sono

sonhei que sabia que estava sonhando.
e por saber que estava sonhando, pedi um cachorro.
e com o cachorro pedi uma estrada em linha reta com jardins.
e corremos por ela, eu, o cachorro e mais um monte de gente que ia aparecendo no caminho. e elas tocavam flautas, violinos, e jogavam basquete na quadra ao lado – que eu também pedi.

apontei pro céu e pedi algumas folhas caindo.
e comentei com um cara que sabia que estava sonhando. ele sorriu. eu o beijei.
e parti com meu cachorro. de braços abertos. correndo para os nossos sonhos, transformando tudo em movimento.

o celular tocou. acordei.
e me lembrei que sonhava.
e sabia que estava sonhando.

sobre saltos.

tem um nova vizinha, no andar de cima.
e todo dia às 5 da manhã ela começa a andar de salto pela casa inteira, se preparando para ir trabalhar.
na cama, o barulho do salto me desperta dentro de um sonho meio acordado que diz:
– tomara que ela perca o emprego / tomara que ela nunca mais use esses saltos para trabalhar.
pensei em deixar um bilhete embaixo da porta: – oi, eu sou do 72B, você pode colocar os saltos só quando sair de casa? / mas aí corro o o risco de ela se uma daquelas vizinhas que atiram nos outros vizinhos sem conversar.
– veja bem, tá frio, tá cedo,
fique com seu emprego, seus saltos, mas me deixe dormir mais uma horinha.

(talvez eu tente mesmo um bilhete)
e que raios de vantagens existem em morar em apartamentos.
ah se fosse uma casa, com uma pitangueira no fundo. sem saltos, sem vizinhos no andar de cima.

saudade de casa.
já tô precisando de novo.
me espera.

a primeira vez dos 28.

amanhã vou pra casa.

e em 10 anos ainda é sempre a primeira vez.
a primeira vez eu que volto. a primeira vez que entro naquele ônibus. a primeira vez que eu abraço.
ainda é a primeira vez que sinto falta. que me emociono. que não entendo um monte de coisa.

voltar pra casa é se segurar por dentro.
é pedir pra deus voltar a existir para que os dias durem mais um pouquinho.
é parar de envelhecer. e ver que todo mundo ficou velho.

é querer colocar tudo numa caixa para olhar de novo quando der vontade.
é me lembrar que os 28 vieram para eu sentir com todas as forças.
porque eu defini, a partir de hoje, que dos 28 aos 37 seremos os melhores. sentiremos tudo.
não precisaremos mais falar das mesmas coisas. e nem irmos aos lugares que não queremos.
fazer 28 é não ser obrigatório em lugar nenhum. só onde eu quiser.

e por isso volto só onde tiver vontade. choro com quem tiver perto.
bebo com os melhores. perco o tempo com o que me faz maior.
celebro todos os dias. e paro de falar com quem não quer ouvir.

paro de falar. e começo a ouvir.
e a assistir. pra não perder os espaços, os goles, e os novos.
os novos dias. as novas expectativas. os novos velhos sentimentos.
que arrebentam, se jogam, e festejam – porque não temos nada.
só os meus 28. que poderão ser do meu jeito, de qualquer jeito, de importâncias que eu definir.

pensa bem. de que adianta esse tanto de preocupação.
se a vida vai levando. e a gente vai sendo levado junto.
eu não quero assuntos desperdiçados.
vamos apenas tocar para frente, e nos tornarmos imediatistas.
eu não vou esperar mais nada.

quero que tudo aconteça hoje.
para que os momentos sejam sempre frescos e agora.
e para que eu só volte para onde eu quiser.

por isso amanhã,
eu vou para casa.

——-

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São Paulo

A minha vida em Araçatuba
O que não me contaram

mini crônica de domingo 1

acordei às 10h, peguei o jornal na porta e comecei um dos rituais que eu mais gosto de domingo. fazer café preto, preparar tapioca com queijo e esparramar tudo pela mesa – xícaras, folhas de jornal, geleia e o que mais for preciso pra fazer uma manhã perfeita. fiquei lembrando do sonho à noite, em que eu caminhava por horas com josh radnor, o ted de ‘how i met your mother’ – a única série que eu acompanho. andando, eu falava em português até eu começar a falar em inglês e descobrir que ele não estava entendendo nada anteriormente. e andamos. andamos. andamos. e rimos. e ele foi uma ótima companhia.

minha irmã acordou.

– tô ansiosa.
– pela viagem de amanhã?
– não. pela vida. os dias estão passando. eu quero fazer um monte de coisa. e não vai dar tempo.

ela ficou em silêncio.
eu fui lavar a louça.
pensei que seria bom viajar hoje à noite para nova york. e ligar pro josh. hey, tô aqui na sua cidade, vamos marcar um café. falar de coisas por aí. e caminhar. caminhar. caminhar.

o escafandro

Escafandro e a borboleta

Não sei baixar filmes na internet. Não gosto de comprar dvds piratas.
Sou das antigas. Quando passa na tv eu gravo. E assisto assim que posso.
Agradeço ao mais novo recurso da NET que disponibiliza um sistema que permite pausar, voltar e gravar os programas. Como fazíamos com as fitas VHS no passado. Só sei ver filmes assim. Não me peça pra baixar nada. Eu não sou desse tempo.

Gravei o Escafandro e a Borboleta. O filme ficou 1 mês no sistema. Eu achava que seria pesado demais para aquela tarde. Para as noites. Para o fim de semana.
Agora em dezembro, de férias, gravei de novo no sistema aqui da tv da minha casa do interior. E então eu tinha dois Escafandros. Um em São Paulo. Outro em Araçatuba.

Coloquei um pedaço pra ver hoje cedo. E segui até o final.
Acidente cardiovascular.
Escafandro é um filme que eu gostaria de ter feito. Nunca fiz cinema. Mas queria Escafandro.
Bonito. Bonito de doer. De chorar. De assistir a vida toda.

Jean Bauby só mexe o olho. Mas fala o tempo todo, em pensamento. E vai lembrando…de quando fazia essas coisas gostosas que a gente faz todo dia…andar, comer, beber, fazer a barba, dirigir, espirrar, pentear os cabelos.
E eu que mexo os olhos, as mãos, os dedos, os cílios, as pernas, os pés ….estou perdendo alguma coisa?

Não acredito em céu, amigos. Não vejo vida após a morte.
Acho a vida maravilhosa e triste todos os dias. Nos vejo festejando todos os dias. Gosto de festejar todos os dias. De amar todos os dias. E achar essa árvore de natal aqui do meu lado bonita, mesmo com o fim do natal. Se pudesse tirar uma foto mental, seria da janela da sala aqui de casa com o meu gato passando sobre ela. Sinto falta de todas essas coisas que ainda tenho. Acredito mais em acasos fabulosos do que em destino. Sou otimista nesta vida e pessimista pós-morte. Vejo o ser humano como um mestre do ilusionismo por criar uma casa de bonecas todos os dias. Trabalhamos. Pagamos conta. Criamos problemas. Resolvemos problemas. Vamos à manicure. Cortamos o cabelo. Fazemos compras. Arranjamos dramas. Engraxamos o sapato. Passeamos com o cachorro. Vivemos sem fim. Somos ilusionistas lúdicos. Burros inconformados. Criamos Deus. Mantemos a mente ocupada. Combatemos o tédio. Brincamos de casinha. Estamos sempre nos distraindo. Eu sei. Morrer é mesmo uma pena.

Um dia, não vamos todos nos encontrar. Os mortos, com os pré-mortos, os vivos, com os pré-nascidos. Não. Não vamos. Talvez semana que vem se marcarmos um café. Digo, vivos com vivos.
O fim da vida é tão doloroso que só nos resta deixá-la bonita. Comemorarmos o réveillon. Torcermos por mais dias. Desejarmos que os aviões não caiam. Que os carros não corram. Que a gente viva mais um pouco. Que não tenhamos um acidente cardiovascular. Um derrame. Que dê tempo de fazer mais um monte de coisas não importantes. De curtimos mais esse vento que entra aqui na sala. E de eu treinar mais um pouco meu breve repertório no violão.

Escafandro é tão bonito que corta. É um filme que abraça nossa dor escondida e abre caminho neste monte de distrações.
Acabei o filme e voltei pra vida. Pra janela onde passa o meu gato. Para as balas de café em cima da mesa. Para eventos desimportantes. Para os instantes pequenos. Para esse monte de beleza e para esses dias descompromissados no interior, cheios de tempo. Eu tenho vontade de chorar várias vezes. Sinto emoções instantâneas. Daquelas que aparecem nos momentos bonitos e me trazem saudade imediata.
Tem sido dias tão bons.
Que a vida não os leve de uma vez.

dezembros festivos

Amigdalite aguda.
E qual é a causa doutor?

Dezembros festivos. Felicidade pós-novembros. Coração que voa.

(Não. Ele não disse isso. Mas deveria.)

Foi chuva, com sol, frio e corres. E vírus. E bactérias. E a falta de guarda-chuva no último domingo.
Cefadrolixa. Tome um comprimido a cada 12 horas.

Eu acordei ruim. Mas acordar ruim em dezembro ainda te faz acreditar em própolis, mel, reza, cachaça e antiflamatórios. Dormi ruim. E acordei com um fecho no pescoço. Eram duas facas na garganta cortando cada saliva, água e vento que cruzava. Eu precisava de uma receita. Eu precisava de um antibiótico. E este é o momento em que você reprime quem inventou o antibiótico com receita. E reprime ainda mais quem inventou o antibiótico com receita em são paulo. E se desfaz de quem inventou o antibiótico com receita em são paulo em dezembro. E não acredita que alguém possa ter inventado o antibiótico com receita em são paulo em dezembro, quando os médicos não tem mais horários, e quando o que você mais quer – é tomar depressa o antibiótico e voltar a festejar.

Quando se tem dor de garganta os espaços se fecham.
Some mais do que a voz. Desaparece o ritmo. Os olhos choram. É dor que chega arrastando sofás, horas e ânimos.
Consegui marcar com um Dr. Mitri. Para chegar até à sala do seu consultório era preciso pegar um elevador com ar condicionado. Por que colocam ar condicionado em um elevador que te leva ao otorrinolaringologista? Ninguém com nariz, ouvido ou garganta em chamas vai gostar de um ar condicionado nesse momento. Me deixe no calor, Dr. Mitri. Desative essa caixa gelada.

Já tem cadastro?
Não – balancei a cabeça. (E também não quero fazer)

(Eu não disse isso. Mas queria.)
Porque soletrar seu nome, CEP e endereço quando se está rasgando por dentro, é de arrebentar, bicho.

Me deixe apenas sentadinha aqui. E avise ao Dr. Mitre que eu só preciso de uma receita.
– 300 reais.

Tem certeza?
Ele nem precisa me olhar. São os dezembros festivos. Diga a ele.

Esperei na típica sala de consultório.
Revistas velhas, plantas de plásticos e vale a pena ver de novo na tv.

E ele veio.
Dr. Mitri é um gordinho simpático. E cobra caro pelos seus 15 minutos.
– O que está acontecendo?

Preciso de um antibiótico, Doutor. Estou morrendo.
– Deixa eu ver isso.

Amidaglite Aguda.
Cefadrolixa vai te ajudar. E nimesulida pra dor.

Ótimo. te amo.
pra sempre.

Mas eu nunca tive isso.
– É o estresse pós-trabalho e esse tempo seco. É São Paulo que não ajuda.
Ajuda sim, doutor. Estou festejando por dentro. Só preciso de uma receita.

Tchau.
Tchau.

Descobri que quando se está com amigdalite aguda, sente-se fome quando não se consegue comer.
Na frente do consultório tinha uma padaria – repleta daqueles mini panetones de fabricação própria, com a uva passa caseira e a massa grossa que rui a garganta mas abraça o estômago. E este, aprendi, é o verdadeiro espírito gordo. É aquele que vai à padaria antes da farmácia.

Segurei a receita de um lado e o panetone de outro. Andei mais um bocado, entrei na farmácia e flutuei. Entrar numa farmácia com uma receita de antibiótico quando se está a ferver a faringe, é como encontrar um mc donald’s no meio da estrada – voltando da praia.

Já tem cadastro?
Sim. Sou cadastrada no mundo. E tenho receita.

(não disse isso. mas.
enfim. não quero o cartão da loja)

Consegui os remédios. E me vi voltando pra casa tentando comer o panetone de um jeito que ele não precisasse passar pela garganta. Arrumei uma forma que foi mastigá-lo 52 vezes e engolir a pasta de olhos fechados para que a dor sofresse sozinha. É péssimo comer quando não se pode comer. Como é bom aproveitar uma massa e um vinho quando se tem garganta. Neste momento, eu só tinha um panetone seco e um estômago faminto.
Pelo menos agora já estava alimentada e só precisava chegar em casa para mergulhar num copo d’água.

No caminho, um homem estranho ficou olhando minha sacola da farmácia. Ele andava e virava pra trás. Andava mais um bocado, e tornava a olhar.
– Quer panetone, amigo? Que hoje tu não leva essa sacola.

Cheguei no meu prédio e o porteiro pediu para eu esperar.
– tem uma encomenda pra você. espera?
eu não posso, não. eu não posso mais não.

corri.
abri a caixa do remédio. comprimidos laranjas.
o primeiro antibiótico da minha vida. o melhor presente de natal naquele momento.

tomei uma cápsula e vi estrelas.
porque quando se toma um antibiótico com amigdalite aguda, meus amigos, a vida é maravilhosa.

dezembros festivos.
me esperem.

são paulo

antes de são paulo eu não tomava cachacinha.
eu não gostava tanto de vinho.
e não bebia cerveja.

não é tão difícil assim gostar de são paulo. cheguei aqui chorando. e hoje choro de tanta coisa boa que ela me trouxe. de tanta gente que conheci. de tantas garrafas de vinho que já dividi.
ontem um amigo me disse que quem vem de fora ganha mais em são paulo do que quem já está dentro. ganhar – no sentido de absorver mais emoções, de sentir a cidade mais profundamente.

se assim for, i am lucky.
porque tô sempre indo e voltando pra são paulo. mesmo quando estou por aqui.

outro dia, eu disse a uma amiga que são paulo é o sofrimento que faz bem. é a chuva quem vem quando você tá de chinelo na rua. o barulho que insiste quando você quer sossegar. a saudade que arde mais que cachaça velha.
são paulo contrai os vasos. um labirinto de gente que se conhece e desconhece. um poço infinito de maravilhas e dores. um sossego que só vem com escritas noturnas.

são paulo me abraçou. me pegou com 17 e deixou com 27. me mostrou o café do cinema ali da reserva cultural. a coxinha do veloso. o pastel de palmito da mercearia são pedro. as tardes de hambúrguer no z deli. o cinema do conjunto nacional. o rocambole da casa das rosas. o sorvete da dri dri. as andanças por pinheiros. os violões na casa do franca. os bons dias com minha irmã. os vídeos. o café da livraria cultura. os amores tortos. as gargalhadas profundas. os acasos na avenida paulista. os pés pra cima no meu sofá.
é melhor estar em são paulo com 27 do que 17. é uma bagunça mais arrumada. é a casa em ordem. os pensamentos mais livres. virei adolescente. estou benjamin button. quando mais envelheço, menos preocupada me sinto com as coisas. menos ansiedade. bem menos. vou voltando a ser criança. que às vezes, bebe cerveja.

e já pensei tanto na vida em são paulo, que estou quase com 47.
aqui tem dessas. a gente que é de fora. que é caipira. fica mais à flor da pele com as coisas. com os piscas na rua. com tanta cidade grande a cada dia que passa. com tanto dia que acontece. a gente fica meio bobo, ainda deslumbrado depois de 10 anos – com esse monte de sonhos que ela ajudou a realizar.

são paulo leva. a idade. as pessoas. o tempo.
mas deixa, ô.
deixa tudo aqui. eu vou me lembrar sempre.