o nosso casamento com são paulo

Às vezes, vejo pessoas andando do caminho do metrô para o trabalho com um livro na mão – lendo, lendo, sem que o atravessar da rua, as pessoas e o próprio caminhar desviem seus olhares das páginas tão ávidas para serem ouvidas. Eu nunca fiz isso. Nunca até hoje. E isso porque agora eu encontrei um livro que, de fato, me fez querer estar com ele desde a minha casa até o trabalho. E quando digo isso não falo sobre estar sentada no metrô com um livro aberto, porque isso eu sempre gostei de fazer com o jornal diário. Aqui eu me refiro ao andar pela cidade, colocando uma perna em frente a outra, desviando de pessoas, de carros e semáforos com um livro aberto nas mãos.
Caio Fernando Abreu é um jornalista que era desconhecido por mim até mês passado. Esta semana, no entanto, ele me arrancou sorrisos e identificações tão fortes que me deixam assim: apta a movimentar-me apenas com ele, nos braços, cheio de crônicas e palavras que a cada lida me fazem pensar – puxa, a sensação é exatamente essa!

Abaixo, segue um dos trechos do autor no livro Pequenas Epifanias. Quem já morou em São Paulo ou passou um dia que seja aqui na cidade, sabe do que ele está falando:

“Nunca na minha vida casei, mas – imagino – minha relação com São Paulo é igual a um casamento. Atualmente, em crise. Como conheço bem esse laço, sei que apesar das porradas e desacatos, das queixas e frustações, ainda não será desta vez que resultará em separação definitiva. No máximo, posso dormir no sofá ou num hotel no fim de semana, mas acabo voltando. Na segunda-feira, volto brava e masoquistamente, como se volta sempre para um caso de amor desesperado e desesperançado, cheio de fantasias de que amanhã ou depois, quem sabe, possa ter conserto. Este, amargamente, não sei se terá. Por que está demais, querida Sampa. E sempre penso que pode ser este agosto, mês especialmente dado a essas feiúras, sempre penso que pode ser o tempo, tão instável ultimamente, sempre penso que pode ser qualquer coisa de fora, alheia à alma da cidade – para que seja mais fácil perdoar, esquecer, deixar pra lá. Não sei se é. As calçadas e as ruas estão esburacadas demais, o céu anda sujo demais, o trânsito engarrafado demais, os táxis tão hostis a pobres pedestres como eu…Cada vez é mais difícil se mexer pelas ruas da cidade – e mais penoso, mais atordoante e feio.”

*a bonita foto é do rafael fagundes.

sobre o nosso tempo, que já é tarde.

falar sobre a vida não pode ser mais interessante do que vivê-la.
sabe quando pensamos que é cedo demais para falar? para expor esse tanto de emoção, de festa, dor e amor que fica aqui dentro? isso está errado. e não é cedo demais para eu comentar que está errado. porque é errado.

minha mãe me ligou hoje, agorinha.
para dizer – na verdade, para me lembrar – que tudo o que está acontecendo agora já é agora. não é cedo demais. nós não precisaremos esperar até mais tarde, até os 26, até a passagem da crise dos trinta. até a chegada da maturidade, da experiência e dos desejos realizados. minha mãe ligou para dizer que hoje não pode jamais ser o dia das insatisfações porque se ele o for, já terá passado.

esse sentimento de não expressarmos nossas vontades e intenções porque elas poderão ser feitas no futuro…..não façamos isso. os dias passam e nós já estamos vivendo. está tudo valendo. o esquecer do guarda-chuva, o almoço, o lanche da noite, o banho, esse período que passamos em frente ao computador. isso tudo não é uma preparação. o metrô que você usou para chegar ao trabalho hoje, era exatamente ele. o que você sentiu nesse momento também já estava fazendo parte da sua vida. da minha.

esse cuidado pelo precoce, pelo tomar os pés pelas mãos pode nos custar energia. façamos reais esse monte de sensações agora, mesmo que estejamos um tanto quando incertos, medrosos e por vezes, solitários.

pela felicidade e tristeza, vamos ser nós mesmos, por favor.
às vezes eu tenho a sensação de que criamos todos um personagem, quase um ator, que não chora, não teme, não tem saudades – apenas para sermos pessoas irresistívelmente interessantes e seguras. nós não somos nada disso. a vida nos quer sinceros, intuitivos, cheios de coragem para assumirmos que muitas vezes é isso que nos falta.

mais vontades pelo dia de hoje, por elogios sinceros, por relações humanas que ultrapassem a nossa falta de tempo, de fé e sono.
em um mundo em que todo mundo fala em amor, vamos colocá-lo na frente de tudo, logo de uma vez. e deixar de pensar que as coisas que desejamos acontecerão apenas lá na frente.

tudo já está acontecendo.
o que você quer e o que não, também.

este texto na tela, você aí do outro lado lendo. que tal? quais sensações te aparecem? o que você tem vontade de fazer agora?

o mais bacana disso – depois de ler isso tudo  - é ter bem fresco na memória que a sua próxima ação poderá, se você quiser, ser realizada com a maior paixão que você jamais imaginou que poderia sentir.

aproveite isso, antes que a gente se esqueça.

*esse trecho de livro acima do post, absolutamente verdadeiro, foi tirado deste tumblr.

mesa de bar

E sentamos nós quatro naquela mesa. Depois de uns 40 minutos, chegou mais um, publicitário – um tanto satisfeito, um pouco cansado.

Pedimos cerveja, pastel e a boazinha – uma cachaça brasileira que levanta o humor, diminui a ansiedade e aumenta o volume das gargalhadas pelo galpão. Eu passei pra frente a boazinha, mas fiquei com a cerveja e o pastel.

E então começamos uma das coisas que eu mais gosto de fazer aqui nessa cidade – sentar na mesa de um bar e dividir um pouco da vida com quem não tem pressa. Não sou a maior degustadora de cerveja do mundo mas sinto apreço pela cumplicidade que ela proporciona – deixa todos menos posados, mais frágeis e sem a obrigação de dizerem que está sempre tudo bem.

é ali, quando estamos todos reunidos que descobrimos as nossas maiores fragilidades. as confissões são ditas como frases comuns, que saem entre os goles, os olhares cansados e as risadas, cada vez altas.
é ali que percebemos que quem tem um trabalho fixo quer ter mais tempo livre e quem está sem emprego procura uma atividade permanente. e que todos queremos mais viagens, mais amor, mais filmes como medianeiras. mais noites como essa. mais calma, também.

e trocamos assuntos, experiências e notícias de jornal. coisa de jornalista. falar do que já está devidamente falado e felicitar-se por perceber que todos ali sabem do que se trata. e por aí vai a noite, meu amigo. alguns acendem o cigarro, outros checam o e-mail pelo celular. sentados ou em pé, estamos todos ali juntos, compartilhando o que tem dado certo, errado e todo o resto que tem caminhado, sabe-se lá para onde.

ninguém quer ir embora, pede a saideira, a vida é curta, fica um pouco mais. temos nós, temos todo mundo, ninguém está sozinho. passa o visa, 30 reais me parece justo, o ponto de táxi é logo ali. e assim vamos todos, para casa que já está escura e se faz noite. sem copo, soltos, um pouco mais alegres, um pouco mais tristes.

sem ninguém ao redor, a mesa de bar fica lá no tempo e nós aqui sozinhos novamente. com as cortinas abertas. sempre à procura, estudando, lendo, crescendo, indo atrás. e no fundo, solitários, tentando criar coragem, paciência, cheios de redes sociais e separados por uma multidão que não se conhece e por vezes, não se interessa. esperando o dia em nos veremos novamente. nós, que com tantas indas e vindas, temos os mesmos sentimentos.

você – que está aí lendo este post – e eu.
iguais. como somos, em uma mesa de bar.

rotina.

escrever e-mail, responder e-mail.

sair da cama.

escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.

almoço.

escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.
escrever e-mail, responder e-mail.

escrever e-mail, responder e-mail.

já é noite.

*a foto é daqui. 

uma vida inteira em retratos


Isso aqui me emocionou profundamente.

Um canadense chamado Jeff Harris decidiu fotografar sua vida desde 1999, todos os meses de cada ano até dezembro de 2011. Até aí, não é algo tão novo se não fossem as mudanças que aconteceram em sua trajetória desde então. Ele registra tudo: desde os amores, pizzas e mergulhos até sua luta contra o câncer e as decorrentes cirurgias.

O vídeo é emocionante. Se você entende inglês ou não, isso não importa. Há fotos muito simples e outras surpreendentes. Assista até o final pois, principalmente aí, é que o coração aperta.

Seria interessante se todos nós fizéssemos algo parecido. Quanta coisa já não aconteceu com a gente?

Todas as fotos, aqui. 

por que as pessoas dizem onde elas estão no facebook?

esses dias eu utilizei o foursquare – um aplicativo que vinculado ao facebook – mostra exatamente o lugar em que você está do país ou do mundo. minutos depois, um amigo comentou: por que as pessoas divulgam nas redes sociais, onde elas estão?

fiquei a pensar sobre isso quando a resposta veio de supetão: ora, pelo mesmo motivo que elas colocam todas as outras coisas!
as fotos do novo corte de cabelo, as férias em família, as primeiras experiências no exterior, as músicas favoritas, as citações de livros, os conselhos recebidos e as frases de efeitos pelos amores frustados e pela esperança de um recomeço.

é de fato de se estranhar por que raios compartilhamos opiniões sobre o futebol, mma, política e polícia, sem ninguém ter perguntado. e é estranho pensar que deixamos à mostra o status do nosso relacionamento como se fôssemos celebridades esquecidas mas que não podem deixar de avisar que, por vezes se fazem solteiras e por outras tantas, enroladas, casadas e numa felicidade sem fim.

ontem – naquele sábado chuvoso – dez pessoas divulgaram na minha linha do tempo, as fotos do arco-íris que apareceu no céu de são paulo. mas se ele era tão bonito, por que sua beleza não foi o bastante apenas para elas?

eu quero entender o motivo pelo qual fazemos tudo isso. e a cada vez que eu penso a respeito o que me vem à cabeça é que a vida e apenas ela, não é suficiente. e esta pode ser uma das razões pela qual dizemos onde estamos, dividimos os pratos das refeições, as festas bonitas, os novos óculos comprados, o talento para tocar violão, a facilidade em conversar em inglês e e o alívio de ter a vida mais realizada que alguém poderia querer.

há!
vivenciar e sentir em profundidade não é suficiente. ir até o canadá, receber uma promoção da chefia, ganhar flores do grande amor. isso tudo tem que estar lá registrado, no instagram, com o efeito preto e branco para que tudo isso pareça ainda mais romântico, excitante e provoque uma invejinha quase sem malícia.

isso tudo somos nós, meus amigos. e quem é que vai dizer que tá errado? que é irônico? o dia a dia não é o bastante. e essa é a forma atual que encontramos para deixar a rotina e as angústias um pouco mais brandas, em fogo baixo, cozinhando como a de todo mundo.

o ser humano não é um tão certinho assim – ele é cheio de defeitos, de chatices e manias. não se dispõe a ouvir com paciência os problemas alheios e não se faz tão contente com o momento presente. ninguém é tão realizado quanto parece. sempre falta. it’s no enough. pelo bem e pelo mal, é assim.

mas se no meio de tantas coisas, nós percebemos que no facebook, existe a possibilidade de nos tornarmos um pouco mais interessantes e interessados. por que não? no final, tudo acaba se tornando uma troca entre pessoas que, embora tenham gostos e hábitos tão diferentes, se identificam em uma mesma ação: a de mostrar, o tempo todo, o que estamos fazendo.

*a foto é daqui. 

são paulo, eu te amo.


esta fase da minha vida chama-se: são paulo.
e eu escolhi colocar aí em cima a música whiter shade of pale porque tem uma introdução que eu adoro, que é romântica, piegas e tudo mais que a gente gosta de ouvir. e porque ela faz parte do filme contos de nova york que eu assisti há duas semanas, antes de voltar – após as férias de fim de ano – aqui para a capital. de certa forma, ficou em mim.
é amor mesmo, não tem jeito.

e como é possível amar um lugar tão cinzento e cheio de gente, de carros e prédios? eu não consigo mais me imaginar sem isso aqui. é grave, doutor? às vezes me acho chata por achar chato quem diz que é chato morar aqui.
hoje à tarde andando pelas ruas, atravessei a avenida correndo. e nem era preciso – o sinal estava verde para mim – mas esta cidade é tão bonita do jeito dela que eu quis correr só para ver como era atravessar olhando os carros parados, que estavam em movimento apenas para mim. e o fim do dia ainda tem céu iluminado com luzes de automóveis recém acesas. eu gosto. se voltasse no tempo, teria me mudado exatamente para cá. é paixão das brabas.

se você também se apega como eu, vá viver um pouco do amor que a cidade está, de forma encantadora, oferecendo este mês. vou dar algumas dicas.
primeiro, siga até ao cinema reserva cultural e assista medianeiras – amor na era virtual.


Depois vá até ao teatro folha e veja a peça de teatro eu te amo.

por fim, quando já estiver apaixonado, compre na livraria cultura o dvd hanami- cerejeiras em flor.  você vai chorar bastante, mas ele fará bem a sua alma.


são paulo te oferece amor. e esta é a melhor fase para se apaixonar por ela.

uma lágrima para daniel piza.

Eu tive o meu primeiro contato com o Daniel Piza em um curso de história da arte em 2009. Conhecia o jornalista pelas suas colunas no Estadão, mas pessoalmente mesmo, foi apenas nessa data.

Hoje, o pouco que sei de história de arte eu devo a ele. Na época, fui bem cru até esse curso, levei caderno, caneta e as memórias que eu tinha de algumas exposições por aí. Na sala, uns 12 alunos e lá na frente Daniel – simpático, falante e assustadoramente inteligente.

No total, foram umas cinco ou seis aulas de Piza discursando que a arte é um consolo, uma instabilidade, um conjunto infinito de interpretações. E o que mais impressionava nesse período era a forma como ele não dizia palavras soltas, sem significado. Cada falar era palpável, tinha autonomia. Daniel não era do tipo que enrolava o explicar ou se perdia no raciocínio – ele sabia exatamente o que tava fazendo e isso era fantástico. O professor mais didático que eu já conheci. Ele não gastava  frases e valores, tudo o que era dito carregava um sentido.  Em um mundo verborrágico cheio de declarações vazias, era bom saber que tínhamos Daniel.

E foi na véspera de ano novo que eu fiquei sabendo da notícia da sua morte. mas o quê, como assim, nunca, imagina. Foi chato, chato pra valer. Aquele curso permaneceu em mim nos anos seguintes e até hoje eu tenho aquele como o melhor curso livre que já fiz. Ele abriu um mundo para todos nós que enxergávamos os artistas como serem loucos, parte de algo que não desse mundo. A arte incompreendida ganhou, após Daniel Piza, uma face de bem-vinda.

E meio sem jeito, de repente, deixei as lágrimas escorrerem, rosto abaixo elas se foram. Minha mãe arrumando meu cabelo para a festa, meu pai do lado nos fazendo companhia, um conjunto de amenidades maravilhosas, todos nós ansiosos pela virada. No meio disso tudo, uma morte. E eu sempre acho a morte de alguém que a gente admira nos mata um pouco também, nos deixa mais frágeis, menos crentes, tristes.

E chorei com a mesma naturalidade que por tantas vezes sorri. Chorei por Daniel, chorei pela morte, pela angústia que é a vida.  Pelo jornalista que ele foi, pela sua família, pelos sonhos que ele não vai mais conseguir realizar. Chorei por um quase desconhecido, mas que era assim como nós – cheio de coisas para fazer amanhã, com um monte de ideias na cabeça, com dezenas de pessoas para cuidar e amar.

E eu estava na rede, deitada, com os pés balançando, sentindo a chuva que caía antes de 2012, o vento no rosto, comida na mesa, as minhas irmãs por perto. Chorei porque, agora, ele não poderá mais sentir isso tudo – como acontece com todas as pessoas que morrem. Esticar os dedos das mãos, coçar os olhos, abraçar as pessoas queridas, trocar experiências com a natureza, ouvir uma música e acompanhar cantarolando…por que a morte não nos permite mais nada?

Puxa! Quando as pessoas morrem elas não vão mais enxergar isso tudo. A rua lá fora, o telefone tocando, o cheiro do pão quente no forno, as gargalhadas na mesa de um bar, um filme emocionante no cinema. Eu choro mesmo porque esse troço é difícil de entender, bicho. E a vida vai tocando, ela vai levando e levando muita gente também. É dor. É emoção demais pra gente esquecer assim de repente, para não se abalar e fingir que não é comigo.

No final dos seus artigos do Estadão, Daniel costumava dedicar uma lágrima para alguma personalidade falecida. Hoje, todas as lágrimas são para ele. Meus sinceros sentimentos à família, aos amigos e a nós jornalistas, que ficaremos sem seus cursos, suas sugestões de livros, filmes, pitacos futebolísticos e reportagens espetaculares.

A vida foi breve para Daniel. O nosso consolo é que ele fez dela o que poucos conseguem: completou-a com obras e trabalhos preciosos que não conhecem o finito – irão levar cultura e ensinamentos para todos que quiserem ler e ouvir.

um pouco de natal, sim senhor.

Um dos trabalhos que mais me deixaram satisfeita neste ano, foi a realização de uma série de vídeos sobre Natal, disponíveis neste link aqui. Os vídeos falam sobre decoração mas não apenas isso – eles trazem histórias, memórias e aquele monte de sensação que a gente só sente nesta época quando as luzes dos postes se apagam e entram os piscas, os encontros em família, os presentes entregues com tanto carinho e a alegria de encontrar quem a gente gosta. Durante as gravações, registrei alguma imagens de detalhes e doçuras que trazem refresco e uma satisfação de comemorar isso tudo com ainda mais vontade. O mais bacana disso tudo, foi conhecer pessoas (desde o padeiro que fez os maravilhosos panenotes e roscas até as profissionais que compartilharam suas ideias e emoção para uma festa inesquecível) que viraram fontes, amigos e referências de belos trabalhos. Abaixo, uma pequena mostra de muita coisa que tem por lá. É só se deixar levar.






antes de dormir.

esta é a fase da minha vida é chamada de: dormir pouco.
e hoje eu estou com tanta vontade de deixar as palavras aqui, de conversar, bater um papo. falar de um monte de coisa que tá martelando na minha cabeça.

o sono está tão pesado, meus olhos quase fechando, tô tão cansada nesta noite, me dê só mais alguns minutos, eu vou falar pouco, depois eu volto na luz do dia pra gente prosear um pouco mais.

quero falar da minha vó que sempre aparece nesta época do ano nas minhas caminhadas pela paulista ao redor das luzinhas de natal, tô com uma saudade dela. eu quero comentar sobre 2011, me deixa agradecer, permita-me falar do tempo, de tudo rápido que se passou tão depressa, me dê um pouco de calma e uma cama para eu poder descansar e pela manhã dizer, dizer e dizer.

eu quero escrever e já quase não consigo por ora. eu aprendi tantas coisas esse ano, ajude-me a repassar isso pra frente, a controlar o que eu não consigo,  a ser leve, ainda mais leve. quero falar das músicas que eu tô ouvindo, e também de sonhos, mas tudo o que me resta agora é o sono e esse peso que não se aguenta nas pálpebras. mas anote aí, vou ter mais tempo logo, eu volto, eu volto para contar tudinho para vocês do que se passa aqui dentro.

hoje, eu só preciso dormir.

*essa foto linda, que se mexe e emociona, é de um fotógrafo americano chamado Jamie.

estou emocionada.

Uma amiga querida, Manuela, disse-me esses dias que eu e o Gabriel somos muito corajosos em abrir a casa e o coração para contarmos uma história. esta foi a definição mais bonita que deram ao apê.ritivos, nosso novo projeto.

estou tão emocionada. feliz. Mais de 800 pessoas compartilharam o link do primeiro episódio no facebook e outras tantas mandaram palavras de beleza, conforto e emoção.

obrigada. estamos no comecinho e receber tantos abraços como esses é o mais reconfortante retorno que poderíamos esperar. me sinto cheia de amor com os pitacos, sugestões e com a forma como cada um experimenta o programa e tem vontade de estar ali com a gente.

vocês estão e estarão em todos.

obrigada ao Flávio Rocha e ao Rogério Assis pelas imagens tão lindas. obrigada ao Roman Lindemann por fazer mágica ao ajudar na conversão dos arquivos de vídeo. obrigada a Letícia Pires que, como ninguém, captou a sensibilidade do projeto e criou a arte para o logo e descrição. obrigada a vocês amigos que todos os dias tem repassado o apê.ritivos para os familiares, amigos e tantos outros que replicam a nossa vontade de juntar saudade, conversa, receitas e um apartamento.

estou (profundamente) emocionada. obrigada.

o não acaso de um sábado à tarde

Existe uma porção de eventos na vida que são pura coincidência.
Uma outra parte é tudo que não o acaso. E eu acredito que vivi essa última no sábado que se passou.

Há uns cinco anos eu não ia na Benedito Calixto – aquela feirinha aos sábado que concentram tudo o que é antigo e gostoso de lembrar. Dois amigos queridos, o Eduardo e o Thiago – dos poucos que a gente guarda depois da faculdade – fizeram o convite e, eu, aqui dentro, senti que eu precisava ir para lá a hora que fosse. E a hora foi tarde, às cinco já. quase no final do dia, já com algumas barracas recolhendo aquele acervo de objetos velhos e usados que todas as semanas tentam nos convencer de que podem, em nossa estante, recobrar sua utilidade.

No caminhar daquele monte de gente, do sol gostoso do fim do dia, no meio revistas que não existe mais e lentes cansadas de fotografia, os vendedores que restavam negociavam o passado como novo. Parei num desses sebos embaixo de lona amarela, com livros de papel também amarelo, quando pude ler em uma capa: “Sonata da última cidade – o romance de São Paulo”.

Renato Modernell. Um querido professor que meu deu aula de narrativas de viagem na universidade e o único que tinha sensibilidade para escapar da ignorante objetividade das aulas de jornalismo para nos fazer escrever, escrever e escrever.

O livro é raro, não existe mais nas livrarias. Eu estava a sua procura há um tempo e sabia que seria difícil encontrá-lo. A sugestão de leitura foi dada por uma amiga querida – Marcia Carini – que contou-me ser esse um dos melhores que já lera.

No meio de tantos livros e possibilidades, ele ali olhando pra mim só tinha que ser meu. 20 reais, assim, baratinho. Coloquei na sacola e logo tratei de espalhar essa história feliz para os amigos comigo ali. Até então acaso, mera coincidência de uma jovem e um livro que se trombaram no mesmo lugar.

Não casualidade é a sequência disso tudo. Com o livro em mãos seguindo ainda pela feira, fiquei imaginando quão interessante seria ter o autógrafo do Renato naquela obra tão procurada. Imagine então a minha surpresa, cinco minutos após a compra do livro, visualizar – naquele acúmulo de gente – o próprio Renato Modernell.

Gritei seu nome sem entender como pode uma feira, um livro e um momento tão bom se reunirem num sábado à tarde. Ele atendeu e se mostrou feliz ao reencontrar seus antigos alunos na praça. Mostrei a ele o livro de 1988 que na primeira página trazia seu autógrafo em inglês escrito em 1996 para uma pessoa – “thanks you for all, best wishes”.

Ele olhou, sorriu, perguntou como encontramos aquele livro e tentou lembrar quem era a pessoa da dedicatória. Não lembrou, mas pegou uma caneta e escreveu seu nome com bons votos para mim, na mesma página da antiga dedicatória dedicada àquela anônima, que de seu livro se perdeu.

por alguns minutos, ficamos os 3 conversando com aquele velho professor, que de repente por ali aparecera. repetimos por vezes a palavra coincidência, coincidência, coincidência ao mesmo tempo em que sabíamos que esse encontro era qualquer coisa que não uma coincidência.

Um livro antigo a espera do seu dono para que fosse autografado para um novo dono. são paulo – gigante de tamanho e eventualidades me trouxe esse presente de fim de semana. comecei a ler a obra e e eu – que não acredito muito em destino – começo a achar que existe uma sintonia neste mundão que, de vez em quando, faz questão de juntar pessoas e vontades apenas para mostrar que nem tudo nesta vida acontece sem querer.

suficiente.

este é aquele dia em que você pede uma pizza. quatro pedaços por favor. a individual, massa fina. traz a máquina, visa. 30 minutos de espera.

sua amiga te chama para uma balada. do lado da sua casa.
e seus amigos vão tomar uma cerveja ali na consolação. eu não vou, obrigada. é aqui comigo.

hoje é casa, sala, sofá. e essa calça que eu só uso quando tô sozinha. essa vontade de fazer alguma coisa que ainda não ligou. aproveitem a festa que hoje eu vou ficar aqui na varanda. e pensar um pouco. colocar esse tanto de coisa em ordem. essa quantidade de gente e o monte de sentimentos que eu tenho que lidar, conter e adivinhar.

essa tarde foi tão boa. aquelas bolhas de sabão passando entre a gente, aquele tanto de gente a procura – olhando exaustas, ávidas por terem tudo. isso é tão bonito. tão a gente. e o que é que nos falta? por que estamos sempre procurando tanto se as coisas já foram encontradas, por que parece que temos que chegar no final do jogo e passar pelas fases sem cair no réves? sem se questionar tanto, sem fraqueza, sem cair no passional. vamos ser diferentes, por favor. vamos ser nós mesmo.

vamos falar, menos flores, cadê a nossa honestidade. por que tanta frescura. será que o “sim” e o “não” não podem ser apenas eles mesmos? eu não quero me acostumar.

a pizza está quase chegando. ela virá com tomate e abobrinha assada. acolhedora. hoje eu quero isso mesmo. um pouco de só. de saudade. da gente se falar amanhã. de sentir a tranquilidade de ter encontrado tudo.

tudo o que eu preciso.

o inverso de mais.

eu tenho um sonho da gente ser menos.
sem muito barulho, com um falatório menos arrogante. com a pretensão de menos seguidores. com uma realização que chega sem inveja, de mansinho, com verdade.

menos blá blá blá, por favor. eu quero dançar, quero paz. não me venha como um pavão com suas penas abertas, como se nenhuma chuva fosse te molhar. me dê menos, muito menos. eu posso suportar muitos rabiscos, chiados e telas fora de harmonia. mas esse mais que quer subir sem humildade e carisma, eu não posso.

e o que é tudo isso senão uma vontade de ser feliz sem achar que somos muito, sem o devaneio de que fazemos tanto se o tanto não é nada e nós menos ainda.

vamos conseguir ir longe e lembrar que o perto também é bom, talvez melhor. o mais sereno. e mesmo que tenhamos o mais abarrotado de emoções que ainda sim sejamos menos, baixinhos, em silêncio, sem tanta pompa, sem tantas penas.

o inverso, me dê de presente.

A casa é minha e eu tô chegando.

Faz 4 meses que não volto para Araçatuba. Eu tô com uma saudade e vontade de deitar naquele sofá da sala, assistir as reprises do Jô Soares com meu pai e os filmes repetidos com a minha mãe. As pizzas à noite; os vinhos com as macarronadas; o purê de batata e a couve-flor empanada que só experimento quando estou lá. Ir e voltar dos lugares como num instante; dar uma volta no Pálio preto com a minha carta de motorista enferrujada; abraçar meu gato mal-humorado e receber uma lambida do meu cachorro que é o mais feliz melhor do mundo.

Quero ficar na cozinha com as minhas irmãs planejando o reveillon, o almoço e a roupa da próxima festa. Falar de esmalte, unhas, peso e todas aquelas insignificâncias que fazem o tempo passar rapidinho e nos trazem a vontade de ficar ali e repetir aquele momento de novo…e de novo e de novo. Quero sentir logo aquela alegria misturada com o aperto de saber que eu tenho poucos dias e que por isso eles serão melhores do que quaisquer outros que eu já vivi.

Arnaldo, essa aí você fez para mim. Obrigada.

Não me falta cadeira
Não me falta sofá
Só falta você sentada na sala
Só falta você estar

Não me falta cama
Só falta você deitar
Não me falta o sol da manhã
Só falta você acordar

Pras janelas se abrirem pra mim
E o vento brincar no quintal
Embalando as flores do jardim
Balançando as cores no varal

Não me falta casa
Só falta ela ser um lar
Não me falta o tempo que passa
Só não dá mais para tanto esperar

A casa é sua
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora

A casa é sua
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio.

* Esse é um dos meus clipes favoritos. Doce Arnaldo Antunes, capta e expressa as emoções como nenhum outro. Separei meus trechos preferidos para colocar na crônica, mas a letra inteira da música vocês encontram aqui.

expressão de vida

Terminei o fantástico livro do Valter Hugo Mãe, hoje.
Deitei na cama, deixei a janela bem aberta com um céu que se preparava para chover. São, de fato, poucos os momentos que sentimos o corpo todo respirar, em silêncio, apenas com o som do sábado lá de fora. Cobri-me com o edredon, estiquei os cabelos de lado para que terminassem de secar após o banho recente. Senti a calmaria. Os meus olhos começaram a lacrimejar e os pingos a cair, para não me deixarem sozinha nesse momento de – simplesmente – chorar. Com o tempo, se aglomeraram, bateram na minha janela, cobriram de água os prédios e o meu travesseiro. E então, nas últimas páginas do livro, deparo-me com isso:

sabes que os peixes têm uma memória de segundos. aqueles peixes bonitos que vês dentro dos aquários pequenos, sabes que têm uma memória de uns segundos, três segundos, assim. é por isso que não ficam loucos dentro daqueles aquários sem espaço, porque a cada três segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. devíamos ser assim, a cada três segundos ficávamos impressionados com a mais pequena manifestação de vida, porque a mais ridícula coisa na primeira imagem seria uma explosão fulgurante da percepção de estar vivo. compreendes. a cada três segundos experimentávamos a poderosa sensação de vivermos, sem importância para mais nada, apenas o assombro dessa constatação. 

desoprimida, fechei o livro e adormeci – pensando que não há de haver sentimento mais fabuloso do que o de experimentar tamanha sensação, descrita acima.

* o autor do livro caminha sobre um lago, nessa beleza de foto.
Há mais um post a respeito do livro aqui. 

sábado.

Minha mãe e irmã do meio vieram no últilmo sábado para São Paulo. Assim, rapidinho. Um bate e volta que já terminaria no domingo de manhã. Saímos à tarde, andamos por aí. Curtimos uma São Paulo que, às vezes, se faz ensolarada.

No final do dia, por volta das 19h, chegamos em casa com os pés doloridos mas prontas para partirmos novamente. Um banho, uma troca de roupa e a noite nos acolheu com vinho branco, pão italiano e aperitivos deliciosos de tomate seco, abobrinha, pimentão e mussarela de búfala.

Nós três, apenas, sentadas numa mesa com toda uma vida a discorrer pela frente. Choramos, rimos, falamos sobre o quê acreditamos e sobre tudo o que deixamos de ter fé. Lembramos de vovó já falecida; do meu avô teimoso que também já se foi. De frases do passado que gostaríamos de não ter dito. Pedimos mais uma cesta de pães, mais uma água para acompanhar. O vinho, um ouvinte consolador sem muito poder nas mãos. Tanta coisa se passou, será que tudo acaba aqui? Será que a gente se vê na outra vida? Deus é mesmo esse senhor que as igrejas tanto chamam? Você acredita?

- Essa energia, nós aqui -  deixa pra lá esse monte de dúvidas – vamos pedir azeite para regar este presunto de parma e molhar a casquinha do pão – quero ler um livro sobre budismo – na revista deste mês está falando sobre espíritos – lembro que eu sonhei com a vó pegando no meu braço – hoje não sonho mais com ela – será que vamos nos encontrar – ela está bem – cadê ela.

E eu encosto minha cabeça no ombro da minha mãe, minha irmã mostra o coque que ela aprendeu a fazer no cabelo. O feriado está chegando, logo estarei lá. São Paulo é mais serena com vocês. Naquela época ninguém se questionava sobre nada, mãe. Nós é que não paramos de pensar em tudo, em nós, nesta louca vida que não se decide pelo explicar ou confundir.

Eu já fico sonolenta, mas não quero pedir a conta. Tira uma foto nossa? Ficou bonita. Minha irmã conta uma história de um sobrevivente da queda de um avião, o que ele aprendeu, o que mudou – o amor. sempre. é ele que você deve escolher em todas as situações. ao acordar, quando pensar nas pessoas, imaginar uma vontade e querer alcançar – o amor, ele é a nossa certeza absoluta.

*essa belíssima foto é daqui.

A fantástica chuva de pétalas

Eu já falara em um post anterior sobre a viagem que fiz para Holambra na festa das flores, que acontece 1 vez por ano lá. Hoje venho trazer o vídeo que finalizei ainda agorinha. Emoções, pulos e gritaria na ocasião – que faz chover milhares de pétalas sobre o público. Quem conseguir pegar uma delas antes que caia no chão, tem todos os seus sonhos realizados.

O dia em que eu não falei com o Marcelo Rubens Paiva

Ele estava no Spot. Aquele restaurante da Ministro Rocha de Azevedo que tem o melhor penne que eu já comi na vida.

Em uma noite de sexta ou sábado, esperamos pelo menos 1 hora na parte externa para conseguirmos uma mesa lá dentro. Pedimos vinho. Eu e minha irmã. E também um antepasto que serve pouco mas traz aspargos com um azeite irresistível – caro e ainda assim vale os muitos centavos. É um bar um tanto quanto blasé mas convence qualquer um a passar a noite por lá principalmente pela fonte d’água do lugar que muda de cor e faz chuá chuá, o barulho de gotas que transforma qualquer ponta de esquina em um ambiente agradável de ficar.

Marcelo estava nessa área, a espera de uma mesa livre também. De longe, parecia estar sozinho. Cutuquei minha irmã – a lá, a lá, a lá, é ele lá! Eu não gosto de tietagem, nunca pedi um autógrafo e uma única vez que trabalhei em uma revista de celebridade, pedi demissão. Às vezes, no entanto, tenho vontade de seguir os conselhos de uma amiga que diz que quando você tem vontade de dizer, tem que ir lá e falar logo. No caso dela, toda vez em que está numa roda de amigos e apresentam-na um cara muito bonito, ela fala logo de cara: pô, eu preciso dizer, você é bonito pra c*!

No meu caso, eu queria dizer – Marcelo, não vou tomar muito seu tempo, mas eu leio todas as suas crônicas, você escreve pra c*! Obrigada pelos textos, bom jantar, até uma próxima.

Pronto, seria só isso. Não daria nem tempo dele apagar o cigarro.
Esperei chamarem o nosso número para entrar. Pedi o penne que, para quem ficou curioso, é servido com melão e presunto de parma; terminamos o vinho e por vezes observei o marcelo já dentro do restaurante também acompanhado por amigas.

Em um certo momento, ele saiu para fumar. Sozinho. Minha nova chance – sou leitora assídua dos seus textos, tchau. Mas então ele permaneceu um tempo lá fora, voltou e eu continuei a titubear. vô, não vô. Pedimos a conta, recusamos a sobremesa.

- Agora eu vou falar. Passei pela mesa dele que ficava bem na porta, mas já me vi saindo e quase na calçada, lamentei a falta de atitude. ele estava jantando. acompanhado dos amigos. ocupado. relaxado. não deu.

desculpas assim. que a gente se coloca de vez em quando.
uma amiga disse que eu deveria ter ido lá, assim mesmo, na coragem. não fui.

De qualquer forma, se um dia ele ler esse texto: pô Marcelo, sou tua fã! Abraço.

ps – esta foto saiu na entrevista que a revista TPM fez com ele este mês. 
Vale a pena ler a matéria completa. 

a árvore da minha vida.

muitas vezes durante o dia eu penso que gostaria de ficar menos no computador e mais com meus pais.

hoje fui ver a árvore da vida, que todo mundo criticou, não gostou, acharam cansativo. o filme, no entanto, tem coisas boas. especiais. e me emocionou muito porque me fez lembrar da gente lá em casa. eu.pai.mãe e irmãs.

desde quando eu sai de casa, eu nunca mais voltei. Lembro que, aos 17 anos, quando peguei o ônibus para prestar o vestibular – e apenas prestar, eu nem tinha passado ainda, minha mãe chorava muito no rodoviária – porque no fundo ela sabia, que eu já estava indo pra não voltar mais, para não ter mais aquela rotina com eles.

e isso é o que mais dói, na verdade. saber que nunca mais vou ter aquela rotina. acordar cedo, tomar café ouvindo o rádio da diarista tocar, conversar com meu pai enquanto a gente divide o jornal, ficar com a minha mãe na sala assistindo qualquer filme na tv. sem pressa. sem pensar que no domingo eu terei que ir embora, ou que dali a duas semanas minhas férias acabarão e eu precisarei voltar. o prazer de ter um contínuo sem data para acabar.

dias desses, em um almoço do trabalho, uma amiga me disse que morar longe dos pais é uma vantagem, de certa forma. Ela estava certa. é mesmo. a gente fica mais livre, se conhece melhor, não deve lá muitas satisfações, segue a liberdade, as vontades, cresce, faz coisas interessantes que jamais faria se morasse com eles. eu tenho sorte por isso. eles estão longe e com isso eu sei que vivo uma vida de emoção e aprendizado a todo momento. ao mesmo tempo, eles me guiam e se entusiasmam com o que acontece comigo aqui, enviando todo o amor do mundo.todos os dias.

a nossa relação se estreitou desde que vim para cá, a gente se vê melhor quando se vê, se ouve mais, se deixa estar em felicidade. mas o tempo enquanto isso, passa tanto, com tamanha velocidade, que às vezes parece insuficiente para nós. para o quanto a gente se gosta e ainda quer ficar junto.

eu tenho tanta saudade de certas coisas. e até daquela ingenuidade que não é a mesma. daquela época em que a gente acreditava no Deus e então era só rezar e pedir que tudo passava. hoje a gente acredita no quê? no universo talvez, nesta energia do ir e vir, de encontros que embora não sejam diários, nos fazem mais próximos e generosos, para lembrarmos que por mais corrido, exausto e sem sentido que tudo seja, as pessoas são as responsáveis pela nossa grande vontade de viver.

essa emoção de encontrar, de conversar, tomar um café, comer uma pizza lá em casa. eu comprei um vinho novo. meu violão já está afinado. você viu as fotos novas na parede do meu quarto? a semana se foi já, vamos sair, falar, troca essa música, eu já aprendi a receita do pão, adorei seu óculos novo. tá linda, mãe, você sabe que é a mais bonita.

pai, mãe, eu quero tanto vocês. penso exaustivamente na gente. que só de saber desse amor profundo já consigo me levar para longe, muito longe. e vocês – que sabem da minha alegria por morar em são paulo, nesta novidade sem fim que – mesmo com saudades, me ajudam a estar, a ficar e manter o equilíbrio de uma vida que não seria a mesma sem nós.

vocês estão perto eu sei, isso é o melhor que temos.

* Na foto, tempos atrás – papis e eu.amigos até sempre.

covardiamos.

- A vida é uma merda. A gente gosta de quem não gosta da gente. E quem gosta da gente, a gente não gosta.

Essa foi a resposta de um amigo quando questionado por mim porque não ligara para a menina que ele saira na noite anterior.

César não ligou porque não gostou da moça o suficiente para marcar um segundo encontro. Ela provavelmente esperou pelo retorno e ficou sem. Coisas da vida, um dia a gente sofre, no outro põe alguém a sofrer.

O gostar provoca diversas insatisfações e assim há sempre de ser. O amor tem mesmo dessas patifarias – muitas vezes separa o amante do objeto amado; e o objeto amado põe-se a amar um amante distinto que não necessariamente irá corresponder aos seus mais doces sentimentos.

De certa forma, isso pode ser bom. Não ter o amor correspondido significa que a pessoa sabe do seu interesse mas dele não compartilha. Mau é sentir amor e jamais saber qual seria a reação da pessoa se ela soubesse de tamanha estima. Cá entre nós, esse lema de que o que vale é a iniciativa é bobagem quando se trata de amor. No fundo, somos todos covardes que nos apaixonamos, guardamos e deixamos o tempo levar. Quem sabe assim a gente esqueça, o afeto passe e um novo amor apareça – dessa vez, já claramente apaixonado por nós e que nos poupe o esforço de dar o primeiro passo ou passar noites em claro a pensar sobre isso.

Frustra-se o humano ainda assim já que não é sempre que os amores que nos faltam o ar aparecem. daqueles que nos fazem pensar – eu poderia ficar a vida inteira com você. desde agora. e se soubesse. desde o começo.

e pelo silêncio eles se vão e passam distantes. são apenas vontades.

Covardes. Um bando deles.
Um monte de nós.

de passagem.

Tem gente que passa em nossa vida para deixar saudade, e apenas ela.
Aquela pessoa que você encontra e sabe que não vai durar, que não ficar, que já se foi e agora é lembrança.

Aquele papo que durou poucos minutos e já te fez trocarem dados, faculdades, filmes recentes, o gosto esquisito pelo sertanejo e bossa nova ao mesmo tempo. O curto encontro que mostrou que o francês de vocês não é o forte, talvez um pouco de espanhol resolva. Já cansamos de tanto inglês. Uma sensação tão boa que nem deu vontade de superficializar no facebook ou esquecer na agenda do telefone. Uma intimidade tímida, um olhar de eternidade, uma vontade de que dure mais. Quem sabe a gente se vê por aí.

querido desconhecido.

Ela voltava do trabalho com os pés quentes, cheios de bolhas e band aids gastos que, já sem cola, penduravam-se raspando o calcanhar. Com algumas revistas no braço, um jornal amassado e uma lista de compras a fazer no dia seguinte, ela se esforçava para chegar em casa com menos dor, mais vontade e a tempo de escapar dos velozes pingos de chuva do céu.

Na esquina com o sinaleiro vermelho, ela parou e esperou a passagem dos carros. Enquanto isso, um moço com camisa regata, tênis e cachos molhados passou correndo ao seu lado e fitou-a com um leve sorriso no rosto. Foi tão bom, ela pensou – e retornou com um entusiasmado mostrar de dentes. Se ele tomasse coragem e voltasse para falar com ela, poderia pedir-lhe seu telefone. Eles então jantariam na noite seguinte e provariam o salmão com alho poró do restaurante recém inaugurado na esquina da sua rua. Ela usaria o vestido comprado pela sua mãe, aquele lá que tem as manguinhas largas no ombro e um zíper que fecha até a beira do colo, deixando toda a parte do pescoço de fora. Irresistível – ele certamente acharia.

Nas noites seguintes, ele a ajudaria no mercado, escolheria o sabor da sua geléia, colocaria tudo no porta-malas do seu carro e dirigiria até o seu apartamento. Filmes de madrugada, companhia no telefone até altas horas, bate-papo no metrô na volta do trabalho e sopa, quem diria, servida no sofá.

Eles trocariam livros, beijos, presentes e até quem sabe, passagens para uma viagem a Paris. É tão bom ser clichê, ser amada e se deixar respirar por uma sensação que a gente nem sabe se um dia vai sentir. E ela nem queria saber se era amor, paixão, ilusão ou carência. O importante era que agora, ela tinha de quem gostar.

Seus filhos seriam Thomás e Marta. Crianças alegres e irmãos inseparáveis que posariam felizes para fotos na porta de sua casa, que já fora a casa de sua mãe e agora era a casa dela e de seu já atual marido – que esteve com ela nos mais felizes e tristes dias que poderiam acontecer ao longo de toda uma vida.

Ao virar o rosto para trás, no entanto, ele continuara a correr. O desconhecido, o futuro maior amor de sua vida seguira até a próxima avenida para lá no fim desaparecer. Ele não voltou. Os seus filmes não foram locados, as passagens ficaram na agência e o mercado continuara vazio, sem sabores diferentes e vinhos a escolher – havia apenas ela. O restaurante não serviria o prato, o vestido continuaria no armário e Thomás e Marta, não posariam mais naquele porta-retrato da sala.

Com o fim do caminho e a sua casa já à vista, ela arrancou de vez os curativos, pegou as chaves da bolsa e se concentrou em abrir a porta da frente. Sentada no sofá, já descalça e decepcionada, lamentou a falta de iniciativa do moço corredor – toda uma vida juntos, não tivera nem a chance de começar.

o que eu aprendi com melancolia.

Melancolia me deixou mal, muito mal. Eu nem lembro qual foi o último filme que me trouxe uma sensação tão ruim quanto essa. Saí do cinema sem vontade de jantar, com o estômago embrulhado e me arrependendo da decisão tê-lo assistido em um domingo à noite – que se fez perturbado na volta para casa.

No dias seguintes ele não saiu da minha cabeça, ainda penso muito nele e quero entender o por quê. Melancolia é triste. E não triste de chorar, triste de raiva, de impotência. O mundo vai acabar é o que diz o enredo e mesmo que a história seja ficção é fato que ele vai acabar para cada um de nós qualquer dia desses – e nada do que fizermos de surpreendente ou de ruim vai importar. Então qual é?

O fim do filme é tão frustrante porque é o previsível que não queremos ver. E talvez nem precisamos mesmo vê-lo. A morte é demasiadamente amarga que já nos basta encontrá-la apenas uma vez – no dia que isso acontecer com a vida de cada um de nós. O fim de tudo é de tamanha melancolia que nem vale a pena antecipá-lo na ficção, para que soframos antes e duramente sem que nada ainda tenha acontecido.

Isto me deixa ludibriada: esse fim de fé e de vontade de acreditar em desejos que no final das contas serão cinzas. E esse caso – de eu não me entusiasmar com o filme – não se encaixa naqueles em que tampamos os olhos para não vermos a verdade. Eu sei qual é a realidade e você também. Melancolia está certo, é um filme que não conta mentiras. Tudo o que está ali, por mais maluco que pareça, faz sentido. Mas sua desesperança é dispensável em um mundo tão cheio de gente, de lugares e de experiências para acontecer.

Hoje de manhã, pensando melhor, percebi que gostei de alguns momentos do longa. Da primeira parte principalmente, do sorriso da protagonista pelo seu noivo que – mesmo ao se alternar com caídas de profunda infelicidade – ainda se mostrava apaixonada por ele. Ou quando, na beira do fim mundo entre o medo e a solidão, o que restava era apenas a família – e quem quer que seja que você considere parte de sua família – eles sempre serão responsáveis por te deixarem em pé.

Melancolia é uma crua realidade daquilo que é duro de entender. Eu não sei ao certo se aprendi coisas, talvez eu venha reaprendendo com o tempo e esse filme foi mais um encaixe nesse conjunto de peças confusas que, de vez em quando, nos levamos a pensar e repensar.

Uma amiga definiu Melancolia como “uma dor de cabeça bem vinda”. Eu o defino como uma desagradável previsão do futuro que talvez…seja importante existir para levarmos tudo isso aqui com menos peso e mais alegria – mesmo que não hajam razões para isso, saltitando em nossa frente. Se há pessoas queridas que você sorri só de pensar no momento em que irá abracá-las, isso basta. Sermos mais felizes sem exigirmos tanto do mundo e de nós, isso também é suficiente. No meu mundo, pelo menos.

* Um agradecimento especial a Clarisse Braga, que me acompanhou em um ataque de riso durante um intervalo do longa – o que nos fez tomadas por menos melancolia e mais felicidade.