensando, ali do seu lado, que eu podia ver minhas unhas ficando vermelhas e se enchendo de cor. Eu poderia olhar para o espelho e reconhecer o meu cabelo também, se eu quisesse.

Naquele pouco tempo, percebi que eu era privilegiada por conseguir observar minhas mãos naquela tarde ensolarada. E que aquela moça sentada, cega, é muito mais forte do que eu. E muito mais forte do que todas as pessoas que eu conheço. Ela é cega. Não pode ver nada. Nem o céu desse dia. Nem as pessoas passando. Nem seu cabelo recém-cortado. E ela sorria. Sorria sinceramente e se aproveitava de todo aquele prazer genuíno de um salão de beleza às 4h da tarde.

Saí com as unhas coloridas. Ela saiu com o cabelo bonito.
Pisei na calçada e desejei não me esquecer dessa tarde em qualquer dia desses que, por um segundo, eu achar que alguma coisa não está certa. Que está faltando algo. Que poderia ser isso ou aquilo.
Não quero apenas ser forte como ela. Quero em todos os momentos da minha vida enxergar tão bem quanto ela enxerga, sendo cega.

Obs: A foto desse post é daqui

pela sua vida, ninguém se importa.

escolhasPara mim que rezo pouco, escrever é uma espécie de oração.
E hoje eu preciso rezar.

De todas as coisas que tenho ouvido nos últimos meses, a melhor é: não devemos fazer nada apenas para agradar as outras pessoas. A gente vai aprendendo isso com o tempo. É um treino. Vivemos pensando o que outros vão achar disso ou daquilo e a verdade é que isso pouco importa. Somos sozinhos ao tomarmos decisões e precisamos saber que ninguém, no fundo, se importa tanto. Estamos com amigos e conhecidos ao redor. Mas ali, em sua profundidade, você é apenas o seu particular.

Fim de ano é o momento mais íntimo que existe. E não acredito que devemos apenas acompanhar nossa rotina como se fosse uma história em quadrinhos e ir tocando as coisas até que se resolvam, ou entrem no eixo sozinhas. Nada vai acontecer a não ser que você deixe-se ir. E com toda a sinceridade encaminhe o que quer viver daqui para frente.

É que essa é a fase em que a alma se abre, em que ela pede um pouco de concentração para que a vida não seja apenas levada, e sim conduzida e reiniciada com toda a dedicação. Não quero que resolvam ou que escolham por mim. Desejo apenas ter, o tempo todo, a sabedoria e coragem de decidir o que eu quero fazer e o que eu espero para cada um dos meus dias. Eu sou responsável por todas as minhas decisões.

PS: foto daqui.

Sobre morte, trabalho e amor.

Captura de Tela 2013-10-22 às 23.05.51

Minha mãe foi levar flores para o túmulo da minha avó em uma cidade perto de Catanduva. Chega disso, mãe. Isso não faz bem.
Melhor as pessoas serem cremadas, disse ela. Assim elas voltam para onde vieram.
O nada.

Tem dia que é difícil. Fim de ano é uma angústia. É minha avó que morre a cada Natal. Somos eu e minha mãe chorando no telefone. Que merda. As pessoas não voltam mesmo.

Podiam nos dar a chance de ressuscitar uma pessoa por vida.
Cada um, a partir de hoje, tem direito de trazer uma pessoa para que ela viva por mais 1 ano. Ê, vó. Eu te traria agora. Pra gente ficar conversando sem interrupção até os meus 27 anos.

———-

Nunca achei que eu fosse me acostumar com a vida de autônoma. Ficar quieta. Sozinha. Eu e o vento. Às vezes a chuva. O silêncio de uma casa em que só eu existo durante a manhã e tarde. Hoje saí para comprar lâmpadas, passei pelo senhor que vende cocadas na minha rua e fiquei pensando como é bom e abençoado trabalhar em casa. São fases. Esta é a minha fase de trabalhar na minha casa. De fazer dela o espaço mais criativo que possa existir. Obrigada. Tenho sido feliz.

———

Li sem querer hoje umas mensagens que troquei com um ex-namorado, de meses atrás. Ele dizia “mi amor”, eu dizia “amanhã quero mil beijos”. Hoje não dizemos mais nada. Não significamos mais nada. Continuamos sozinhos. No aguardo. As mulheres esperando que um homem salve suas vidas. Os homens esperando o próximo jogo de futebol. O amor não fica. Ele apenas se movimenta entre os dedos, bocas, pernas, pés e esvazia garrafas de vinho. De registro, só tenho pequenos trechos. Você passou.

*foto de sourire.

Se você gostou dessa crônica, pode gostar de:
Alguém avisa?
Acorda!
Traduzir-se
A indiferença da bandeira