o que eu sinto quando tenho o apê.ritivos

Puxa, essa é uma fase muito feliz que – tenho certeza – vou lembrar com muito carinho por toda a minha vida. A revista TPM fez uma entrevista muito bacana comigo e com o Gabriel sobre o apê.ritivos. Na condição de jornalista, eu sempre achei esquisito essa coisa de dar entrevistas. Mas nesse caso não foi entrevista, foi bate-papo, conversa, bom demais. Obrigada. Fiquei emocionada com o resultado e essa pergunta resumiu bem o nosso frescor desta época:

O que mudou na vida de vocês depois da estreia do programa?
Gabriel: Mudou muita coisa. Primeiro as pessoas que estão perto da gente, os amigos sempre vêm comentar com a gente, pessoas que não conhecemos! Fui a festa da Clara e foi como se todos os amigos dela também fossem meus amigos.
Clara: Foi como respirar novamente. Eu tenho minha rotina no meu trabalho e depois do primeiro programa as pessoas foram tão receptivas e amorosas que isso acabou criando uma nova alegria na minha vida. Eu e o Gabi sempre quisemos ter um projeto pessoal. E muitas pessoas também têm essa vontade. Então tem gente que começou a chegar até nós por causa disso. No começo achei que seria difícil mostrar a minha casa. Mas nós estamos levando de uma forma tão leve que tem sido um prazer. A gente queria ser feliz com esse projeto. O apê.ritivos foi pensado assim. O programa não é pra ser estressante. O que está dando pra fazer é uma vez por mês e a gente está mantendo assim pra fazer com qualidade, tranquilo.

No meio de tanta alegria, gravamos este vídeo essa semana apenas para brincarmos, cantarmos, transbordarmos a nossa satisfação de no meio de tantas dúvidas, sonhos, frustações e medos – nossos e de todo mundo – estarmos fazendo algo que de fato nos tira o ar e nos transforma na versão mais sincera de nós mesmos. Obrigada, mesmo.

Para quando estivermos tristes

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“Você faz piruetas com o corpo e com a imaginação para fugir da tristeza. Mas quem disse que é proibido ficar triste? Na verdade, muitas vezes não há nada mais sensato do que ficar triste; todo dia acontece alguma coisa, com os outros ou com a gente, que não tem remédio, ou melhor, só tem esse antigo e único remédio que é sentir tristeza.

Não deixe ninguém receitar alegrias como quem prescreve um tratamento de antibióticos ou colheradas de água do mar de estômago vazio. Se você deixar que tratem sua tristeza como se fosse uma perversão, ou no melhor dos casos como uma doença, estará perdido: além de triste, se sentirá culpado. E você não tem culpa de sua tristeza.
Não é normal você sentir dor quando se corta? Sua pele não arde quando leva uma lambada?

Pois é assim mesmo o mundo, a vaga sucessão dos fatos que acontecem (e dos que não acontecem) vai criando um fundo de melancolia. Como já dizia o poeta Leopardi: Assim como o ar preenche o espaço entre as coisas, a melancolia preenche os intervalos entre uma alegria e outra.

Viva sua tristeza, apalpe-a, desfolhe-a em seus olhos, molhe-a com lágrimas, envolva-a em gritos ou em silêncios, copie-a em cadernos, grave-a em seu corpo, nos poros de sua pele. Pois só se você não se defender é que ela fugirá, aos poucos, para além do centro de sua dor íntima.”

Trecho do livro “Receitas para mulheres tristes” mas que também serve para os homens, para todos. Estava indo dormir quando minha irmã querida me apresentou esse livro. Não consegui pegar no sono sem antes transcrever esse trecho para vocês – afinal, é bom encontrar um autor que sabe explicar (muito bem) que não há problema em a gente chorar com a mesma intensidade que sorri. 

Um homem e seu tutu.

Um homem vivia feliz com sua esposa até descobrir que ela tinha câncer de mama. A partir daí a luta começou e também a sua vontade de fazê-la sorrir. A vida mostra-se tão frágil e bonita nessas horas, por que não realizar algo completamente inusitado? Foi aí que Bob resolveu fotografar-se em diversas partes do mundo usando um tutu, aquela saia rosa de bailarina. Simples. Fotografar-se para fazê-la rir. O projeto crescer e virou livro, site, camiseta. Com toda a repercussão e ajuda, ele resolveu divulgar suas fotos pelo mundo para arrecadar fundos para organizações de apoio ao câncer de mama.

A primeira vez que eu vi as imagens, achei tudo estranho.
Na segunda vez, me apaixonei – é libertador, corajoso e bonito.

E o quê as fotos querem dizer? Algumas coisas não precisam fazer sentido, servem para sorrir e isso basta. Neste caso, as imagens de Bob conseguem mais. Elas mostram beleza, alegria e dor – sempre a dor. Essa que está na gente, que às vezes aflora e pede para agir. Obrigada, Bob – vida longa ao Tutu Project e às sensações que você nos traz com ele.

Se você gostou das fotos, tem mais aqui no site dele, e a na fan page do facebook.
E se você se animou com esse projeto, pode ser que se interesse por este aqui também.

sobre deus e nós

esperar por deus é como esperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho com a sua minissaia erótica tão desadequada à ingenuidade das crianças.
o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas. 

(valter hugo mãe – escritor que tem uma capacidade assustadoramente fantástica para descrever os conflitos desse nosso mundo)

e tem mais aqui e aqui. 

o nosso casamento com são paulo

Às vezes, vejo pessoas andando do caminho do metrô para o trabalho com um livro na mão – lendo, lendo, sem que o atravessar da rua, as pessoas e o próprio caminhar desviem seus olhares das páginas tão ávidas para serem ouvidas. Eu nunca fiz isso. Nunca até hoje. E isso porque agora eu encontrei um livro que, de fato, me fez querer estar com ele desde a minha casa até o trabalho. E quando digo isso não falo sobre estar sentada no metrô com um livro aberto, porque isso eu sempre gostei de fazer com o jornal diário. Aqui eu me refiro ao andar pela cidade, colocando uma perna em frente a outra, desviando de pessoas, de carros e semáforos com um livro aberto nas mãos.
Caio Fernando Abreu é um jornalista que era desconhecido por mim até mês passado. Esta semana, no entanto, ele me arrancou sorrisos e identificações tão fortes que me deixam assim: apta a movimentar-me apenas com ele, nos braços, cheio de crônicas e palavras que a cada lida me fazem pensar – puxa, a sensação é exatamente essa!

Abaixo, segue um dos trechos do autor no livro Pequenas Epifanias. Quem já morou em São Paulo ou passou um dia que seja aqui na cidade, sabe do que ele está falando:

“Nunca na minha vida casei, mas – imagino – minha relação com São Paulo é igual a um casamento. Atualmente, em crise. Como conheço bem esse laço, sei que apesar das porradas e desacatos, das queixas e frustações, ainda não será desta vez que resultará em separação definitiva. No máximo, posso dormir no sofá ou num hotel no fim de semana, mas acabo voltando. Na segunda-feira, volto brava e masoquistamente, como se volta sempre para um caso de amor desesperado e desesperançado, cheio de fantasias de que amanhã ou depois, quem sabe, possa ter conserto. Este, amargamente, não sei se terá. Por que está demais, querida Sampa. E sempre penso que pode ser este agosto, mês especialmente dado a essas feiúras, sempre penso que pode ser o tempo, tão instável ultimamente, sempre penso que pode ser qualquer coisa de fora, alheia à alma da cidade – para que seja mais fácil perdoar, esquecer, deixar pra lá. Não sei se é. As calçadas e as ruas estão esburacadas demais, o céu anda sujo demais, o trânsito engarrafado demais, os táxis tão hostis a pobres pedestres como eu…Cada vez é mais difícil se mexer pelas ruas da cidade – e mais penoso, mais atordoante e feio.”

*a bonita foto é do rafael fagundes.

para não esquecer

“A aspiração à plenitude e à realização interior se encontra no espírito de todo ser humano.  Se temos dificuldade para nomeá-la , é porque ela assume as formas mais extraordinariamente diversas. Sabemos bem que não podemos viver permanentemente nesse estado de realização e de plenitude do ser, que se trata mais de um horizonte do que de um território; sem ele, todavia, a vida não tem o mesmo valor.”

Tzvetan Todorov - A Beleza Salvará o Mundo 

*essa foto linda é da Lucy Fracchetta.

uma vida inteira em retratos


Isso aqui me emocionou profundamente.

Um canadense chamado Jeff Harris decidiu fotografar sua vida desde 1999, todos os meses de cada ano até dezembro de 2011. Até aí, não é algo tão novo se não fossem as mudanças que aconteceram em sua trajetória desde então. Ele registra tudo: desde os amores, pizzas e mergulhos até sua luta contra o câncer e as decorrentes cirurgias.

O vídeo é emocionante. Se você entende inglês ou não, isso não importa. Há fotos muito simples e outras surpreendentes. Assista até o final pois, principalmente aí, é que o coração aperta.

Seria interessante se todos nós fizéssemos algo parecido. Quanta coisa já não aconteceu com a gente?

Todas as fotos, aqui. 

sobre vida e morte

Betty Milan entrevistada pela revista LOLA deste mês:

Como lidar com a consciência da morte?
Essa consciência é muito importante. Digo em um de meus romances, O Clarão, que a morte é uma estrela, porque ela impede que a gente perca tempo. Apesar de sabermos, dificilmente aceitamos a morte – negamos e, ao fazer isso, nos desgastamos inultilmente, fazemos coisas que não faríamos se lembrássemos do limite do tempo. A morte é o único grande limite que nós temos.

são paulo, eu te amo.


esta fase da minha vida chama-se: são paulo.
e eu escolhi colocar aí em cima a música whiter shade of pale porque tem uma introdução que eu adoro, que é romântica, piegas e tudo mais que a gente gosta de ouvir. e porque ela faz parte do filme contos de nova york que eu assisti há duas semanas, antes de voltar – após as férias de fim de ano – aqui para a capital. de certa forma, ficou em mim.
é amor mesmo, não tem jeito.

e como é possível amar um lugar tão cinzento e cheio de gente, de carros e prédios? eu não consigo mais me imaginar sem isso aqui. é grave, doutor? às vezes me acho chata por achar chato quem diz que é chato morar aqui.
hoje à tarde andando pelas ruas, atravessei a avenida correndo. e nem era preciso – o sinal estava verde para mim – mas esta cidade é tão bonita do jeito dela que eu quis correr só para ver como era atravessar olhando os carros parados, que estavam em movimento apenas para mim. e o fim do dia ainda tem céu iluminado com luzes de automóveis recém acesas. eu gosto. se voltasse no tempo, teria me mudado exatamente para cá. é paixão das brabas.

se você também se apega como eu, vá viver um pouco do amor que a cidade está, de forma encantadora, oferecendo este mês. vou dar algumas dicas.
primeiro, siga até ao cinema reserva cultural e assista medianeiras – amor na era virtual.


Depois vá até ao teatro folha e veja a peça de teatro eu te amo.

por fim, quando já estiver apaixonado, compre na livraria cultura o dvd hanami- cerejeiras em flor.  você vai chorar bastante, mas ele fará bem a sua alma.


são paulo te oferece amor. e esta é a melhor fase para se apaixonar por ela.

um pouco de natal, sim senhor.

Um dos trabalhos que mais me deixaram satisfeita neste ano, foi a realização de uma série de vídeos sobre Natal, disponíveis neste link aqui. Os vídeos falam sobre decoração mas não apenas isso – eles trazem histórias, memórias e aquele monte de sensação que a gente só sente nesta época quando as luzes dos postes se apagam e entram os piscas, os encontros em família, os presentes entregues com tanto carinho e a alegria de encontrar quem a gente gosta. Durante as gravações, registrei alguma imagens de detalhes e doçuras que trazem refresco e uma satisfação de comemorar isso tudo com ainda mais vontade. O mais bacana disso tudo, foi conhecer pessoas (desde o padeiro que fez os maravilhosos panenotes e roscas até as profissionais que compartilharam suas ideias e emoção para uma festa inesquecível) que viraram fontes, amigos e referências de belos trabalhos. Abaixo, uma pequena mostra de muita coisa que tem por lá. É só se deixar levar.






estou emocionada.

Uma amiga querida, Manuela, disse-me esses dias que eu e o Gabriel somos muito corajosos em abrir a casa e o coração para contarmos uma história. esta foi a definição mais bonita que deram ao apê.ritivos, nosso novo projeto.

estou tão emocionada. feliz. Mais de 800 pessoas compartilharam o link do primeiro episódio no facebook e outras tantas mandaram palavras de beleza, conforto e emoção.

obrigada. estamos no comecinho e receber tantos abraços como esses é o mais reconfortante retorno que poderíamos esperar. me sinto cheia de amor com os pitacos, sugestões e com a forma como cada um experimenta o programa e tem vontade de estar ali com a gente.

vocês estão e estarão em todos.

obrigada ao Flávio Rocha e ao Rogério Assis pelas imagens tão lindas. obrigada ao Roman Lindemann por fazer mágica ao ajudar na conversão dos arquivos de vídeo. obrigada a Letícia Pires que, como ninguém, captou a sensibilidade do projeto e criou a arte para o logo e descrição. obrigada a vocês amigos que todos os dias tem repassado o apê.ritivos para os familiares, amigos e tantos outros que replicam a nossa vontade de juntar saudade, conversa, receitas e um apartamento.

estou (profundamente) emocionada. obrigada.

as canções


Eduardo Coutinho, muito obrigada.

Eu tenho algumas músicas minhas, feitas por outros cantores, mas que são minhas, apenas minhas. E eu me lembro, respiro, me faço saudosista. Eu posso cantá-las agora, inteiras, e me vou para lá. Para aqueles tantos lugares que me trouxeram dia, noite e tudo o quê você já sabe. o quê todo mundo sabe – onde as canções conseguem nos levar.

Coutinho, obrigada.
Um filme que se chama “as canções” e não traz nenhuma trilha sonora, apenas as vozes, os gaguejos e as histórias de pessoas que choram, amam e apenas amam. como uma música sempre deve ser. de amor. e repetidamente dele.

Obrigada.
essa miudez de cada personagem ao cantarolar e explicar o por que de tanta lembrança em melodias que existem por aí me deixa extasiada. eu gosto tanto disso, como a gente ainda não percebeu que o simples é o que mais coisas pode nos oferecer.

eu vou cantar também. quero dizer. elas me falam tanto, a todo momento. esse desafino dos cantores da vida, uma sinceridade cheia de beleza.
me sinto mais forte. mais frágil. uma canção.

* No vídeo o trailer de “As Canções”, de Eduardo Coutinho, exibido na Mostra Internacional de Cinema. Histórias de amor marcadas por letra, música e detalhes.

apê.ritivos


eu moro em são paulo há sete anos.
o gabriel saiu de pirassununga há quatro.

há poucos meses a gente resolveu se juntar para contar uma história. o nosso capricho é dividir receitas, vivências, ansiedades, energias e saudades que reunimos depois de tanto tempo longe da família e de nossas cidades do interior.

é com muita alegria que divido com vocês o começo desse novo projeto. em breve, vocês vão conhecer o apê.ritivos, gravado no meu apartamento em são paulo.

por ora, dêem uma espiada aqui na nossa comunidade do facebook. curtam, aproveitem e sejam bem-vindos.

antes da segunda-feira.

“Uma criança segura uma sombrinha sobre uma jarra transparente, talvez seja limonada. Um velho afugenta moscas de uns bolinhos dourados. O que me intriga é o clima de domingo. Por que a luz do sol tem outra intensidade? Será a ausência do movimento, de barulhos? Essa atmosfera existe no mundo inteiro por onde andei. Sabemos que é domingo ao colocarmos o pé na rua. No entanto, depois das duas da tarde, começa a longa jornada de angústica. Tudo se torna opressivo, estranho”.

Eu nunca li uma descrição tão verídica sobre o domingo como essa. O trecho é do mais novo livro de Ignácio de Loyola Brandão: Acordei em Woodstock.

A fantástica chuva de pétalas

Eu já falara em um post anterior sobre a viagem que fiz para Holambra na festa das flores, que acontece 1 vez por ano lá. Hoje venho trazer o vídeo que finalizei ainda agorinha. Emoções, pulos e gritaria na ocasião – que faz chover milhares de pétalas sobre o público. Quem conseguir pegar uma delas antes que caia no chão, tem todos os seus sonhos realizados.

mundo grande.

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

* Essa beleza é do Carlos Drummond de Andrade, e foi tirada do blog do Antonio Prata.  A foto, que eu gostei muito, é daqui. 

manual para a vida

“Quando se identifica o estado mental como o fator primordial para alcançar a felicidade, naturalmente não se está negando que nossas necessidades físicas fundamentais da alimentação, vestuário e moradia não sejam satisfeitas. Entretanto, uma vez atendidas essas necessidades básicas, a mensagem é clara: não precisamos de mais dinheiro, não precisamos de mais sucesso ou fama, não precisamos de corpo perfeito, nem mesmo do parceiro perfeito – agora mesmo, neste momento exato, dispomos da mente, que é todo equipamento básico de que precisamos para alcançar a plena felicidade.”

* Essa é do livro A Arte Da Felicidade - um daqueles de cabeceira que sempre nos fazem lembrar de coisas que a gente teima em esquecer. O ensinamento foi dado pelo Dalai Lama a um psiquiatra, que visitava a Índia. 

a festa das flores

Dei um pulo em Holambra no último fim de semana na famosa Expoflora, que acontece todos os anos na cidade. Tenho boas lembranças dessa festa, ia muito para lá no meu começo de São Paulo – e é sempre um feliz um encontro de pessoas, flores, danças e comidas holandesas. Algumas coisas só são possíveis de se ver por lá, como a orquídea azul e a chuva de pétalas – quando milhares e milhares de pétalas caem do céu sobre o público e prometem realizar os desejos, se você pegar um punhado delas antes de caírem ao chão. Uma beleza.

Tem mais fotos aqui.

sorriso.

Comecei a ler o tão famoso livro do Valter Hugo Mãe e sinto-me feliz por estar com tamanha beleza em mãos. A escrita corrida do autor torna a leitura difícil, mas suas descrições são de uma veracidade assustadora. Eu gosto muito disso:

Fiquei sentado com o doutor bernardo, posto diante de mim como um anjinho lavado acenando-me com nuvens de algodão-doce e pássaros a espanar o vento. e eu sorri. senti-me um idiota por dentro, mas sorri. era da cultura, o estupor da cultura que nos mascara cada gesto.

*A máquina de fazer espanhóis - Valter Hugo Mãe.
Um imenso obrigada a Lucy Fracchetta por sugerir-me a leitura da obra – quantas vezes nos colocamos a sorrir quando a real vontade é ignorar por completo o tal gesto e mostrar a sincera insatisfação.

o quê era e não é mais.

Faça uma lista de grandes amigos,
Quem você mais via há dez anos atrás.
Quantos você ainda vê todo dia?
Quantos você já não encontra mais?

Faça uma lista dos sonhos que tinha,
Quantos você desistiu de sonhar?
Quantos amores jurados pra sempre,
Quantos você conseguiu preservar?

Onde você ainda se reconhece?
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava…
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava,
Hoje são bobos ninguém quer saber?

Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?

Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?

(A Lista, sábia música de Oswaldo Montenegro)
Essa doçura de foto é daqui.

o que eu aprendi com melancolia.

Melancolia me deixou mal, muito mal. Eu nem lembro qual foi o último filme que me trouxe uma sensação tão ruim quanto essa. Saí do cinema sem vontade de jantar, com o estômago embrulhado e me arrependendo da decisão tê-lo assistido em um domingo à noite – que se fez perturbado na volta para casa.

No dias seguintes ele não saiu da minha cabeça, ainda penso muito nele e quero entender o por quê. Melancolia é triste. E não triste de chorar, triste de raiva, de impotência. O mundo vai acabar é o que diz o enredo e mesmo que a história seja ficção é fato que ele vai acabar para cada um de nós qualquer dia desses – e nada do que fizermos de surpreendente ou de ruim vai importar. Então qual é?

O fim do filme é tão frustrante porque é o previsível que não queremos ver. E talvez nem precisamos mesmo vê-lo. A morte é demasiadamente amarga que já nos basta encontrá-la apenas uma vez – no dia que isso acontecer com a vida de cada um de nós. O fim de tudo é de tamanha melancolia que nem vale a pena antecipá-lo na ficção, para que soframos antes e duramente sem que nada ainda tenha acontecido.

Isto me deixa ludibriada: esse fim de fé e de vontade de acreditar em desejos que no final das contas serão cinzas. E esse caso – de eu não me entusiasmar com o filme – não se encaixa naqueles em que tampamos os olhos para não vermos a verdade. Eu sei qual é a realidade e você também. Melancolia está certo, é um filme que não conta mentiras. Tudo o que está ali, por mais maluco que pareça, faz sentido. Mas sua desesperança é dispensável em um mundo tão cheio de gente, de lugares e de experiências para acontecer.

Hoje de manhã, pensando melhor, percebi que gostei de alguns momentos do longa. Da primeira parte principalmente, do sorriso da protagonista pelo seu noivo que – mesmo ao se alternar com caídas de profunda infelicidade – ainda se mostrava apaixonada por ele. Ou quando, na beira do fim mundo entre o medo e a solidão, o que restava era apenas a família – e quem quer que seja que você considere parte de sua família – eles sempre serão responsáveis por te deixarem em pé.

Melancolia é uma crua realidade daquilo que é duro de entender. Eu não sei ao certo se aprendi coisas, talvez eu venha reaprendendo com o tempo e esse filme foi mais um encaixe nesse conjunto de peças confusas que, de vez em quando, nos levamos a pensar e repensar.

Uma amiga definiu Melancolia como “uma dor de cabeça bem vinda”. Eu o defino como uma desagradável previsão do futuro que talvez…seja importante existir para levarmos tudo isso aqui com menos peso e mais alegria – mesmo que não hajam razões para isso, saltitando em nossa frente. Se há pessoas queridas que você sorri só de pensar no momento em que irá abracá-las, isso basta. Sermos mais felizes sem exigirmos tanto do mundo e de nós, isso também é suficiente. No meu mundo, pelo menos.

* Um agradecimento especial a Clarisse Braga, que me acompanhou em um ataque de riso durante um intervalo do longa – o que nos fez tomadas por menos melancolia e mais felicidade.

entre cidades.

O senhor acha que alguém pode se apropriar de São Paulo, ela não escapa sempre, com seu gigantismo?

Giles Lapouge: Mesmo sem falar na violência, que agravou o caso do Rio, sempre preferi São Paulo, porque é uma cidade de grande imaginação, de trabalho, de paixões fortes, enquanto o Rio para mim é uma cidade unicamente de sensualidade, de prazeres, de preguiça, de boas tiradas. Eles são engraçados… Tenho a impressão de que o Rio é uma cidade que dorme e adormece as pessoas. Eu me sinto adormecer quando estou no Rio. Evidentemente, há Copacabana, as moças, tudo isso é interessante, mas aquelas moças não me interessam…

* Giles Lapouge é jornalista e escritor, tem 85 anos.
A entrevista com ele foi publicada na revista Carta Capital da última semana e chegou até mim por meio do amigo Moacyr Castro. Obrigada.