Sobre Clara Vanali

Jornalista, 24 anos, já trabalhou com jornal impresso, televisão e internet. Vencedora da 4ª edição do Concurso Universitário de Jornalismo da CNN, Clara também foi finalista do 3º Prêmio Banco Real Jovem Jornalista organizado pelo jornal O Estado de São Paulo. Em 2009, ela se aventurou no Curso Abril de Jornalismo e hoje é repórter da Editora Abril.

Começar um relacionamento

A pia está limpa, a louça inteira lavada e o que vê é um cenário perfeito: sem sujeira, pratos, nada.

Começar um relacionamento é como usar a louça novamente e apoiá-la em cima de toda a pia. No começo, há o receio de bagunçar o espaço limpo. Foi tão difícil deixá-lo em ordem. Mas uma hora, tudo inicia-se da mesma forma. Primeiro apoia-se um copo. Depois uma xícara com a borra do café, bem devagar. Usa-se um prato, uma panela e alguns talheres. Na sequência, colheres, facas, garfos e quando se vê encontram-se pegadores de macarrão, de sorvete e espremedores de limão.

Aquela pia ali, limpa, já se faz cheia de coisas. Cheia de vida. Do vinho que acompanhou a massa, das bordas de pizza, dos petiscos que ainda estão doces, das cascas de limão usadas no mousse servido na sobremesa. Uma pilha. De expectativa, de medo, de tanta coisa que – se não der certo – precisará ser lavada novamente. Uma a uma. Até que se apaguem as marcas, a saudade, a falta de algo que já foi.

Os pratos. Resilientes como nós.
Resistentes até quando quebrarem.
Usa-se, lava-se e enxuga-se. No meio disso tudo, ama-se. E acumulam-se histórias por toda a parte, músicas, restaurantes, mensagens, beijos, nós. E os pratos. Que logo estão lá, enchendo a cozinha, lembrando que um dia já foram a melhor versão de nós mesmos. Panelas. Um punhado de metal, tefal e alumínio raspado várias e várias vezes até sair a casca e aparecer o fundo. Até terem toda a sua parte saudável arrancada pela esponja áspera –  que encaminha tudo o que não deu certo pelo ralo. Eu e você. Que já encontramos tantos ‘eu e você’ por aí e que insistimos e persistiremos até sujarmos cada taça, bowl e jarra que surgirem em todo o processo.

No final dessa brincadeira, estaremos lá, de luvas, fazendo espuma com tudo. Escorrendo os copos, as lágrimas, as canecas que um dia já carregaram leite, sucrilhos e sopa. Passando a mão nas beiradas da pia para tirar o excesso de água, de expectativa e memórias. De você.

No dia seguinte, o primeiro copo do dia. O gole do início, uma nova história pronta para começar. Uma repetição que a gente já conhece. Tudo igual. E por que sujar pratos que já foram limpos e curados? Por que amar quando já se foi amado? Detonado, surrado. Cansado.

Talvez, eu penso, porque já fomos felizes, emocionados e todos os adjetivos que nos transformam em buscadores oficiais da repetição. Daquilo que já vivemos. Queremos relembrar. Como é mesmo a sensação de usar pratos novos, limpos? De percorrer um caminho em que pisa-se com cuidado até se chegar no ápice da satisfação e de momentos que, de tão fascinantes, nos fazem esquecer da bagunça que irá se empilhar no dia seguinte. Quero a bagunça.

E é mesmo assim. Curioso.
Um processo exaustivo que – no meio de tanta coisa, eventos, casualidades e pessoas – nos mostra que a gente sempre consegue lavar tudo o quê sobrou e começar de novo.

o que eu sinto quando tenho o apê.ritivos

Puxa, essa é uma fase muito feliz que – tenho certeza – vou lembrar com muito carinho por toda a minha vida. A revista TPM fez uma entrevista muito bacana comigo e com o Gabriel sobre o apê.ritivos. Na condição de jornalista, eu sempre achei esquisito essa coisa de dar entrevistas. Mas nesse caso não foi entrevista, foi bate-papo, conversa, bom demais. Obrigada. Fiquei emocionada com o resultado e essa pergunta resumiu bem o nosso frescor desta época:

O que mudou na vida de vocês depois da estreia do programa?
Gabriel: Mudou muita coisa. Primeiro as pessoas que estão perto da gente, os amigos sempre vêm comentar com a gente, pessoas que não conhecemos! Fui a festa da Clara e foi como se todos os amigos dela também fossem meus amigos.
Clara: Foi como respirar novamente. Eu tenho minha rotina no meu trabalho e depois do primeiro programa as pessoas foram tão receptivas e amorosas que isso acabou criando uma nova alegria na minha vida. Eu e o Gabi sempre quisemos ter um projeto pessoal. E muitas pessoas também têm essa vontade. Então tem gente que começou a chegar até nós por causa disso. No começo achei que seria difícil mostrar a minha casa. Mas nós estamos levando de uma forma tão leve que tem sido um prazer. A gente queria ser feliz com esse projeto. O apê.ritivos foi pensado assim. O programa não é pra ser estressante. O que está dando pra fazer é uma vez por mês e a gente está mantendo assim pra fazer com qualidade, tranquilo.

No meio de tanta alegria, gravamos este vídeo essa semana apenas para brincarmos, cantarmos, transbordarmos a nossa satisfação de no meio de tantas dúvidas, sonhos, frustações e medos – nossos e de todo mundo – estarmos fazendo algo que de fato nos tira o ar e nos transforma na versão mais sincera de nós mesmos. Obrigada, mesmo.

O dia e a noite do metrô de são paulo

Hoje meu bilhete único estava sem carga. Mas eu só soube disso quando fui passá-lo na catraca do metrô e máquina avisou que o saldo estava esgotado. Droga. Minha carteira ficara no trabalho no dia anterior. Nem me lembro porquê, vaivém diário, coisas de São Paulo.

E o quê a gente sente quando estamos dentro de uma estação de metrô, longe de casa, sem um real no bolso? Nem recarregar meu bilhete eu podia porque as máquinas de regarga não aceitam cartão de crédito. E como eu iria para o trabalho?
Resolvi sair da estação. Subi uma leva de escada rolante e quando cheguei até à calçada tinha um banco bem na frente com vários caixas eletrônicos dentro. É por isso que eu gosto de São Paulo – pensei. Pela vantagem de se encontrar um banco ao lado de uma estação qualquer de metrô que me permite tirar o dinheiro e seguir a vida normalmente. Tirei o dinheiro, recarreguei o bilhete e segui. Feliz.

Esta cidade tem dessas. Dessas de oferecer facilidades mesmo quando nada parece dar certo. E não é só isso. É essa variedade de coisas que apaixonam, esses cinemas com filmes que a gente não consegue assistir em qualquer cidade, são as feiras livres nas ruas, os museus que eu ainda nem conheço, as comidas exóticas, as bebidas que aproximam os amigos que eu vejo todos os dias e aqueles que não vejo há um tempão.

Mas São Paulo também sabe oprimir e com a mesma carga de energia que consegue nos fazer feliz. E sabe qual é a parte opressiva de morar em São Paulo? Voltar para casa ao final do dia. Eu não sei explicar bem como, mas esse lugar tem uma capacidade sufocante de fazer uma reviravolta no nosso dia após às seis da tarde. Ela escurece e some. Traz apenas o caminho escuro, cheio de sombras até o metrô. E mais um monte de gente seguindo o mesmo caminho, com os rostos cansados, jornais lidos pela metade embaixo do braço, notícias velhas, sonhos velhos, um cansaço que quer apenas nos levar para casa. Logo.

A mesma catraca do metrô que nos enche de força e potência na parte da manhã é a que se fecha cheia de angústia desejando que você volte, se conseguir, no dia seguinte. É interessante comparar os rostos que seguem às dez da manhã com aqueles que voltam às oito da noite. De dia as bochechas estão coradas, o rímel no lugar, os perfumes ainda cheirosos no pescoço. À noite, a constatação de que o dia foi apenas rotina. Nada de mais. Nada de menos. O mesmo.

E o que pega mesmo é a solidão. Essa que o meu tão querido dicionário de sinônimos também chama de isolamento. É conviver com milhares de pessoas que passam ao nosso lado nas ruas, é dar risadas no trabalho, entrevistar pessoas interessante, dar e receber elogios, distribuir bom dia, compartilhar projetos e voltar para casa em um desconsolo que não há quem aguente. Apenas nós. A gente sempre aguenta. Às vezes, sentada em uma das cadeiras do metrô, tenho vontade de cutucar a senhora do lado apenas pra dizer – o seu dia foi cansativo, né? uma droga? então pode falar que foi, diga aí, grite no meio do metrô, não tem problema – nem sempre precisamos mostrar que somos as pessoas mais felizes do mundo. Diga, senhora, a todos eles, que a volta para a casa é bem sufocante, que esse horário é foda e que tudo parece longe, tão longe.

É a noite, é o caminho de volta. É o ciclo que abaixa as nossas energias para que a gente retome a condição de frágeis, sonhadores, soldados de um ir e vir que e é igual para todo mundo. São passos, um atrás do outros, que nos fazem reviver aquele dia inteiro em nossas cabeça – com ideias rodando, nos fazendo pensar que devemos diminuir a coleção de livros não lidos, que o jantar tem que ser melhor que um sucrilhos no prato e que estamos quase encontrando o amor de nossas vidas. Ou que estamos bem longe disso. É a lua que não está cheia, é aquele dia sem compromisso, sem aniversário e sem bar marcado que nos faz apenas seguir andando e andando até o metrô, sozinhos, como somos na maior parte do tempo.

É a noite voltando para o metrô de São Paulo.

Para quando estivermos tristes

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“Você faz piruetas com o corpo e com a imaginação para fugir da tristeza. Mas quem disse que é proibido ficar triste? Na verdade, muitas vezes não há nada mais sensato do que ficar triste; todo dia acontece alguma coisa, com os outros ou com a gente, que não tem remédio, ou melhor, só tem esse antigo e único remédio que é sentir tristeza.

Não deixe ninguém receitar alegrias como quem prescreve um tratamento de antibióticos ou colheradas de água do mar de estômago vazio. Se você deixar que tratem sua tristeza como se fosse uma perversão, ou no melhor dos casos como uma doença, estará perdido: além de triste, se sentirá culpado. E você não tem culpa de sua tristeza.
Não é normal você sentir dor quando se corta? Sua pele não arde quando leva uma lambada?

Pois é assim mesmo o mundo, a vaga sucessão dos fatos que acontecem (e dos que não acontecem) vai criando um fundo de melancolia. Como já dizia o poeta Leopardi: Assim como o ar preenche o espaço entre as coisas, a melancolia preenche os intervalos entre uma alegria e outra.

Viva sua tristeza, apalpe-a, desfolhe-a em seus olhos, molhe-a com lágrimas, envolva-a em gritos ou em silêncios, copie-a em cadernos, grave-a em seu corpo, nos poros de sua pele. Pois só se você não se defender é que ela fugirá, aos poucos, para além do centro de sua dor íntima.”

Trecho do livro “Receitas para mulheres tristes” mas que também serve para os homens, para todos. Estava indo dormir quando minha irmã querida me apresentou esse livro. Não consegui pegar no sono sem antes transcrever esse trecho para vocês – afinal, é bom encontrar um autor que sabe explicar (muito bem) que não há problema em a gente chorar com a mesma intensidade que sorri. 

Caderno de viagem

Hoje à tarde, abri uma gaveta da escrivaninha do quarto e encontrei um caderno em que havia relatos de uma viagem que fiz em fevereiro deste ano, na época do carnaval. É tão bacana reler o que escrevi na época, com as emoções ali frescas. São sentimentos soltos, despretensiosos, que eu não lembraria se não os tivesse anotado. Fiquei com vontade de dividir as linhas com vocês. Segue na íntegra:

Na terça-feira não paramos em Punta Del Leste. Pena. Minha mãe queria tanto conhecer a cidade. Eu igualmente. Mas o mar estava agitado, os ventos fortes demais e por isso, o capitão optou pela segurança dos passageiros. Por tamanho zelo, fomos menos felizes nesse dia. O que vem primeiro? Segurança ou felicidade? Gosto de pensar que a segunda – que nos jogarmos em um mar de riscos nos faz mais satisfeitos que um navio cheio de cautela. Na prática, isso funciona ao contrário.
À noite, antes do jantar, nos reunimos em um bar dentro da embarcação que traz música ao vivo.  A cantora não é feliz – disse ao meu pai desde o primeiro dia. Ela não sorri, em nenhum momento. E como alguém que canta pode não sorrir? Dias depois ouvimos, sem querer, ela dizer que estava cansada da rotina de trabalho no navio. A palavra, na verdade, foi esgotada. Ela queria ir embora.

A vivência diária da tripulação de um navio é bem diferente da vivida pelos passageiros. A maioria com quem conversei gosta. Eles ganham um bom dinheiro, viajam o mundo e conhecem pessoas diferentes o tempo todo. Nos corredores estão sempre sorrindo. Por outro lado, trabalham muito, ficam de 4 a 7 meses longe da família e não podem usar as áreas comuns como piscina, academia, bares e baladas. A cantora, por esses ou por algum outro motivo, não estava mais feliz e não queria mais cantar.

A terça-feira passou e com a quarta chegou Buenos Aires. A cidade veio nova pra mim apesar de já conhecê-la. Começamos pela Recoleta e pelo sol gentil que acompanhou todo o nosso dia. Foi bom estar ali com meus pais na primeira viagem internacional deles. As ruas trazem um conjunto de casas, comércio e praças acompanhadas de uma atmosfera fresca. E nessas horas, eu sempre me lembro do meu amigo Thiago – viajante apaixonado – que diz que não há melhor sensação neste mundo que a de chegar em um lugar pela primeira vez. Não era a minha primeira vez lá, mas por ser a do meus pais também tornava-se nova para mim.

Entramos em uma igreja do bairro. Como é entrar numa igreja sem fé? Como é entrar na igreja da forma como eu entrei? Movida mais pela fé da minha mãe que pela minha.
E a igreja se fez bonita mesmo assim. A beleza existe no estar com a família, com ou sem crença.

Após algum tempo, saímos de lá, seguimos rua afora e fizemos da cidade nossa.

*a foto é das anotações encontradas, que quase se perderam.
na próxima viagem de vocês, levem um caderno e anotem as alegrias e angústias. não há surpresa maior que a de, após um tempo, reviver isso tudo. 

Sobre fazer as nossas vontades ou festa à fantasia

Hoje eu cheguei às seis da manhã em casa. E quando isso acontecia na época da faculdade era porque provavelmente eu não arrumara carona para voltar mais cedo.

Mas hoje não. Eu entrei na sala com o dia amanhecendo. E mesmo sem sol,  o céu estava tão bonito, azul e com chuva. É difícil ver o céu bonito quando está garoando, mas hoje, puxa, aquele vento entrando pela porta da sacada – que eu esqueci de fechar – estava me chamando para chegar, me entregar ao cansaço depois de uma festa que há muito tempo não vivia. Eu, completamente exausta, fechei a porta devagarinho, tirei os sapatos e me deitei para curtir a noite de sono que já era domingo. Apaguei.

Ao acordar, fiquei pensando como o nosso corpo é frágil. Dormir de 6 a 8 horas por noite é tempo pra caramba, mas mesmo assim não parece suficiente. Os pés doem, os olhos ainda estão inchados, a respiração permanece lenta. É interessante pensar que para todos os nossos atos, pensamentos e energias gastas durante a luz do sol, precisamos nos deitar em uma posição horizontal e ficarmos imóveis por horas e horas até que tudo volte ao lugar, ou quase.

E a festa ontem foi realmente boa. Talvez porque eu não goste mais de baladas aleatórias. Acho que nunca gostei. Ficar dançando e sorrindo a noite esperando que algo surpreendente aconteça é frustrante. Mas eu gosto de festas. E festas que eu digo é quando há um desejo sincero e até genuíno de aproveitar todas aquelas músicas com amigos, bebendo pelo prazer de beber, cantando e dançando com pessoas que você sabe que poderia passar o resto da vida juntos.

E foi assim ontem porque, de coração, eu realmente queria estar lá. Coisa que por muito tempo não aconteceu. Quando somos mais jovens (digo até uns 20), participamos de muitas coisas pelo desejo alheio e não pelo próprio – como sair em uma sexta-feira esgotada apenas porque seus amigos estão dizendo que você é careta e que se ficar em casa, envelhecerá mais rapidamente. Ou então deixar de ir em um lugar que você realmente gostaria de ir porque é aniversário de alguém em outro que – se você faltar – vai parecer que não se importa.

E o quê importa mesmo? Onde profundamente gostaríamos de estar. E se são 4 da manhã e eu não estou mais me sentindo bem, eu peço um táxi e me vou. Hoje vai ser filme, amanhã trabalho. E quem sabe na terça uma batata frita com os amigos ou um café na livraria. E se por acaso na quarta eu preferir fazer um macarrão lá em casa, é possível que seja isso mesmo. E não é individualismo. Tem coisas que a gente faz pelos outros mesmo e isso é saudável, é ter carinho com o próximo. A gente vive fazendo isso o tempo todo. Mas com o passar dos anos é mais fácil perceber que só nós podemos saber sobre o que temos vontade e ninguém mais. E se não fizermos o que de fato queremos, quem o fará por nós?

Foi por isso que ontem voltei às seis. Porque eu estava feliz e queria voltar tarde. Porque mesmo sabendo que o domingo faria do meu corpo um cúmplice da agitação da noite passada, tudo aquilo valeria a pena. Aquelas luzinhas espalhadas pela casa, o nosso reencontro de gatos pingados que nos mantém conectados depois de 3 anos de formados, as pessoas fantasiadas de personagens que por uma noite, seriam elas – livres, extravagantes e talvez até decadentes.

E estávamos todos lá pela nossa vontade. Tem algo mais sincero do que isso?
Uma amiga, horas antes da festa, me mandou uma mensagem dizendo que não iria, estava cansada, ficaria pra próxima. E tudo bem, está sempre tudo bem. Ela foi feliz na decisão dela porque é assim que tem que ser. Respeitar o corpo da gente e os anseios sem que os sábados à noite sejam pressionados por programas nos aguardando ansiosamente.

O domingo de hoje foi de nostalgia, de saudades de uma noite que acabou com o dia. A festa física, eu digo. Porque festas boas duram muitos dias, nas fotos, memórias e histórias que se estendem no espalhar das rotinas. Agora são 23h e eu ainda carrego a noite passada, com os olhos ardendo, ávidos por um travesseiro. Mas nada me faria dormir sem escrever esse texto contando todas essas sensações para vocês. Porque, com toda a franqueza, escrever neste blog é a única coisa que eu quero fazer neste momento.

Boa noite.
ou bom dia para você que está amanhecendo.
até a próxima festa.

Um homem e seu tutu.

Um homem vivia feliz com sua esposa até descobrir que ela tinha câncer de mama. A partir daí a luta começou e também a sua vontade de fazê-la sorrir. A vida mostra-se tão frágil e bonita nessas horas, por que não realizar algo completamente inusitado? Foi aí que Bob resolveu fotografar-se em diversas partes do mundo usando um tutu, aquela saia rosa de bailarina. Simples. Fotografar-se para fazê-la rir. O projeto crescer e virou livro, site, camiseta. Com toda a repercussão e ajuda, ele resolveu divulgar suas fotos pelo mundo para arrecadar fundos para organizações de apoio ao câncer de mama.

A primeira vez que eu vi as imagens, achei tudo estranho.
Na segunda vez, me apaixonei – é libertador, corajoso e bonito.

E o quê as fotos querem dizer? Algumas coisas não precisam fazer sentido, servem para sorrir e isso basta. Neste caso, as imagens de Bob conseguem mais. Elas mostram beleza, alegria e dor – sempre a dor. Essa que está na gente, que às vezes aflora e pede para agir. Obrigada, Bob – vida longa ao Tutu Project e às sensações que você nos traz com ele.

Se você gostou das fotos, tem mais aqui no site dele, e a na fan page do facebook.
E se você se animou com esse projeto, pode ser que se interesse por este aqui também.

você e eu.


Sabe o que eu estava imaginando hoje, no meio do trabalho? Não sei bem se é permitido fazer isso em hora útil, mas eu comecei a pensar na gente e foi difícil parar.

Você estava com a sua mão apoiada na minha enquanto dançávamos sorrindo, o tempo todo. E não era uma música qualquer, era Etta James – porque só eu e você sabemos que quando ela canta, os prazos não mais importam, nem as exigências que colocamos em nós mesmos todos os dias.

Em cima de nós havia aquelas luzinhas, sabe? Que são penduradas de fora a fora por cordões que balançam com o vento e competem com as estrelas – só para verem quem é que brilha mais. E continuamos dançando. Você de camiseta branca e calça jeans e eu, ah, pouco importa a minha roupa agora – nós só queremos dançar.

Ao nosso redor há pessoas igualmente serenas sob a umidade noturna. Tranquilas, aproveitando a Etta no meio daquele salão ao ar livre – grande, perfeito para o nosso espaço. Há algumas mesas de madeira, servindo champagne, vinho, água e o que mais a gente quiser. E ninguém nos olha – elas só querem aproveitar a noite e nos desejarem o melhor, sempre. O mesmo que queremos a todas elas.

Você me olha e eu me viro – aquela voltinha que de vez em quando aparece em uma dança de dois passos para lá e para cá. Não precisamos mais do que isso já que estamos bem abraçados e felizes, puxa, felizes. Há tanto tempo a gente se procura, não é mesmo? Por que não aproveitar a sensação de estar exatamente no lugar desejado com quem se quer? Há tanto tempo eu não sentia isso – essa vontade de não estar com mais ninguém. Apenas com você.

Você esqueceu os relógios, eu estou sem os brincos. O seu sorriso é tão bonito e eu espero que você goste do meu cabelo assim, solto. Me parece que sim. Vamos ficar por aqui mais um pouco, eu continuo com a mão no seu pescoço enquanto olho para o palco de frente para os seus ombros. Etta, não pare por favor.

Beijo seu rosto, beija meus lábios. De vez em quando você diz algumas coisas perto do meu ouvido que são sempre para intensificar essa minha comoção e alegria de, no meio de trabalho – com tanta coisa acontecendo – eu estar dançando com você.

Você.
Que eu nem conheci ainda.
Ou será que já?

apê.ritivos – episódio 4


Qual é a sensação de se fazer algo com um amor incondicional? Que te faz pensar: ” é  isso! sinceramente é isso”. Isso é o que o apê.ritivos faz comigo – é essa sensação, uma história com comidinhas, conversas e música que se transforma em uma poesia visual que nos faz querer vivenciar isso o dia todo.

É uma paz de saber que pessoas estão sendo tocadas, sensibilizadas e que isso será eterno, ficará para sempre como um projeto de dois amigos que começaram isso tudo com a intenção de serem felizes e de fazerem com que outras pessoas sentissem o mesmo.

Sério! Puxa!
Obrigada a vocês que compartilharam esse episódio com os amigos e que não só fizerem isso como deixaram mensagens no facebook, twitter e email dizendo que se sentiram entusiasmados e fazendo parte da nossa história. Obrigada a vocês que mostraram aos seus familiares, namorados, primos, para a pessoa da cadeira ao lado. Que assistiram juntos com os colegas do trabalho no mesmo computador. O apê não teria graça se não fosse o que vocês proporcionam a cada episódio divulgado.

A gente faz daqui, vocês potencializam daí.
É tudo muito emocionante e sou grata por isso, obrigada.

Era o que me faltava

Faz uns dois meses que ir na academia deixou de ser uma atividade prazerosa para se tornar uma obrigação exaustiva. Honestamente, sou adepta à vida saudável, pratico exercícios desde criança e doce é o que menos tem aqui em casa. Mas de coração? Ir na academia ultimamente tem sido um porre – cansei daquele ambiente fechado cheio de gente, abarrotado de fones de ouvido e de mundos que não se misturam. Talvez o horário, 7 da manhã, não ajude. Essa é a hora em que a todos estão ali de passagem, levantando pesos enquanto pensam em todo o restante do dia que está por vir como se aquele momento já não fizesse parte dele.  Para mim, levantar cedo todos os dias para ir até lá é uma batalha – não vejo mais graça, perdi.

E foi então que nesse último sábado aconteceu algo muito surpreendente. Acordei com um sol meio nublado que invadia as frestas da janela e ali, profundamente, tive uma vontade sincera de ir correr no parque. Já não estava tão cedo e nem tão tarde, me troquei e peguei o ônibus que passa aqui na av. paulista e segue direto pra lá. O fato é que eu nunca tinha feito isso antes – não sozinha, não assim com tanta vontade. Mas naquele momento a única coisa com franqueza que eu gostaria de fazer era ir até lá.

E segui. No ônibus, um casal de gringos se enrolava para entender o mecanismo da catraca. Como é difícil se locomover em um país que a gente não conhece. Como estava sendo difícil para eles entrar num transporte público desconhecido e ainda pedir gentilmente à cobradora, que não fala inglês, para avisarem-nos quando qual é o ponto mais próximo Ibirapuera. Fiquei fitando-os de longe, minha vontade era falar com eles, conversar, trazer um pouco de conforto em um situação embaraçosa que a gente também vive quando está lá fora.

Desci no mesmo local que eles e assim que se aproximaram de mim para pedir uma informação, me senti bem. Eles tinham em torno de 50 anos. Ela chamava-se Ma Teresa e ele Enrique. E assim, mesmo meio perdidos, estavam felizes da vida. Fizemos amizade, conversamos sobre o seu país, a Espanha, e sobre a cidade em que eles viviam, perto de Barcelona. Eles me seguiram até o parque e contaram sobre sua filha que estava passando uma temporada aqui na cidade, motivo de suas vindas até à metrópole. Após poucos minutos, deixei-os à vontade para andarem, desejei boa sorte e saí correndo – literalmente nesse caso.

A sensação foi de algo que eu não sentia há muito tempo. Como é diferente correr fora de uma esteira coberta com ar condicionado. No caminho – árvores, cachorros, bicicletas e toda e qualquer expressão de vida e de sol que não são prováveis de se ver em uma sala de musculação.  Puxa, como foi gostoso. É como se universo me agradecesse por eu ter feito algo com tamanha verdade. Corri como há muito tempo não corria. Com um abalo emocional à tona. Vontade mesmo.

Após uns 50 min, trombei novamente com o casal de espanhóis e o reencontro foi como de velhos amigos: oba, vocês aqui novamente! Ele com calça comprida, ela de saltinho baixo, nem se importaram com a falta de vestimenta apropriada, tinham percorrido o parque mesmo assim. Batemos mais um papo, trocamos cartões e seguimos as nossas vidas.

Parei uns metros à frente, tomei água de coco e sentei sem pressa enquanto observava um pai ensinar o seu filho a andar de bicicleta – um momento histórico. Ele caía e levantava, se emburrava, dizia que não ia conseguir. E o pai ali do lado, por vezes farto, por outras incentivador, seguia talvez sem se dando conta de quão eterno seria aquele momento na vida do menino. Os dois ali, com os altos e baixos, se entendiam.

No mesmo espaço passavam umas crianças com síndrome de down também andando em bicicletas, desta vez naquelas duplas, pela primeira vez. Elas riam alto, enchiam todo mundo de emoção. Alguns skatistas dividiam espaços uns com os outros e com o restante das pessoas caminhavam com o intuito apenas de se fazerem contentes por aquela manhã. Havia flores.

Terminei de tomar a água e parti para a minha casa. Desta vez, bastante esclarecida do que me faltava até então – aquele sentimento forte que só nos basta quando estiver em tudo aquilo que vamos fazer. Paixão. Era isso.

* foto linda daqui. 

Eu fiz 25 anos.

E saí na rua ouvindo Arnaldo Antunes.
O dia ensolarado trazia aquele vento paulistano gelado que passava pelo vestido e deixava o cabelo mais solto, assim como todo mundo na rua. E sempre que as coisas estão bonitas desse jeito eu me pergunto por quê será que estamos fazendo esse monte de coisa por aqui, neste mundo.

Comecei a andar com a lembrança da noite passada. Daquele monte de gente querida ao redor do bolo, dos abraços fortes que se repetiam com o passar das horas, das nossas mãos dadas, daquela dancinha curta que fizemos, do carinho e cuidado de tantos amigos que deixaram suas casas para irem lá – fazerem do meu aniversário mais cheio de amor.

Naquela manhã eu estava tão feliz que fiz o sinal da cruz ao sair de casa, assim, meio sem querer – passei os dedos pela testa, depois pelo peito seguindo pelos ombros esquerdo e direito. No final, dei um leve beijo no dedo indicador e disse “obrigada”.
Logo eu, que há tempos não fazia um sinal da cruz com sinceridade e que de uns anos pra cá tenho tido minha fé nas religiões tão abalada. Mas eu o fiz, livre. Para Deus, para alguém, para quem quer que seja ele, ou para mim mesma. Foi tão natural como sorrir ou me permitir a qualquer outra coisa.

Segui. Fui comer um lanche, tomar um suco, ler alguns guias de viagem. Escolhi os favoritos e ao passar no caixa, uma atendente muito querida disse que lia minhas crônicas e que gostava muito desse blog. E isso foi como um presente de aniversário. Ela comentou esses detalhes com tamanha alegria que posso dizer que falou por mim e por ela ao mesmo tempo. Fiquei muda, feliz e muda. Tão surpresa que não soube o que dizer. E o quê pode ser melhor para um escritor que ouvir que seus textos são histórias que saem por aí e criam enredos e emoção na vida de outras pessoas? É para machucar os corações, bicho. Isso deixou-me absolutamente sensibilizada. Como pode um mundo complexo nos cobrir de momentos tão surpreendentes como esse?

Felicidade é uma palavra tão grande, mas a vida é muito maior do que ela. Minha mãe sempre diz que devemos viver momentos felizes, sem nos preocuparmos com a busca da felicidade – como se esta fosse uma condição eterna que, ao alcançarmos, não nos escapará jamais. Não. A gente sabe que isso nunca vai acontecer. O que existe mesmo é isso –  uma festa em um bar, uma surpresa em uma livraria, um sol que ilumina até a noite chegar. É uma fé que aparece de repente e traz instantes absolutamente suficientes para nos fazer bem. São os 25 anos.

por que é tão bom fazer vídeos?

Em um texto você fica a imaginar quais são as sensações, os cheiros, o cabelo da personagem e se põe a pensar também como seria o rosto dela, as botas, a voz que por vezes gagueja. Como deve ser tudo isso misturado com a doçura de uma arquiteta que vive exatamente da maneira como quer? No vídeo abaixo, você nem precisa se esforçar para imaginar como seria tudo isso. Você só precisa assistir. O gostinho que vai ficar faltando é o de tomar um café com ela, bem ali no jardim.

o resgate de um guarda-chuva.

fui atrás de um livro do drummond esta tarde.
andei por toda a paulista olhando as pessoas, roupas e a cidade.
cheguei até a livraria, encontrei o que precisava mas esqueci lá dentro o guarda-chuva.

segui pela rua e quando me dei conta da perda, voltei para resgatá-lo.
e o dia estava bom. chuva é sempre bom quando estamos com guarda-chuva.
às vezes também faz bem quando estamos sem.

o fato é que na volta, tive a surpresa de encontrar um amigo querido da faculdade.
ele estava com seu pai vendo uma exposição de carros ali no conjunto nacional, um prédio cheio de cultura da cidade. e foi tão bom vê-lo ali naquele sábado chuvoso –  demos um forte abraço confortante, ele me contou do seu dia, eu falei sobre o meu aniversário que está chegando, ele comentou sobre a roda de violão que aconteceu na sua casa dias atrás e eu sobre a minha procura pelo livro.
após uns 10 minutos, nos despedimos e então fomos embora.

resgatei meu guarda-chuva e segui novamente para casa, contente de ter encontrado o amigo, que há algum tempo não via.
são paulo é grande mas muitas vezes se faz bairrista e transforma essa metrópole numa cidade do interior em que a cada esquina traz a possibilidade de encontrarmos conhecidos e pessoas que diariamente nos trazem saudade. ela é grande mas fornece uma ajudinha quando o assunto é reunir colegas queridos – já que são apenas eles que nos transmitem essa vontade de conversar sem pressa, desejando sempre o bem um para o outro.

porque são paulo é assim.
ela é muito boa, cheia de diversidade e possibilidades – mas sem amigos, não haveria a menor graça em morar aqui, por nenhum dia.

a nossa inocente distração

e eu estava assim bem cedo tentando acordar no meio da avenida paulista. coloquei os fones para ouvir chico cantar mais alto. o novo cd está uma beleza, preciso avisar o meu pai – pensei. a partir daí, viajei. e quando digo viajei, o negócio é longe mesmo. fui para lá, nem sei para onde, não me lembro, só o chico cantarolando e dizendo tantas coisas que levaram minha cabeça para outra rua, talvez para o trabalho, para a minha casa, araçatuba, ou nada disso. algum livro, o meu sono, os meus pés um atrás do outro que não mostravam mais ninguém e mais nada, apenas eu e os ouvidos borbulhando.

acho que por 7 minutos, desde a minha saída do apartamento até a metade do quarteirão da avenida principal fiquei fora. out. tão distante que se alguém gritasse o meu nome naquele momento eu iria precisar de algo mais forte para responder. saí de mim, distraída, não me pergunte como. um ipod e um monte de ideias na cabeça fazem isso com a gente.

o fato é que nos minutos posteriores, aconteceu uma batida de carro no quarteirão pelo qual eu acabara de passar. um estrondo forte que ainda me fez demorar a perceber o que estava acontecendo. as pessoas ao meu redor começaram a correr e a arregalarem os olhos para de, alguma forma, entenderem o que estava ocorrendo. olhei para trás, tirei os fones e vi os dois carros amassados e parados no meio de tudo. me lembrei do post do du lemos, no seu blog, sobre a pressa dessa cidade, que acabou causando a morte de uma ciclista na última semana.

os dois carros, provavelmente, estavam com pressa. um deles passou no sinal do vermelho e fez com que a pressa daquele dia fosse toda por água abaixo. os motoristas não foram trabalhar e provavelmente ficaram o dia todo fazendo boletim de ocorrência e correndo atrás de seguro e oficina. o que era tão importante de se fazer que eles não podiam perder? eles perderam de qualquer forma. nada era tão urgente que não pudesse esperar um sinal abrir.

e no meu mundo longe, fiquei a pensar como a rotina pode dar um basta de uma hora pra outra. eu não estava participando do que aconteceu com o trânsito naquele dia e nem estava com pressa. a culpa não foi minha. mas eu estava fora, alheada. não estava ali, no presente, prestando atenção. eu com meus fones, com o controle de tudo, pensava estar desbravando os quarteirões e o mundo da forma como eu quisesse. mas em dois minutos, dois carros se bateram para avisarem que essa serenidade é passageira. quando menos se espera, a música acaba e todos os planos feitos da saída de casa até a chegada ao trabalho podem mudar. o controle, nem sempre está em nossas mãos.

humildade e cautela – nos chamando a atenção, lembrando de que não somos os donos de nada disso aqui. o caminho, esse monte de planos e a nossa arrogância (inocente, eu sei) para julgar, cobrar, e achar que tudo podemos só porque trabalhamos, lutamos e buscamos os nossos sonhos é inútil. a natureza e a vida, não estão preocupadas com nada disso. em um minuto, a nossa rotina pode ser uma reviravolta.

sobre deus e nós

esperar por deus é como esperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho com a sua minissaia erótica tão desadequada à ingenuidade das crianças.
o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas. 

(valter hugo mãe – escritor que tem uma capacidade assustadoramente fantástica para descrever os conflitos desse nosso mundo)

e tem mais aqui e aqui. 

estão pintando a minha casa

e isso tem sido estranho.
estou, há três dias, vivendo no meu quarto com meu computador solitário e os meus pés presos em sapatos. a cozinha esta coberta de pó, a sala forrada de jornal e de uma lona preta que deixa o piso mais sujo e cansado.

tudo tem sido uma lembrança de como meus pais faziam quando éramos crianças – empilhávamos os sofás, televisão e cadeiras embaixo de um grande lençol. um cheirinho de tinta fresca ficava à mostra durante a noite e andar descalços pela casa era proibido até que os pintores recolhessem tudo e deixassem a casa em ordem.

naquela época, era gostoso e desafiador para mim e minhas irmãs – abandonarmos o quarto individual e nos juntarmos ao meu pai e mãe para dormirmos todos juntos em meio a móveis e ferramentas acumuladas que deviam esperar a tinta secar para voltarem ao seu devido lugar. emoção era sair fora da rotina.

desde então, nunca tinha estado sozinha em uma casa enquanto esta fosse pintada. não até hoje. a sensação é a de crescer de uma vez por todas. acho que quando pintam a casa da gente e você tem que cuidar de tudo sem a ajuda de ninguém é porque o caminho é sem volta, meu amigo: a gente realmente já cresceu.

e tem que cuidar de tudo para que a casa volte a funcionar. as paredes ficam brancas novamente, uma nova história deverá ser construída ali.

mas e o medo? de sujá-las e estragar tamanho esforço. está tudo limpo, liso, com aroma de novo. a sensação é a mesma de uma virada de ano, em que a ansiedade por preencher um espaço vazio pela frente se faz caprichosa, cheia de cuidado. é difícil pregar pregos em paredes recém-pintadas. acho que precisarei de ajuda.

estão pintando a minha casa e agora só me resta esperar. daqui a dois dias poderei voltar a mesa para a sala, ligar a tv na tomada e limpar a grossa camada de cinzas que se apoiou sobre meu telefone. começarei a reerguer as cadeiras e as cortinas deverão ser colocadas de maneira que não fiquem tortas e enrrugadas. a cozinha vai precisar de um pano úmido para voltar a respirar, e as plantas lá de fora, ficarão para sempre com resquícios de tinta branca. algumas coisas, não tem jeito mesmo.

eu vou voltar e me acostumar ao novo branco. com o tempo, colocarei quadros na parede e quem sabe até me arrisque a colar um adesivo – pequeno – no corredor de entrada. tudo deverá ser refeito, dia após dia, como um caminho que não vê graça enquanto não é preenchido de fotos, narrativas, marcas boas e ruins.

estão pintando a minha casa.
e essa não será a primeira vez.

o nosso casamento com são paulo

Às vezes, vejo pessoas andando do caminho do metrô para o trabalho com um livro na mão – lendo, lendo, sem que o atravessar da rua, as pessoas e o próprio caminhar desviem seus olhares das páginas tão ávidas para serem ouvidas. Eu nunca fiz isso. Nunca até hoje. E isso porque agora eu encontrei um livro que, de fato, me fez querer estar com ele desde a minha casa até o trabalho. E quando digo isso não falo sobre estar sentada no metrô com um livro aberto, porque isso eu sempre gostei de fazer com o jornal diário. Aqui eu me refiro ao andar pela cidade, colocando uma perna em frente a outra, desviando de pessoas, de carros e semáforos com um livro aberto nas mãos.
Caio Fernando Abreu é um jornalista que era desconhecido por mim até mês passado. Esta semana, no entanto, ele me arrancou sorrisos e identificações tão fortes que me deixam assim: apta a movimentar-me apenas com ele, nos braços, cheio de crônicas e palavras que a cada lida me fazem pensar – puxa, a sensação é exatamente essa!

Abaixo, segue um dos trechos do autor no livro Pequenas Epifanias. Quem já morou em São Paulo ou passou um dia que seja aqui na cidade, sabe do que ele está falando:

“Nunca na minha vida casei, mas – imagino – minha relação com São Paulo é igual a um casamento. Atualmente, em crise. Como conheço bem esse laço, sei que apesar das porradas e desacatos, das queixas e frustações, ainda não será desta vez que resultará em separação definitiva. No máximo, posso dormir no sofá ou num hotel no fim de semana, mas acabo voltando. Na segunda-feira, volto brava e masoquistamente, como se volta sempre para um caso de amor desesperado e desesperançado, cheio de fantasias de que amanhã ou depois, quem sabe, possa ter conserto. Este, amargamente, não sei se terá. Por que está demais, querida Sampa. E sempre penso que pode ser este agosto, mês especialmente dado a essas feiúras, sempre penso que pode ser o tempo, tão instável ultimamente, sempre penso que pode ser qualquer coisa de fora, alheia à alma da cidade – para que seja mais fácil perdoar, esquecer, deixar pra lá. Não sei se é. As calçadas e as ruas estão esburacadas demais, o céu anda sujo demais, o trânsito engarrafado demais, os táxis tão hostis a pobres pedestres como eu…Cada vez é mais difícil se mexer pelas ruas da cidade – e mais penoso, mais atordoante e feio.”

*a bonita foto é do rafael fagundes.

sobre o nosso tempo, que já é tarde.

falar sobre a vida não pode ser mais interessante do que vivê-la.
sabe quando pensamos que é cedo demais para falar? para expor esse tanto de emoção, de festa, dor e amor que fica aqui dentro? isso está errado. e não é cedo demais para eu comentar que está errado. porque é errado.

minha mãe me ligou hoje, agorinha.
para dizer – na verdade, para me lembrar – que tudo o que está acontecendo agora já é agora. não é cedo demais. nós não precisaremos esperar até mais tarde, até os 26, até a passagem da crise dos trinta. até a chegada da maturidade, da experiência e dos desejos realizados. minha mãe ligou para dizer que hoje não pode jamais ser o dia das insatisfações porque se ele o for, já terá passado.

esse sentimento de não expressarmos nossas vontades e intenções porque elas poderão ser feitas no futuro…..não façamos isso. os dias passam e nós já estamos vivendo. está tudo valendo. o esquecer do guarda-chuva, o almoço, o lanche da noite, o banho, esse período que passamos em frente ao computador. isso tudo não é uma preparação. o metrô que você usou para chegar ao trabalho hoje, era exatamente ele. o que você sentiu nesse momento também já estava fazendo parte da sua vida. da minha.

esse cuidado pelo precoce, pelo tomar os pés pelas mãos pode nos custar energia. façamos reais esse monte de sensações agora, mesmo que estejamos um tanto quando incertos, medrosos e por vezes, solitários.

pela felicidade e tristeza, vamos ser nós mesmos, por favor.
às vezes eu tenho a sensação de que criamos todos um personagem, quase um ator, que não chora, não teme, não tem saudades – apenas para sermos pessoas irresistívelmente interessantes e seguras. nós não somos nada disso. a vida nos quer sinceros, intuitivos, cheios de coragem para assumirmos que muitas vezes é isso que nos falta.

mais vontades pelo dia de hoje, por elogios sinceros, por relações humanas que ultrapassem a nossa falta de tempo, de fé e sono.
em um mundo em que todo mundo fala em amor, vamos colocá-lo na frente de tudo, logo de uma vez. e deixar de pensar que as coisas que desejamos acontecerão apenas lá na frente.

tudo já está acontecendo.
o que você quer e o que não, também.

este texto na tela, você aí do outro lado lendo. que tal? quais sensações te aparecem? o que você tem vontade de fazer agora?

o mais bacana disso – depois de ler isso tudo  - é ter bem fresco na memória que a sua próxima ação poderá, se você quiser, ser realizada com a maior paixão que você jamais imaginou que poderia sentir.

aproveite isso, antes que a gente se esqueça.

*esse trecho de livro acima do post, absolutamente verdadeiro, foi tirado deste tumblr.

para não esquecer

“A aspiração à plenitude e à realização interior se encontra no espírito de todo ser humano.  Se temos dificuldade para nomeá-la , é porque ela assume as formas mais extraordinariamente diversas. Sabemos bem que não podemos viver permanentemente nesse estado de realização e de plenitude do ser, que se trata mais de um horizonte do que de um território; sem ele, todavia, a vida não tem o mesmo valor.”

Tzvetan Todorov - A Beleza Salvará o Mundo 

*essa foto linda é da Lucy Fracchetta.

mesa de bar

E sentamos nós quatro naquela mesa. Depois de uns 40 minutos, chegou mais um, publicitário – um tanto satisfeito, um pouco cansado.

Pedimos cerveja, pastel e a boazinha – uma cachaça brasileira que levanta o humor, diminui a ansiedade e aumenta o volume das gargalhadas pelo galpão. Eu passei pra frente a boazinha, mas fiquei com a cerveja e o pastel.

E então começamos uma das coisas que eu mais gosto de fazer aqui nessa cidade – sentar na mesa de um bar e dividir um pouco da vida com quem não tem pressa. Não sou a maior degustadora de cerveja do mundo mas sinto apreço pela cumplicidade que ela proporciona – deixa todos menos posados, mais frágeis e sem a obrigação de dizerem que está sempre tudo bem.

é ali, quando estamos todos reunidos que descobrimos as nossas maiores fragilidades. as confissões são ditas como frases comuns, que saem entre os goles, os olhares cansados e as risadas, cada vez altas.
é ali que percebemos que quem tem um trabalho fixo quer ter mais tempo livre e quem está sem emprego procura uma atividade permanente. e que todos queremos mais viagens, mais amor, mais filmes como medianeiras. mais noites como essa. mais calma, também.

e trocamos assuntos, experiências e notícias de jornal. coisa de jornalista. falar do que já está devidamente falado e felicitar-se por perceber que todos ali sabem do que se trata. e por aí vai a noite, meu amigo. alguns acendem o cigarro, outros checam o e-mail pelo celular. sentados ou em pé, estamos todos ali juntos, compartilhando o que tem dado certo, errado e todo o resto que tem caminhado, sabe-se lá para onde.

ninguém quer ir embora, pede a saideira, a vida é curta, fica um pouco mais. temos nós, temos todo mundo, ninguém está sozinho. passa o visa, 30 reais me parece justo, o ponto de táxi é logo ali. e assim vamos todos, para casa que já está escura e se faz noite. sem copo, soltos, um pouco mais alegres, um pouco mais tristes.

sem ninguém ao redor, a mesa de bar fica lá no tempo e nós aqui sozinhos novamente. com as cortinas abertas. sempre à procura, estudando, lendo, crescendo, indo atrás. e no fundo, solitários, tentando criar coragem, paciência, cheios de redes sociais e separados por uma multidão que não se conhece e por vezes, não se interessa. esperando o dia em nos veremos novamente. nós, que com tantas indas e vindas, temos os mesmos sentimentos.

você – que está aí lendo este post – e eu.
iguais. como somos, em uma mesa de bar.

apê.ritivos – episódio 3


apê.ritivos
já está no episódio 3.
esse é o meu preferido, fiquei muito feliz e emocionada com o resultado.

e logo, logo teremos uma novidade muito bacana para contar a vocês.
acompanhem tudinho por aqui, na nossa página do facebook: https://www.facebook.com/programaape.ritivos

obrigada sempre aos amigos, desconhecidos e pessoas queridas que divulgam o link por aí, vocês são demais!

rotina.

escrever e-mail, responder e-mail.

sair da cama.

escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.

almoço.

escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.

escrever e-mail, responder e-mail.

já é noite.

*a foto é daqui. 

uma vida inteira em retratos


Isso aqui me emocionou profundamente.

Um canadense chamado Jeff Harris decidiu fotografar sua vida desde 1999, todos os meses de cada ano até dezembro de 2011. Até aí, não é algo tão novo se não fossem as mudanças que aconteceram em sua trajetória desde então. Ele registra tudo: desde os amores, pizzas e mergulhos até sua luta contra o câncer e as decorrentes cirurgias.

O vídeo é emocionante. Se você entende inglês ou não, isso não importa. Há fotos muito simples e outras surpreendentes. Assista até o final pois, principalmente aí, é que o coração aperta.

Seria interessante se todos nós fizéssemos algo parecido. Quanta coisa já não aconteceu com a gente?

Todas as fotos, aqui. 

por que as pessoas dizem onde elas estão no facebook?

esses dias eu utilizei o foursquare – um aplicativo que vinculado ao facebook – mostra exatamente o lugar em que você está do país ou do mundo. minutos depois, um amigo comentou: por que as pessoas divulgam nas redes sociais, onde elas estão?

fiquei a pensar sobre isso quando a resposta veio de supetão: ora, pelo mesmo motivo que elas colocam todas as outras coisas!
as fotos do novo corte de cabelo, as férias em família, as primeiras experiências no exterior, as músicas favoritas, as citações de livros, os conselhos recebidos e as frases de efeitos pelos amores frustados e pela esperança de um recomeço.

é de fato de se estranhar por que raios compartilhamos opiniões sobre o futebol, mma, política e polícia, sem ninguém ter perguntado. e é estranho pensar que deixamos à mostra o status do nosso relacionamento como se fôssemos celebridades esquecidas mas que não podem deixar de avisar que, por vezes se fazem solteiras e por outras tantas, enroladas, casadas e numa felicidade sem fim.

ontem – naquele sábado chuvoso – dez pessoas divulgaram na minha linha do tempo, as fotos do arco-íris que apareceu no céu de são paulo. mas se ele era tão bonito, por que sua beleza não foi o bastante apenas para elas?

eu quero entender o motivo pelo qual fazemos tudo isso. e a cada vez que eu penso a respeito o que me vem à cabeça é que a vida e apenas ela, não é suficiente. e esta pode ser uma das razões pela qual dizemos onde estamos, dividimos os pratos das refeições, as festas bonitas, os novos óculos comprados, o talento para tocar violão, a facilidade em conversar em inglês e e o alívio de ter a vida mais realizada que alguém poderia querer.

há!
vivenciar e sentir em profundidade não é suficiente. ir até o canadá, receber uma promoção da chefia, ganhar flores do grande amor. isso tudo tem que estar lá registrado, no instagram, com o efeito preto e branco para que tudo isso pareça ainda mais romântico, excitante e provoque uma invejinha quase sem malícia.

isso tudo somos nós, meus amigos. e quem é que vai dizer que tá errado? que é irônico? o dia a dia não é o bastante. e essa é a forma atual que encontramos para deixar a rotina e as angústias um pouco mais brandas, em fogo baixo, cozinhando como a de todo mundo.

o ser humano não é um tão certinho assim – ele é cheio de defeitos, de chatices e manias. não se dispõe a ouvir com paciência os problemas alheios e não se faz tão contente com o momento presente. ninguém é tão realizado quanto parece. sempre falta. it’s no enough. pelo bem e pelo mal, é assim.

mas se no meio de tantas coisas, nós percebemos que no facebook, existe a possibilidade de nos tornarmos um pouco mais interessantes e interessados. por que não? no final, tudo acaba se tornando uma troca entre pessoas que, embora tenham gostos e hábitos tão diferentes, se identificam em uma mesma ação: a de mostrar, o tempo todo, o que estamos fazendo.

*a foto é daqui.