estou emocionada.

Uma amiga querida, Manuela, disse-me esses dias que eu e o Gabriel somos muito corajosos em abrir a casa e o coração para contarmos uma história. esta foi a definição mais bonita que deram ao apê.ritivos, nosso novo projeto.

estou tão emocionada. feliz. Mais de 800 pessoas compartilharam o link do primeiro episódio no facebook e outras tantas mandaram palavras de beleza, conforto e emoção.

obrigada. estamos no comecinho e receber tantos abraços como esses é o mais reconfortante retorno que poderíamos esperar. me sinto cheia de amor com os pitacos, sugestões e com a forma como cada um experimenta o programa e tem vontade de estar ali com a gente.

vocês estão e estarão em todos.

obrigada ao Flávio Rocha e ao Rogério Assis pelas imagens tão lindas. obrigada ao Roman Lindemann por fazer mágica ao ajudar na conversão dos arquivos de vídeo. obrigada a Letícia Pires que, como ninguém, captou a sensibilidade do projeto e criou a arte para o logo e descrição. obrigada a vocês amigos que todos os dias tem repassado o apê.ritivos para os familiares, amigos e tantos outros que replicam a nossa vontade de juntar saudade, conversa, receitas e um apartamento.

estou (profundamente) emocionada. obrigada.

o não acaso de um sábado à tarde

Existe uma porção de eventos na vida que são pura coincidência.
Uma outra parte é tudo que não o acaso. E eu acredito que vivi essa última no sábado que se passou.

Há uns cinco anos eu não ia na Benedito Calixto – aquela feirinha aos sábado que concentram tudo o que é antigo e gostoso de lembrar. Dois amigos queridos, o Eduardo e o Thiago – dos poucos que a gente guarda depois da faculdade – fizeram o convite e, eu, aqui dentro, senti que eu precisava ir para lá a hora que fosse. E a hora foi tarde, às cinco já. quase no final do dia, já com algumas barracas recolhendo aquele acervo de objetos velhos e usados que todas as semanas tentam nos convencer de que podem, em nossa estante, recobrar sua utilidade.

No caminhar daquele monte de gente, do sol gostoso do fim do dia, no meio revistas que não existe mais e lentes cansadas de fotografia, os vendedores que restavam negociavam o passado como novo. Parei num desses sebos embaixo de lona amarela, com livros de papel também amarelo, quando pude ler em uma capa: “Sonata da última cidade – o romance de São Paulo”.

Renato Modernell. Um querido professor que meu deu aula de narrativas de viagem na universidade e o único que tinha sensibilidade para escapar da ignorante objetividade das aulas de jornalismo para nos fazer escrever, escrever e escrever.

O livro é raro, não existe mais nas livrarias. Eu estava a sua procura há um tempo e sabia que seria difícil encontrá-lo. A sugestão de leitura foi dada por uma amiga querida – Marcia Carini – que contou-me ser esse um dos melhores que já lera.

No meio de tantos livros e possibilidades, ele ali olhando pra mim só tinha que ser meu. 20 reais, assim, baratinho. Coloquei na sacola e logo tratei de espalhar essa história feliz para os amigos comigo ali. Até então acaso, mera coincidência de uma jovem e um livro que se trombaram no mesmo lugar.

Não casualidade é a sequência disso tudo. Com o livro em mãos seguindo ainda pela feira, fiquei imaginando quão interessante seria ter o autógrafo do Renato naquela obra tão procurada. Imagine então a minha surpresa, cinco minutos após a compra do livro, visualizar – naquele acúmulo de gente – o próprio Renato Modernell.

Gritei seu nome sem entender como pode uma feira, um livro e um momento tão bom se reunirem num sábado à tarde. Ele atendeu e se mostrou feliz ao reencontrar seus antigos alunos na praça. Mostrei a ele o livro de 1988 que na primeira página trazia seu autógrafo em inglês escrito em 1996 para uma pessoa – “thanks you for all, best wishes”.

Ele olhou, sorriu, perguntou como encontramos aquele livro e tentou lembrar quem era a pessoa da dedicatória. Não lembrou, mas pegou uma caneta e escreveu seu nome com bons votos para mim, na mesma página da antiga dedicatória dedicada àquela anônima, que de seu livro se perdeu.

por alguns minutos, ficamos os 3 conversando com aquele velho professor, que de repente por ali aparecera. repetimos por vezes a palavra coincidência, coincidência, coincidência ao mesmo tempo em que sabíamos que esse encontro era qualquer coisa que não uma coincidência.

Um livro antigo a espera do seu dono para que fosse autografado para um novo dono. são paulo – gigante de tamanho e eventualidades me trouxe esse presente de fim de semana. comecei a ler a obra e e eu – que não acredito muito em destino – começo a achar que existe uma sintonia neste mundão que, de vez em quando, faz questão de juntar pessoas e vontades apenas para mostrar que nem tudo nesta vida acontece sem querer.

suficiente.

este é aquele dia em que você pede uma pizza. quatro pedaços por favor. a individual, massa fina. traz a máquina, visa. 30 minutos de espera.

sua amiga te chama para uma balada. do lado da sua casa.
e seus amigos vão tomar uma cerveja ali na consolação. eu não vou, obrigada. é aqui comigo.

hoje é casa, sala, sofá. e essa calça que eu só uso quando tô sozinha. essa vontade de fazer alguma coisa que ainda não ligou. aproveitem a festa que hoje eu vou ficar aqui na varanda. e pensar um pouco. colocar esse tanto de coisa em ordem. essa quantidade de gente e o monte de sentimentos que eu tenho que lidar, conter e adivinhar.

essa tarde foi tão boa. aquelas bolhas de sabão passando entre a gente, aquele tanto de gente a procura – olhando exaustas, ávidas por terem tudo. isso é tão bonito. tão a gente. e o que é que nos falta? por que estamos sempre procurando tanto se as coisas já foram encontradas, por que parece que temos que chegar no final do jogo e passar pelas fases sem cair no réves? sem se questionar tanto, sem fraqueza, sem cair no passional. vamos ser diferentes, por favor. vamos ser nós mesmo.

vamos falar, menos flores, cadê a nossa honestidade. por que tanta frescura. será que o “sim” e o “não” não podem ser apenas eles mesmos? eu não quero me acostumar.

a pizza está quase chegando. ela virá com tomate e abobrinha assada. acolhedora. hoje eu quero isso mesmo. um pouco de só. de saudade. da gente se falar amanhã. de sentir a tranquilidade de ter encontrado tudo.

tudo o que eu preciso.

o inverso de mais.

eu tenho um sonho da gente ser menos.
sem muito barulho, com um falatório menos arrogante. com a pretensão de menos seguidores. com uma realização que chega sem inveja, de mansinho, com verdade.

menos blá blá blá, por favor. eu quero dançar, quero paz. não me venha como um pavão com suas penas abertas, como se nenhuma chuva fosse te molhar. me dê menos, muito menos. eu posso suportar muitos rabiscos, chiados e telas fora de harmonia. mas esse mais que quer subir sem humildade e carisma, eu não posso.

e o que é tudo isso senão uma vontade de ser feliz sem achar que somos muito, sem o devaneio de que fazemos tanto se o tanto não é nada e nós menos ainda.

vamos conseguir ir longe e lembrar que o perto também é bom, talvez melhor. o mais sereno. e mesmo que tenhamos o mais abarrotado de emoções que ainda sim sejamos menos, baixinhos, em silêncio, sem tanta pompa, sem tantas penas.

o inverso, me dê de presente.

A casa é minha e eu tô chegando.

Faz 4 meses que não volto para Araçatuba. Eu tô com uma saudade e vontade de deitar naquele sofá da sala, assistir as reprises do Jô Soares com meu pai e os filmes repetidos com a minha mãe. As pizzas à noite; os vinhos com as macarronadas; o purê de batata e a couve-flor empanada que só experimento quando estou lá. Ir e voltar dos lugares como num instante; dar uma volta no Pálio preto com a minha carta de motorista enferrujada; abraçar meu gato mal-humorado e receber uma lambida do meu cachorro que é o mais feliz melhor do mundo.

Quero ficar na cozinha com as minhas irmãs planejando o reveillon, o almoço e a roupa da próxima festa. Falar de esmalte, unhas, peso e todas aquelas insignificâncias que fazem o tempo passar rapidinho e nos trazem a vontade de ficar ali e repetir aquele momento de novo…e de novo e de novo. Quero sentir logo aquela alegria misturada com o aperto de saber que eu tenho poucos dias e que por isso eles serão melhores do que quaisquer outros que eu já vivi.

Arnaldo, essa aí você fez para mim. Obrigada.

Não me falta cadeira
Não me falta sofá
Só falta você sentada na sala
Só falta você estar

Não me falta cama
Só falta você deitar
Não me falta o sol da manhã
Só falta você acordar

Pras janelas se abrirem pra mim
E o vento brincar no quintal
Embalando as flores do jardim
Balançando as cores no varal

Não me falta casa
Só falta ela ser um lar
Não me falta o tempo que passa
Só não dá mais para tanto esperar

A casa é sua
Por que não chega agora?
Até o teto tá de ponta-cabeça
Porque você demora

A casa é sua
Por que não chega logo?
Nem o prego aguenta mais
O peso desse relógio.

* Esse é um dos meus clipes favoritos. Doce Arnaldo Antunes, capta e expressa as emoções como nenhum outro. Separei meus trechos preferidos para colocar na crônica, mas a letra inteira da música vocês encontram aqui.

expressão de vida

Terminei o fantástico livro do Valter Hugo Mãe, hoje.
Deitei na cama, deixei a janela bem aberta com um céu que se preparava para chover. São, de fato, poucos os momentos que sentimos o corpo todo respirar, em silêncio, apenas com o som do sábado lá de fora. Cobri-me com o edredon, estiquei os cabelos de lado para que terminassem de secar após o banho recente. Senti a calmaria. Os meus olhos começaram a lacrimejar e os pingos a cair, para não me deixarem sozinha nesse momento de – simplesmente – chorar. Com o tempo, se aglomeraram, bateram na minha janela, cobriram de água os prédios e o meu travesseiro. E então, nas últimas páginas do livro, deparo-me com isso:

sabes que os peixes têm uma memória de segundos. aqueles peixes bonitos que vês dentro dos aquários pequenos, sabes que têm uma memória de uns segundos, três segundos, assim. é por isso que não ficam loucos dentro daqueles aquários sem espaço, porque a cada três segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. devíamos ser assim, a cada três segundos ficávamos impressionados com a mais pequena manifestação de vida, porque a mais ridícula coisa na primeira imagem seria uma explosão fulgurante da percepção de estar vivo. compreendes. a cada três segundos experimentávamos a poderosa sensação de vivermos, sem importância para mais nada, apenas o assombro dessa constatação. 

desoprimida, fechei o livro e adormeci – pensando que não há de haver sentimento mais fabuloso do que o de experimentar tamanha sensação, descrita acima.

* o autor do livro caminha sobre um lago, nessa beleza de foto.
Há mais um post a respeito do livro aqui. 

sábado.

Minha mãe e irmã do meio vieram no últilmo sábado para São Paulo. Assim, rapidinho. Um bate e volta que já terminaria no domingo de manhã. Saímos à tarde, andamos por aí. Curtimos uma São Paulo que, às vezes, se faz ensolarada.

No final do dia, por volta das 19h, chegamos em casa com os pés doloridos mas prontas para partirmos novamente. Um banho, uma troca de roupa e a noite nos acolheu com vinho branco, pão italiano e aperitivos deliciosos de tomate seco, abobrinha, pimentão e mussarela de búfala.

Nós três, apenas, sentadas numa mesa com toda uma vida a discorrer pela frente. Choramos, rimos, falamos sobre o quê acreditamos e sobre tudo o que deixamos de ter fé. Lembramos de vovó já falecida; do meu avô teimoso que também já se foi. De frases do passado que gostaríamos de não ter dito. Pedimos mais uma cesta de pães, mais uma água para acompanhar. O vinho, um ouvinte consolador sem muito poder nas mãos. Tanta coisa se passou, será que tudo acaba aqui? Será que a gente se vê na outra vida? Deus é mesmo esse senhor que as igrejas tanto chamam? Você acredita?

- Essa energia, nós aqui -  deixa pra lá esse monte de dúvidas – vamos pedir azeite para regar este presunto de parma e molhar a casquinha do pão – quero ler um livro sobre budismo – na revista deste mês está falando sobre espíritos – lembro que eu sonhei com a vó pegando no meu braço – hoje não sonho mais com ela – será que vamos nos encontrar – ela está bem – cadê ela.

E eu encosto minha cabeça no ombro da minha mãe, minha irmã mostra o coque que ela aprendeu a fazer no cabelo. O feriado está chegando, logo estarei lá. São Paulo é mais serena com vocês. Naquela época ninguém se questionava sobre nada, mãe. Nós é que não paramos de pensar em tudo, em nós, nesta louca vida que não se decide pelo explicar ou confundir.

Eu já fico sonolenta, mas não quero pedir a conta. Tira uma foto nossa? Ficou bonita. Minha irmã conta uma história de um sobrevivente da queda de um avião, o que ele aprendeu, o que mudou – o amor. sempre. é ele que você deve escolher em todas as situações. ao acordar, quando pensar nas pessoas, imaginar uma vontade e querer alcançar – o amor, ele é a nossa certeza absoluta.

*essa belíssima foto é daqui.

A fantástica chuva de pétalas

Eu já falara em um post anterior sobre a viagem que fiz para Holambra na festa das flores, que acontece 1 vez por ano lá. Hoje venho trazer o vídeo que finalizei ainda agorinha. Emoções, pulos e gritaria na ocasião – que faz chover milhares de pétalas sobre o público. Quem conseguir pegar uma delas antes que caia no chão, tem todos os seus sonhos realizados.

O dia em que eu não falei com o Marcelo Rubens Paiva

Ele estava no Spot. Aquele restaurante da Ministro Rocha de Azevedo que tem o melhor penne que eu já comi na vida.

Em uma noite de sexta ou sábado, esperamos pelo menos 1 hora na parte externa para conseguirmos uma mesa lá dentro. Pedimos vinho. Eu e minha irmã. E também um antepasto que serve pouco mas traz aspargos com um azeite irresistível – caro e ainda assim vale os muitos centavos. É um bar um tanto quanto blasé mas convence qualquer um a passar a noite por lá principalmente pela fonte d’água do lugar que muda de cor e faz chuá chuá, o barulho de gotas que transforma qualquer ponta de esquina em um ambiente agradável de ficar.

Marcelo estava nessa área, a espera de uma mesa livre também. De longe, parecia estar sozinho. Cutuquei minha irmã – a lá, a lá, a lá, é ele lá! Eu não gosto de tietagem, nunca pedi um autógrafo e uma única vez que trabalhei em uma revista de celebridade, pedi demissão. Às vezes, no entanto, tenho vontade de seguir os conselhos de uma amiga que diz que quando você tem vontade de dizer, tem que ir lá e falar logo. No caso dela, toda vez em que está numa roda de amigos e apresentam-na um cara muito bonito, ela fala logo de cara: pô, eu preciso dizer, você é bonito pra c*!

No meu caso, eu queria dizer – Marcelo, não vou tomar muito seu tempo, mas eu leio todas as suas crônicas, você escreve pra c*! Obrigada pelos textos, bom jantar, até uma próxima.

Pronto, seria só isso. Não daria nem tempo dele apagar o cigarro.
Esperei chamarem o nosso número para entrar. Pedi o penne que, para quem ficou curioso, é servido com melão e presunto de parma; terminamos o vinho e por vezes observei o marcelo já dentro do restaurante também acompanhado por amigas.

Em um certo momento, ele saiu para fumar. Sozinho. Minha nova chance – sou leitora assídua dos seus textos, tchau. Mas então ele permaneceu um tempo lá fora, voltou e eu continuei a titubear. vô, não vô. Pedimos a conta, recusamos a sobremesa.

- Agora eu vou falar. Passei pela mesa dele que ficava bem na porta, mas já me vi saindo e quase na calçada, lamentei a falta de atitude. ele estava jantando. acompanhado dos amigos. ocupado. relaxado. não deu.

desculpas assim. que a gente se coloca de vez em quando.
uma amiga disse que eu deveria ter ido lá, assim mesmo, na coragem. não fui.

De qualquer forma, se um dia ele ler esse texto: pô Marcelo, sou tua fã! Abraço.

ps – esta foto saiu na entrevista que a revista TPM fez com ele este mês. 
Vale a pena ler a matéria completa. 

a árvore da minha vida.

muitas vezes durante o dia eu penso que gostaria de ficar menos no computador e mais com meus pais.

hoje fui ver a árvore da vida, que todo mundo criticou, não gostou, acharam cansativo. o filme, no entanto, tem coisas boas. especiais. e me emocionou muito porque me fez lembrar da gente lá em casa. eu.pai.mãe e irmãs.

desde quando eu sai de casa, eu nunca mais voltei. Lembro que, aos 17 anos, quando peguei o ônibus para prestar o vestibular – e apenas prestar, eu nem tinha passado ainda, minha mãe chorava muito no rodoviária – porque no fundo ela sabia, que eu já estava indo pra não voltar mais, para não ter mais aquela rotina com eles.

e isso é o que mais dói, na verdade. saber que nunca mais vou ter aquela rotina. acordar cedo, tomar café ouvindo o rádio da diarista tocar, conversar com meu pai enquanto a gente divide o jornal, ficar com a minha mãe na sala assistindo qualquer filme na tv. sem pressa. sem pensar que no domingo eu terei que ir embora, ou que dali a duas semanas minhas férias acabarão e eu precisarei voltar. o prazer de ter um contínuo sem data para acabar.

dias desses, em um almoço do trabalho, uma amiga me disse que morar longe dos pais é uma vantagem, de certa forma. Ela estava certa. é mesmo. a gente fica mais livre, se conhece melhor, não deve lá muitas satisfações, segue a liberdade, as vontades, cresce, faz coisas interessantes que jamais faria se morasse com eles. eu tenho sorte por isso. eles estão longe e com isso eu sei que vivo uma vida de emoção e aprendizado a todo momento. ao mesmo tempo, eles me guiam e se entusiasmam com o que acontece comigo aqui, enviando todo o amor do mundo.todos os dias.

a nossa relação se estreitou desde que vim para cá, a gente se vê melhor quando se vê, se ouve mais, se deixa estar em felicidade. mas o tempo enquanto isso, passa tanto, com tamanha velocidade, que às vezes parece insuficiente para nós. para o quanto a gente se gosta e ainda quer ficar junto.

eu tenho tanta saudade de certas coisas. e até daquela ingenuidade que não é a mesma. daquela época em que a gente acreditava no Deus e então era só rezar e pedir que tudo passava. hoje a gente acredita no quê? no universo talvez, nesta energia do ir e vir, de encontros que embora não sejam diários, nos fazem mais próximos e generosos, para lembrarmos que por mais corrido, exausto e sem sentido que tudo seja, as pessoas são as responsáveis pela nossa grande vontade de viver.

essa emoção de encontrar, de conversar, tomar um café, comer uma pizza lá em casa. eu comprei um vinho novo. meu violão já está afinado. você viu as fotos novas na parede do meu quarto? a semana se foi já, vamos sair, falar, troca essa música, eu já aprendi a receita do pão, adorei seu óculos novo. tá linda, mãe, você sabe que é a mais bonita.

pai, mãe, eu quero tanto vocês. penso exaustivamente na gente. que só de saber desse amor profundo já consigo me levar para longe, muito longe. e vocês – que sabem da minha alegria por morar em são paulo, nesta novidade sem fim que – mesmo com saudades, me ajudam a estar, a ficar e manter o equilíbrio de uma vida que não seria a mesma sem nós.

vocês estão perto eu sei, isso é o melhor que temos.

* Na foto, tempos atrás – papis e eu.amigos até sempre.

covardiamos.

- A vida é uma merda. A gente gosta de quem não gosta da gente. E quem gosta da gente, a gente não gosta.

Essa foi a resposta de um amigo quando questionado por mim porque não ligara para a menina que ele saira na noite anterior.

César não ligou porque não gostou da moça o suficiente para marcar um segundo encontro. Ela provavelmente esperou pelo retorno e ficou sem. Coisas da vida, um dia a gente sofre, no outro põe alguém a sofrer.

O gostar provoca diversas insatisfações e assim há sempre de ser. O amor tem mesmo dessas patifarias – muitas vezes separa o amante do objeto amado; e o objeto amado põe-se a amar um amante distinto que não necessariamente irá corresponder aos seus mais doces sentimentos.

De certa forma, isso pode ser bom. Não ter o amor correspondido significa que a pessoa sabe do seu interesse mas dele não compartilha. Mau é sentir amor e jamais saber qual seria a reação da pessoa se ela soubesse de tamanha estima. Cá entre nós, esse lema de que o que vale é a iniciativa é bobagem quando se trata de amor. No fundo, somos todos covardes que nos apaixonamos, guardamos e deixamos o tempo levar. Quem sabe assim a gente esqueça, o afeto passe e um novo amor apareça – dessa vez, já claramente apaixonado por nós e que nos poupe o esforço de dar o primeiro passo ou passar noites em claro a pensar sobre isso.

Frustra-se o humano ainda assim já que não é sempre que os amores que nos faltam o ar aparecem. daqueles que nos fazem pensar – eu poderia ficar a vida inteira com você. desde agora. e se soubesse. desde o começo.

e pelo silêncio eles se vão e passam distantes. são apenas vontades.

Covardes. Um bando deles.
Um monte de nós.

de passagem.

Tem gente que passa em nossa vida para deixar saudade, e apenas ela.
Aquela pessoa que você encontra e sabe que não vai durar, que não ficar, que já se foi e agora é lembrança.

Aquele papo que durou poucos minutos e já te fez trocarem dados, faculdades, filmes recentes, o gosto esquisito pelo sertanejo e bossa nova ao mesmo tempo. O curto encontro que mostrou que o francês de vocês não é o forte, talvez um pouco de espanhol resolva. Já cansamos de tanto inglês. Uma sensação tão boa que nem deu vontade de superficializar no facebook ou esquecer na agenda do telefone. Uma intimidade tímida, um olhar de eternidade, uma vontade de que dure mais. Quem sabe a gente se vê por aí.

querido desconhecido.

Ela voltava do trabalho com os pés quentes, cheios de bolhas e band aids gastos que, já sem cola, penduravam-se raspando o calcanhar. Com algumas revistas no braço, um jornal amassado e uma lista de compras a fazer no dia seguinte, ela se esforçava para chegar em casa com menos dor, mais vontade e a tempo de escapar dos velozes pingos de chuva do céu.

Na esquina com o sinaleiro vermelho, ela parou e esperou a passagem dos carros. Enquanto isso, um moço com camisa regata, tênis e cachos molhados passou correndo ao seu lado e fitou-a com um leve sorriso no rosto. Foi tão bom, ela pensou – e retornou com um entusiasmado mostrar de dentes. Se ele tomasse coragem e voltasse para falar com ela, poderia pedir-lhe seu telefone. Eles então jantariam na noite seguinte e provariam o salmão com alho poró do restaurante recém inaugurado na esquina da sua rua. Ela usaria o vestido comprado pela sua mãe, aquele lá que tem as manguinhas largas no ombro e um zíper que fecha até a beira do colo, deixando toda a parte do pescoço de fora. Irresistível – ele certamente acharia.

Nas noites seguintes, ele a ajudaria no mercado, escolheria o sabor da sua geléia, colocaria tudo no porta-malas do seu carro e dirigiria até o seu apartamento. Filmes de madrugada, companhia no telefone até altas horas, bate-papo no metrô na volta do trabalho e sopa, quem diria, servida no sofá.

Eles trocariam livros, beijos, presentes e até quem sabe, passagens para uma viagem a Paris. É tão bom ser clichê, ser amada e se deixar respirar por uma sensação que a gente nem sabe se um dia vai sentir. E ela nem queria saber se era amor, paixão, ilusão ou carência. O importante era que agora, ela tinha de quem gostar.

Seus filhos seriam Thomás e Marta. Crianças alegres e irmãos inseparáveis que posariam felizes para fotos na porta de sua casa, que já fora a casa de sua mãe e agora era a casa dela e de seu já atual marido – que esteve com ela nos mais felizes e tristes dias que poderiam acontecer ao longo de toda uma vida.

Ao virar o rosto para trás, no entanto, ele continuara a correr. O desconhecido, o futuro maior amor de sua vida seguira até a próxima avenida para lá no fim desaparecer. Ele não voltou. Os seus filmes não foram locados, as passagens ficaram na agência e o mercado continuara vazio, sem sabores diferentes e vinhos a escolher – havia apenas ela. O restaurante não serviria o prato, o vestido continuaria no armário e Thomás e Marta, não posariam mais naquele porta-retrato da sala.

Com o fim do caminho e a sua casa já à vista, ela arrancou de vez os curativos, pegou as chaves da bolsa e se concentrou em abrir a porta da frente. Sentada no sofá, já descalça e decepcionada, lamentou a falta de iniciativa do moço corredor – toda uma vida juntos, não tivera nem a chance de começar.

o que eu aprendi com melancolia.

Melancolia me deixou mal, muito mal. Eu nem lembro qual foi o último filme que me trouxe uma sensação tão ruim quanto essa. Saí do cinema sem vontade de jantar, com o estômago embrulhado e me arrependendo da decisão tê-lo assistido em um domingo à noite – que se fez perturbado na volta para casa.

No dias seguintes ele não saiu da minha cabeça, ainda penso muito nele e quero entender o por quê. Melancolia é triste. E não triste de chorar, triste de raiva, de impotência. O mundo vai acabar é o que diz o enredo e mesmo que a história seja ficção é fato que ele vai acabar para cada um de nós qualquer dia desses – e nada do que fizermos de surpreendente ou de ruim vai importar. Então qual é?

O fim do filme é tão frustrante porque é o previsível que não queremos ver. E talvez nem precisamos mesmo vê-lo. A morte é demasiadamente amarga que já nos basta encontrá-la apenas uma vez – no dia que isso acontecer com a vida de cada um de nós. O fim de tudo é de tamanha melancolia que nem vale a pena antecipá-lo na ficção, para que soframos antes e duramente sem que nada ainda tenha acontecido.

Isto me deixa ludibriada: esse fim de fé e de vontade de acreditar em desejos que no final das contas serão cinzas. E esse caso – de eu não me entusiasmar com o filme – não se encaixa naqueles em que tampamos os olhos para não vermos a verdade. Eu sei qual é a realidade e você também. Melancolia está certo, é um filme que não conta mentiras. Tudo o que está ali, por mais maluco que pareça, faz sentido. Mas sua desesperança é dispensável em um mundo tão cheio de gente, de lugares e de experiências para acontecer.

Hoje de manhã, pensando melhor, percebi que gostei de alguns momentos do longa. Da primeira parte principalmente, do sorriso da protagonista pelo seu noivo que – mesmo ao se alternar com caídas de profunda infelicidade – ainda se mostrava apaixonada por ele. Ou quando, na beira do fim mundo entre o medo e a solidão, o que restava era apenas a família – e quem quer que seja que você considere parte de sua família – eles sempre serão responsáveis por te deixarem em pé.

Melancolia é uma crua realidade daquilo que é duro de entender. Eu não sei ao certo se aprendi coisas, talvez eu venha reaprendendo com o tempo e esse filme foi mais um encaixe nesse conjunto de peças confusas que, de vez em quando, nos levamos a pensar e repensar.

Uma amiga definiu Melancolia como “uma dor de cabeça bem vinda”. Eu o defino como uma desagradável previsão do futuro que talvez…seja importante existir para levarmos tudo isso aqui com menos peso e mais alegria – mesmo que não hajam razões para isso, saltitando em nossa frente. Se há pessoas queridas que você sorri só de pensar no momento em que irá abracá-las, isso basta. Sermos mais felizes sem exigirmos tanto do mundo e de nós, isso também é suficiente. No meu mundo, pelo menos.

* Um agradecimento especial a Clarisse Braga, que me acompanhou em um ataque de riso durante um intervalo do longa – o que nos fez tomadas por menos melancolia e mais felicidade.

cinderelas da paulista

Na Avenida Paulista perto da entrada do metrô Trianon, têm aparecido umas senhoras que eu não percebera antes. Elas já têm idade, brancos, rugas e se vestem como cinderelas – com vestidos pomposos, feitos com tecido acetinado e cheios de pedras brilhantes que, com o uso, se desgrudaram e deixaram falhas em toda a peça. Essas roupas, embora de princesas, estão sujas, mal cuidadas, prontas para o lixo. Ainda assim, cobrem diariamente essas mulheres que mais tarde percebi serem ciganas, donas do destino ou funcionárias da sorte que, juntas em três ou quatro, lêem as mãos de pessoas que querem descobrir o que lhes reserva o futuro.

Em um desses dias, uma jovem de óculos escuros sentou-se ao lado de uma das adivinhadoras, estendeu-lhe a mão e não olhou mais para o resto, para a rua e pedestres que passavam a sua volta. Aquela senhora reservara-lhe respostas, conselhos e divagações para a angústia não escondida no rosto da moça, que balançava em sinal de confirmação a cada vez que a velha passava-lhe os dedos nas linhas de sua mão, revelando profecias.

Enquanto uma trabalhava, as outras cinderelas conversavam entre si, trocavam moedas e andavam pela calçada rastejando a calda do vestido imundo que acumulava folhas e pressa da maioria dos paulistanos que nem as notavam – passavam por cima de todas elas, sem tempo para jogos de azar ou o que quer que aquilo fosse.

Sob indiferença ou não, daquele canto elas não se despediam porque de meia em meia hora alguma garota desolada abria a carteira, oferecia o pagamento e se deixava suplicar por uma frase salvação que pudesse alivar seu dia, anseios e dúvidas sobre o que desta vida fazer.

De um lado, seres humanos – que de tamanha tormenta – se jogam nos braços de adivinhadoras do destino.

Do outro, senhoras – que sem perspectiva de um porvir próspero, dispõe-se a resolver o futuro alheio.

Eu aqui, fico a pensar – quem é que neste mundo, precisa de ajuda?

adeus, pedrosa.

Cheguei ao fim do livro de Inês. Quando olho o que passou, vejo páginas dobradas, grifadas e marcadas com asteriscos que gritam e se destacam para que nenhuma passagem seja perdida. Para a despedida final separei alguns trechos que merecem ser lidos e lembrados por mim e por vocês:

As nossas vidas seriam muito diferentes, se acordássemos para cada dia como se fosse o único. Quantas vezes repetimos: “Temos tempo”? Quantas horas ocupamos a complicar a vida dos outros, em vez de simplificarmos a nossa?

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- Aprende uma coisa, Pedrinho: nenhuma gaja se mata por causa de um homem. Isso só aconteceu numa peça de teatro do Shakespeare. E mesmo assim, por engano.

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Não consigo deixar de estar ao lado de Filipe. Perdoo-lhe tudo, com a convicção íntima de que o perdão é o maior desprezo que se pode oferecer à alguém.

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Mas estou cada vez mais cansada das palavras e das estruturas repetidas. Só devem ler-se as coisas essenciais, mas para as encontrar temos de percorrer quilómetros de páginas acessórias.

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- que se foda o amor que se foda o amor que se foda o amor que se foda o amor que se foda o amor

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Tinham vinte anos. E depois ele voltou para os Estados Unidos, os telefonemas foram espaçando, nenhum deles tinha e-mail. Júlio pedia-lhe que compreendesse que não gostava de escrever. Bárbara pedia-lhe que compreendesse que não gostava de compreender. 

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É assim a eternidade do amor – indiferente à vida e à morte, capaz de sobreviver à pequena cronologia da vida. Capaz, acima de tudo, de fazer da semivida presunçosa em que tantas vezes nos enredamos, uma vida verdadeira, votada à única coisa que interessa – o amor

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Não me canso dela como sempre me cansava das outras. A tese das almas gêmeas é uma fraude, mas é verdade que há uma pequena percentagem de corpos incompatíveis, uma alta percentagem de corpos compatíveis e uma minoria de corpos feitos um para o outros. Quando se tem a sorte de encontrar esse corpo que se funde no nosso como o mar com o horizonte num dia de Verão, isso é felicidade. 

*livro Os Íntimos, de Inês Pedrosa. Tem mais aqui e aqui. 

café de 1 só morador.

Hoje cedo fiz café preto. Há dois dias tenho feito isso depois de quase 1 ano de abandono à cafeína dentro de casa. É chato preparar café para uma pessoa só. Ontem, no entanto, minha diarista estava aqui, éramos duas. Já hoje, meu jornal estava especialmente bom e merecia uma xícara daquele preto forte.

Servi a bebida na mesa para mim do lado do Estadão esparramado, junto com uma saudade imensa da minha irmã, que morava comigo. Domingo é devastador. Ela fez tanta falta esta manhã. Queria poder conversar com ela ali pessoalmente, servir mais café e dizer que as noites pós-trabalho passavam mais rápidas com ela aqui.

Na manchete do jornal hoje, dizia que o número de brasileiros que moram sozinhos triplicou em 20 anos. Agora são 6,9 milhões de pessoas fazendo café para elas mesmas. O texto estava tão bom que me felicitei ao perceber que jornais diários ainda fazem coisas boas assim. Nos depoimentos, uma atriz lamentava que morar sozinha faz com que a louça sempre seja dela. O poeta Paulo Bomfim, de 85 anos, confessou ser povoado de tantas boas lembranças que não consegue se sentir só, mas: “a única coisa triste é no fim do dia não ter para quem voltar”.

Morar sozinho não é sinônimo de solidão. Saudade é uma coisa, solidão é outra. Favor não confundir. Hoje a saudade está forte. Comprei uma botão de rosa amarela que aos poucos tem desabrochado ao lado da minha televisão. Minha mãe iria gostar de ver e de me ajudar a trocar a água dela em uma garrafa de vinho que adaptei como vaso.

Percebi que a minha inspiração para escrever voltou com tamanha vontade que tenho de acordar no domingo com a minha família. Um entusiasmo artístico que antes era provocado pela minhas voltas à noite do trabalho, no ônibus que subia aquela Teodoro Sampaio, sem hora para chegar em casa. No caminho, as pessoas, as lojas de sapatos repetidos e o vaivém dos passageiros me faziam querer escrever algo a cada chegada em casa. Mas com o novo metrô inaugurado há poucos meses, não vejo mais as ruas e embora a minha qualidade de vida tenha aumentado, as minhas histórias urbanas se perderam e já devem, também, estar com saudades de mim.

A falta de alguém para dividir o café me faz desordenada e sem consolo. Em contrapartida, me traz palavras, sensações, escritas e pessoas que não querem ser esquecidas.

Crônica de imagens

É quem é que disse que crônicas são construídas apenas por palavras? Esta abaixo, que acabei de finalizar, é feita de imagens, sons, frio, verde, vinho e pessoas. Eu gosto, dá vontade de viver tudo novamente.

*captação feita em julho de 2011 / Santa Catarina (São Joaquim e Florianópolis)

Quando ainda há muito tempo

A menina morrera de repente, assim sem mais. Dormiu e já não estava mais neste mundo. Ela já era moça, 30 e poucos anos, 1 faculdade feita, 1 pós-graduação incompleta. Alguns cursinhos de inglês, um começo de italiano e um monte de rabiscos que deveriam preencher sua vontade de ser designer, o que nunca aconteceu. 

A última noite tinha sido boa. Seu namorado recente cozinhara para ela e fizera torta de limão. Ela nunca poderia imaginar que 2 taças de vinho combinariam tão bem com um doce que é feito com a fruta mais azeda do abecedário. Não fora com ele que ela perdera a virgindade mas ele era muito melhor que os dois anteriores. Mais dela. Mais calmo. E tocava violão. Homem quando toca violão não precisa nem ser simpático ou bonito, é só gostar de música e tocar.

E ela se foi ao fechar os olhos,  junto com a felicidade de sua mãe, pai e cachorro – um golden retriver. Grande. O melhor deste mundo. O único que assistia capítulo repetido de séries da Warner com ela, sem reclamar. Mas que droga, isso não é hora de morrer!

Ela ainda ia fazer pilates no final de semana, arrumar outro emprego, limpar o quarto, terminar os 4 novos livros da sua estante. E tinha planos de se sentir mais satisfeita, magra, cortar os cabelos, pintá-los de loiro e comprar sapatos mais confortáveis porque aqueles eram insustentáveis de tanta dor.

E tanta vontade ainda, poxa. Será que é coisa de Deus? Logo ela que rezava todas as noites. Chegou até a acender vela uma vez quando sua tia ficou doente e precisou de algo mais forte que antibióticos e corticóides. E aquele sentimento de que ela não poderia sair deste mundo sem fazer um trabalho voluntário ou plantar algumas árvores na rua?Também faltava presentear sua mãe com alguma coisa, um colar, brinco, ou o que quer que fosse. Um te amo, quem sabe. Ligar pro seu pai! Ela não tivera tempo de ligar para o pai nos dois últimos dias à noite.

E o que vai ser de mim? E o que vai ser da minha vida que eu não terminei? Como eu posso ir com tanta coisa na agenda? Com tantas novas palavras para aprender?

O que ela faria sem o resto de sua vida?

E como uma respiração que se recupera após três minutos embaixo d’água, ela acordou.
Viva. Com o travesseiro amassado e o seu cachorro arrastando as patas pelo piso de madeira.  Foi tudo impressão, devaneio, imaginação.  Aquilo que eles chamam de pesadelo.

Os olhos se abriram pesados, cheios de lágrimas. Transbordando em água salgada. Tanta coisa na cabeça – decidiu ligar para um amigo, aquele do peito, que a gente tem 15 quando criança e apenas 1 depois que cresce. Ela se esbaldou, contou o sonho, chorou de novo e se fez derrotada.

- Não seja assim, menina – disse o moço. – Quando o seu dia realmente chegar, você ainda assim, deixará milhares de coisas empilhadas para fazer. Elas nunca se acabam. Na verdade, os compromissos da vida são repetidos, só mudam de nome e local para nos fazerem menos entediados. Nós é que os transformamos em um peso, uma meta a ser cumprida, incondicionalmente. Você ama sua mãe, ela sabe. Seu pai também. Você se esforça no trabalho mesmo que não seja o emprego dos seus sonhos. E segue em frente, fazendo o melhor todos os dias. Complete o dia com o que você conseguir, a sobra deixe para o dia seguinte, mesmo que esse dia nunca chegue, porque um dia, de fato, ele não vai mais chegar. Sossega. Tenha menos vontade de fazer o mundo, torne o que você tem agora, a maior satisfação que alguém pode ter e, conquiste os demais propósitos sem esforço. Ao final de cada etapa da sua vida, não pense com o que ficou sem, mas no que se esbaldou.

Pronto. Conselhos deveriam não só serem cobrados como gravados em um aparelho universal que tocaria a cada insatisfação humana. E assim, ela desligou o telefone, arrumou a cama, se trocou, deu um beijo em seu cachorro e saiu. Na rua, colocou os fones de ouvido, escolheu sua música favorita e sorriu. Porque naquele momento, era só isso que ela poderia fazer.

Fome de mundo

Entre conversas e outras, todo mundo sente a mesma fome de mundo. Aquela necessidade de fazer tudo ao mesmo tempo, aprender 7 línguas, viajar para 13 países diferentes, ter uma ideia genial, ajudar em um trabalho voluntário, melhorar o mundo, a si mesmo, tocar flauta, violão, piano, recitar poemas como ninguém, cantar, compor e ter uma opinião certa sobre tudo. Saber mais, partilhar, encontrar tempo e organização para ver tudo em seu devido lugar.

O que fazer com o nosso sufoco pela vontade de alcançar?

Esses dias, perguntei isso ao meu pai.

- O importante é estar sempre fazendo alguma coisa. E independente do que seja, você já está vivendo. 

A foto é daqui.

Crônicas de Nova York

9 avenue with 44 street. Rudy’s Bar é do tipo que serve cachorro quente grátis.
Basta pedir 2 copos de cerveja que o jantar está garantido. 1 salsicha, uma tira de catchup, mostarda e um pão magro nada lembram o hot dog com batata palha, maionese e purê de batata do Brasil.

As salsichas ficam rodando num forno pequeno ao lado de um mural com diversas carteiras de identidade falsificadas. Menor de 21 anos que tenta entrar no Rudy’s com ID de mentira, fica pra fora e ainda colabora com a coleção de passaportes adulterados que somam mais de 50 na parede. You fake them, we take them.

A música também é o cliente quem faz. 1 dólar e você escolhe em um computador se quer ouvir Michael Jackson ou Johnny Cash. Colocar samba era a maior diversão. Salsa, a alegria de Juan, que tirava as suiças e coreanas para dançar e mostrar que os colombianos também tem ginga no pé.

Muita gente e poucos sofás, a solução era revezar os assentos com os recentes amigos que se apegavam rapidamente, já se abraçavam na hora de tirar fotos e entristeciam-se quando me ouviam dizer que eu ficaria 1 mês por lá. Too short Clara, too short.

Para todo o espaço, apenas 1 funcionário. O garçom simpático também era dono do estabelecimento, barman, segurança e faxineiro quando o chão estremecia com copos quebrados no chão. Curioso, ele adorava bater papo com estrangeiro e comentar o jogo de basquete na TV, que levantava os gritos da clientela do balcão.

Com o passar das horas, a fome aumentava e os amigos homens pediam para as meninas o convencerem a liberar mais hot dogs. Lá íamos nós.

- Hey sir, one more please.
- Are you drinking? 

- Not anymore, but our group has drunk a lot this night, sir.

- Where are you from?

- Brazil.

- Ok, i’ll give you more hot dogs. 

Essa foto bonita da noite na cidade, foi tirada por esse cara aqui.

Dia dos namorados

Mandar sms virou jogo difícil.

Quantos pontos precisam ser colocados ao final da frase? Três pontinhos exigem uma resposta do remetente, mas deixam o raciocínio sem final. Ponto final é meio grosseiro e um ponto de exclamação, too much. Sem ponto você não conclui o pensamento.

A risada deve ser longa, mas contida.
“Rs” é quando você não para de pensar nele.
“Hahahaha” é quando você não para de pensar nele, mas ele não pode saber disso.

E aquelas carinhas no final :) ;) :D que sempre soam ridículas, principalmente para nós que as mandamos, são colocadas apenas para aliviar a tensão de passar uma mensagem em que não há toque, nem olhar.  Apenas poucos caracteres que custam uma fortuna.

Por isso, homens queridos, da próxima vez que receberem um sms cheio de frufrus, pontinhos e sorrisos de suas doces namoradas, paqueras ou meninas, que suspiram por vocês, entendam que fazemos isso apenas para transmitir a nossa felicidade, por sentirmos aquele monte de coisa que faz da gente mais feliz.

amor? amor.

*Essa foto linda, foi tirada daqui. 

Como voltar a respirar

Já me disseram para não cursar jornalismo,
que os jornalistas não ganham dinheiro e são infelizes.

Um dia, aconselharam-me a não sair de Araçatuba,
porque São Paulo é uma cidade maluca que não oferece felicidade.

Meses atrás, argumentaram que eu não deveria ir para Nova York. Sozinha então, jamais.

As melhores escolhas que fazemos, são aquelas que não têm a aprovação dos outros.

Eu não sabia que era possível voltar a respirar.
Que o ar que eu sentia todos os dias poderia ser superado por algo maior.

Nunca imaginei que, aos 24 anos, desconhecesse tantas sensações.

Eu quis ir para Nova York como se a cidade já estivesse me esperando a muito tempo. Viajar sem medo de conhecer é se apaixonar novamente pela vida. Andar o dia todo sem sentir dor nos pés, não estar cercado pelo mesmo, pelos mesmos, pela rotina repetida, pela tela do computador. Amar, comer sem culpa, falar e descobrir outra língua, outro país, pedir ajuda, errar, vibrar com os acertos, fazer amigos. Ouvir da pessoa que você acabou de conhecer, que ela quer tomar um café contigo para contar porque também decidiu estar ali, sozinha.

Conquistar algo que a gente quer muito é se esbaldar de novidade. É um chacoalho, um empurrão, uma oportunidade que te faz entender o que é mais gostoso disso tudo aqui. Desse mundão que tem dias que parece até que a gente não vê.

Uma viagem em que você só tem a si mesma para descobrir, salva a sua vida. Ela não te coloca barreira, trajetos e nada que você não queira. Fazer exatamente o que eu quero com quem eu desejo, trouxe-me uma liberdade que eu nunca havia sentido antes. Se isso for um exagero, eu prefiro seguir pelo excesso. Se isso for clichê, piegas e todo o resto que nos dizem, eu quero contrariar todo mundo.

Sempre que nos aconselharem a escolher o caminho mais fácil, o difícil será bem mais divertido.

Sentir o pulso novamente, obrigada.

*a foto acima foi tirada no Central Park, em NY/maio 2011. 

with love.

Mãe,

Hoje eu estou em uma ilha.
Longe de Araçatuba, de São Paulo, de nós.

Talvez, neste dia, a gente não fale nem por telefone, como costuma acontecer durante todas as manhãs. Eu não vou te perguntar sobre o que devo jantar e nem comentar sobre o frio que faz lá fora. Mas veja, o domingo é seu, hoje é dia das mães.

Esses dias estava pensando em como eu nunca te vi de mau humor. Nada.

Você jamais negou um bom dia, um conversa longa ou incansáveis conselhos para três filhas que tem dúvidas sobre saúde, homens, carreira e sucesso. Três garotas chatas, amáveis, unidas que não vivem sem você.

Também acho que falo muito de mim quando conversamos. Você nunca reclamou.
Eu cheia de coisas, neuroses, toques e você sempre amável, sábia, sem problemas perto de mim.

Você é o meu centro, mãe.
E aquela frase do velho Vinícius “eu não existo sem você”, cabe bem quando eu penso em você. Não há um dia ou um momento em que eu não me vejo te contando tudo depois. Os exercícios exaustivos da academia, a matéria feita na rua, a torneira do banheiro que não para de pingar, o telefone que está na hora de ser trocado, a minha saudade que não se consola, o frio, os filmes repetidos que eu adoro rever na tv…..

E eu, que ainda me confundo com conta de banco, geografia e sapatos altos, sinto que aquilo que dizem que com o tempo a gente não precisa mais de mãe, é tudo mentira. O que fazer se eu sei que sempre vou precisar de você?

Hoje eu queria te dar um beijo estalado e um abraço apertado, segurando sua mão que sempre tem as unhas bem feitas.

Você, que quase não chora na minha frente.
E que é forte mesmo quando está fraca porque sabe que sem sua fortaleza mãe, não dá pra levar.

E todos os meus sonhos malucos durante à noite que você tentar interpretar durante o dia, e a minha falta de habilidade em fazer omeletes e as suas risadas ao ouvir que chamei amigos em casa para que todos provem o meu tuna pasta.

Obrigada, mãe.
Devo o meu esforço, alegrias e conquistas a você.  A minha força e coragem de tocar tudo pra frente também são suas.

Um dia, no carro, você me disse que nasceu pra ser mãe. Essa foi a coisa mais bonita que eu já ouvi alguém dizer.
Se você nasceu para essa missão, então eu espero fazer parte dela sendo a melhor filha e amiga que você pode ter.

Feliz dia das mães, porque eu te amo e estou perto, muito perto de você.

Há um post antigo sobre isso, aqui