você e eu.


Sabe o que eu estava imaginando hoje, no meio do trabalho? Não sei bem se é permitido fazer isso em hora útil, mas eu comecei a pensar na gente e foi difícil parar.

Você estava com a sua mão apoiada na minha enquanto dançávamos sorrindo, o tempo todo. E não era uma música qualquer, era Etta James – porque só eu e você sabemos que quando ela canta, os prazos não mais importam, nem as exigências que colocamos em nós mesmos todos os dias.

Em cima de nós havia aquelas luzinhas, sabe? Que são penduradas de fora a fora por cordões que balançam com o vento e competem com as estrelas – só para verem quem é que brilha mais. E continuamos dançando. Você de camiseta branca e calça jeans e eu, ah, pouco importa a minha roupa agora – nós só queremos dançar.

Ao nosso redor há pessoas igualmente serenas sob a umidade noturna. Tranquilas, aproveitando a Etta no meio daquele salão ao ar livre – grande, perfeito para o nosso espaço. Há algumas mesas de madeira, servindo champagne, vinho, água e o que mais a gente quiser. E ninguém nos olha – elas só querem aproveitar a noite e nos desejarem o melhor, sempre. O mesmo que queremos a todas elas.

Você me olha e eu me viro – aquela voltinha que de vez em quando aparece em uma dança de dois passos para lá e para cá. Não precisamos mais do que isso já que estamos bem abraçados e felizes, puxa, felizes. Há tanto tempo a gente se procura, não é mesmo? Por que não aproveitar a sensação de estar exatamente no lugar desejado com quem se quer? Há tanto tempo eu não sentia isso – essa vontade de não estar com mais ninguém. Apenas com você.

Você esqueceu os relógios, eu estou sem os brincos. O seu sorriso é tão bonito e eu espero que você goste do meu cabelo assim, solto. Me parece que sim. Vamos ficar por aqui mais um pouco, eu continuo com a mão no seu pescoço enquanto olho para o palco de frente para os seus ombros. Etta, não pare por favor.

Beijo seu rosto, beija meus lábios. De vez em quando você diz algumas coisas perto do meu ouvido que são sempre para intensificar essa minha comoção e alegria de, no meio de trabalho – com tanta coisa acontecendo – eu estar dançando com você.

Você.
Que eu nem conheci ainda.
Ou será que já?

apê.ritivos – episódio 4


Qual é a sensação de se fazer algo com um amor incondicional? Que te faz pensar: ” é  isso! sinceramente é isso”. Isso é o que o apê.ritivos faz comigo – é essa sensação, uma história com comidinhas, conversas e música que se transforma em uma poesia visual que nos faz querer vivenciar isso o dia todo.

É uma paz de saber que pessoas estão sendo tocadas, sensibilizadas e que isso será eterno, ficará para sempre como um projeto de dois amigos que começaram isso tudo com a intenção de serem felizes e de fazerem com que outras pessoas sentissem o mesmo.

Sério! Puxa!
Obrigada a vocês que compartilharam esse episódio com os amigos e que não só fizerem isso como deixaram mensagens no facebook, twitter e email dizendo que se sentiram entusiasmados e fazendo parte da nossa história. Obrigada a vocês que mostraram aos seus familiares, namorados, primos, para a pessoa da cadeira ao lado. Que assistiram juntos com os colegas do trabalho no mesmo computador. O apê não teria graça se não fosse o que vocês proporcionam a cada episódio divulgado.

A gente faz daqui, vocês potencializam daí.
É tudo muito emocionante e sou grata por isso, obrigada.

Era o que me faltava

Faz uns dois meses que ir na academia deixou de ser uma atividade prazerosa para se tornar uma obrigação exaustiva. Honestamente, sou adepta à vida saudável, pratico exercícios desde criança e doce é o que menos tem aqui em casa. Mas de coração? Ir na academia ultimamente tem sido um porre – cansei daquele ambiente fechado cheio de gente, abarrotado de fones de ouvido e de mundos que não se misturam. Talvez o horário, 7 da manhã, não ajude. Essa é a hora em que a todos estão ali de passagem, levantando pesos enquanto pensam em todo o restante do dia que está por vir como se aquele momento já não fizesse parte dele.  Para mim, levantar cedo todos os dias para ir até lá é uma batalha – não vejo mais graça, perdi.

E foi então que nesse último sábado aconteceu algo muito surpreendente. Acordei com um sol meio nublado que invadia as frestas da janela e ali, profundamente, tive uma vontade sincera de ir correr no parque. Já não estava tão cedo e nem tão tarde, me troquei e peguei o ônibus que passa aqui na av. paulista e segue direto pra lá. O fato é que eu nunca tinha feito isso antes – não sozinha, não assim com tanta vontade. Mas naquele momento a única coisa com franqueza que eu gostaria de fazer era ir até lá.

E segui. No ônibus, um casal de gringos se enrolava para entender o mecanismo da catraca. Como é difícil se locomover em um país que a gente não conhece. Como estava sendo difícil para eles entrar num transporte público desconhecido e ainda pedir gentilmente à cobradora, que não fala inglês, para avisarem-nos quando qual é o ponto mais próximo Ibirapuera. Fiquei fitando-os de longe, minha vontade era falar com eles, conversar, trazer um pouco de conforto em um situação embaraçosa que a gente também vive quando está lá fora.

Desci no mesmo local que eles e assim que se aproximaram de mim para pedir uma informação, me senti bem. Eles tinham em torno de 50 anos. Ela chamava-se Ma Teresa e ele Enrique. E assim, mesmo meio perdidos, estavam felizes da vida. Fizemos amizade, conversamos sobre o seu país, a Espanha, e sobre a cidade em que eles viviam, perto de Barcelona. Eles me seguiram até o parque e contaram sobre sua filha que estava passando uma temporada aqui na cidade, motivo de suas vindas até à metrópole. Após poucos minutos, deixei-os à vontade para andarem, desejei boa sorte e saí correndo – literalmente nesse caso.

A sensação foi de algo que eu não sentia há muito tempo. Como é diferente correr fora de uma esteira coberta com ar condicionado. No caminho – árvores, cachorros, bicicletas e toda e qualquer expressão de vida e de sol que não são prováveis de se ver em uma sala de musculação.  Puxa, como foi gostoso. É como se universo me agradecesse por eu ter feito algo com tamanha verdade. Corri como há muito tempo não corria. Com um abalo emocional à tona. Vontade mesmo.

Após uns 50 min, trombei novamente com o casal de espanhóis e o reencontro foi como de velhos amigos: oba, vocês aqui novamente! Ele com calça comprida, ela de saltinho baixo, nem se importaram com a falta de vestimenta apropriada, tinham percorrido o parque mesmo assim. Batemos mais um papo, trocamos cartões e seguimos as nossas vidas.

Parei uns metros à frente, tomei água de coco e sentei sem pressa enquanto observava um pai ensinar o seu filho a andar de bicicleta – um momento histórico. Ele caía e levantava, se emburrava, dizia que não ia conseguir. E o pai ali do lado, por vezes farto, por outras incentivador, seguia talvez sem se dando conta de quão eterno seria aquele momento na vida do menino. Os dois ali, com os altos e baixos, se entendiam.

No mesmo espaço passavam umas crianças com síndrome de down também andando em bicicletas, desta vez naquelas duplas, pela primeira vez. Elas riam alto, enchiam todo mundo de emoção. Alguns skatistas dividiam espaços uns com os outros e com o restante das pessoas caminhavam com o intuito apenas de se fazerem contentes por aquela manhã. Havia flores.

Terminei de tomar a água e parti para a minha casa. Desta vez, bastante esclarecida do que me faltava até então – aquele sentimento forte que só nos basta quando estiver em tudo aquilo que vamos fazer. Paixão. Era isso.

* foto linda daqui. 

Eu fiz 25 anos.

E saí na rua ouvindo Arnaldo Antunes.
O dia ensolarado trazia aquele vento paulistano gelado que passava pelo vestido e deixava o cabelo mais solto, assim como todo mundo na rua. E sempre que as coisas estão bonitas desse jeito eu me pergunto por quê será que estamos fazendo esse monte de coisa por aqui, neste mundo.

Comecei a andar com a lembrança da noite passada. Daquele monte de gente querida ao redor do bolo, dos abraços fortes que se repetiam com o passar das horas, das nossas mãos dadas, daquela dancinha curta que fizemos, do carinho e cuidado de tantos amigos que deixaram suas casas para irem lá – fazerem do meu aniversário mais cheio de amor.

Naquela manhã eu estava tão feliz que fiz o sinal da cruz ao sair de casa, assim, meio sem querer – passei os dedos pela testa, depois pelo peito seguindo pelos ombros esquerdo e direito. No final, dei um leve beijo no dedo indicador e disse “obrigada”.
Logo eu, que há tempos não fazia um sinal da cruz com sinceridade e que de uns anos pra cá tenho tido minha fé nas religiões tão abalada. Mas eu o fiz, livre. Para Deus, para alguém, para quem quer que seja ele, ou para mim mesma. Foi tão natural como sorrir ou me permitir a qualquer outra coisa.

Segui. Fui comer um lanche, tomar um suco, ler alguns guias de viagem. Escolhi os favoritos e ao passar no caixa, uma atendente muito querida disse que lia minhas crônicas e que gostava muito desse blog. E isso foi como um presente de aniversário. Ela comentou esses detalhes com tamanha alegria que posso dizer que falou por mim e por ela ao mesmo tempo. Fiquei muda, feliz e muda. Tão surpresa que não soube o que dizer. E o quê pode ser melhor para um escritor que ouvir que seus textos são histórias que saem por aí e criam enredos e emoção na vida de outras pessoas? É para machucar os corações, bicho. Isso deixou-me absolutamente sensibilizada. Como pode um mundo complexo nos cobrir de momentos tão surpreendentes como esse?

Felicidade é uma palavra tão grande, mas a vida é muito maior do que ela. Minha mãe sempre diz que devemos viver momentos felizes, sem nos preocuparmos com a busca da felicidade – como se esta fosse uma condição eterna que, ao alcançarmos, não nos escapará jamais. Não. A gente sabe que isso nunca vai acontecer. O que existe mesmo é isso –  uma festa em um bar, uma surpresa em uma livraria, um sol que ilumina até a noite chegar. É uma fé que aparece de repente e traz instantes absolutamente suficientes para nos fazer bem. São os 25 anos.

por que é tão bom fazer vídeos?

Em um texto você fica a imaginar quais são as sensações, os cheiros, o cabelo da personagem e se põe a pensar também como seria o rosto dela, as botas, a voz que por vezes gagueja. Como deve ser tudo isso misturado com a doçura de uma arquiteta que vive exatamente da maneira como quer? No vídeo abaixo, você nem precisa se esforçar para imaginar como seria tudo isso. Você só precisa assistir. O gostinho que vai ficar faltando é o de tomar um café com ela, bem ali no jardim.

o resgate de um guarda-chuva.

fui atrás de um livro do drummond esta tarde.
andei por toda a paulista olhando as pessoas, roupas e a cidade.
cheguei até a livraria, encontrei o que precisava mas esqueci lá dentro o guarda-chuva.

segui pela rua e quando me dei conta da perda, voltei para resgatá-lo.
e o dia estava bom. chuva é sempre bom quando estamos com guarda-chuva.
às vezes também faz bem quando estamos sem.

o fato é que na volta, tive a surpresa de encontrar um amigo querido da faculdade.
ele estava com seu pai vendo uma exposição de carros ali no conjunto nacional, um prédio cheio de cultura da cidade. e foi tão bom vê-lo ali naquele sábado chuvoso –  demos um forte abraço confortante, ele me contou do seu dia, eu falei sobre o meu aniversário que está chegando, ele comentou sobre a roda de violão que aconteceu na sua casa dias atrás e eu sobre a minha procura pelo livro.
após uns 10 minutos, nos despedimos e então fomos embora.

resgatei meu guarda-chuva e segui novamente para casa, contente de ter encontrado o amigo, que há algum tempo não via.
são paulo é grande mas muitas vezes se faz bairrista e transforma essa metrópole numa cidade do interior em que a cada esquina traz a possibilidade de encontrarmos conhecidos e pessoas que diariamente nos trazem saudade. ela é grande mas fornece uma ajudinha quando o assunto é reunir colegas queridos – já que são apenas eles que nos transmitem essa vontade de conversar sem pressa, desejando sempre o bem um para o outro.

porque são paulo é assim.
ela é muito boa, cheia de diversidade e possibilidades – mas sem amigos, não haveria a menor graça em morar aqui, por nenhum dia.

a nossa inocente distração

e eu estava assim bem cedo tentando acordar no meio da avenida paulista. coloquei os fones para ouvir chico cantar mais alto. o novo cd está uma beleza, preciso avisar o meu pai – pensei. a partir daí, viajei. e quando digo viajei, o negócio é longe mesmo. fui para lá, nem sei para onde, não me lembro, só o chico cantarolando e dizendo tantas coisas que levaram minha cabeça para outra rua, talvez para o trabalho, para a minha casa, araçatuba, ou nada disso. algum livro, o meu sono, os meus pés um atrás do outro que não mostravam mais ninguém e mais nada, apenas eu e os ouvidos borbulhando.

acho que por 7 minutos, desde a minha saída do apartamento até a metade do quarteirão da avenida principal fiquei fora. out. tão distante que se alguém gritasse o meu nome naquele momento eu iria precisar de algo mais forte para responder. saí de mim, distraída, não me pergunte como. um ipod e um monte de ideias na cabeça fazem isso com a gente.

o fato é que nos minutos posteriores, aconteceu uma batida de carro no quarteirão pelo qual eu acabara de passar. um estrondo forte que ainda me fez demorar a perceber o que estava acontecendo. as pessoas ao meu redor começaram a correr e a arregalarem os olhos para de, alguma forma, entenderem o que estava ocorrendo. olhei para trás, tirei os fones e vi os dois carros amassados e parados no meio de tudo. me lembrei do post do du lemos, no seu blog, sobre a pressa dessa cidade, que acabou causando a morte de uma ciclista na última semana.

os dois carros, provavelmente, estavam com pressa. um deles passou no sinal do vermelho e fez com que a pressa daquele dia fosse toda por água abaixo. os motoristas não foram trabalhar e provavelmente ficaram o dia todo fazendo boletim de ocorrência e correndo atrás de seguro e oficina. o que era tão importante de se fazer que eles não podiam perder? eles perderam de qualquer forma. nada era tão urgente que não pudesse esperar um sinal abrir.

e no meu mundo longe, fiquei a pensar como a rotina pode dar um basta de uma hora pra outra. eu não estava participando do que aconteceu com o trânsito naquele dia e nem estava com pressa. a culpa não foi minha. mas eu estava fora, alheada. não estava ali, no presente, prestando atenção. eu com meus fones, com o controle de tudo, pensava estar desbravando os quarteirões e o mundo da forma como eu quisesse. mas em dois minutos, dois carros se bateram para avisarem que essa serenidade é passageira. quando menos se espera, a música acaba e todos os planos feitos da saída de casa até a chegada ao trabalho podem mudar. o controle, nem sempre está em nossas mãos.

humildade e cautela – nos chamando a atenção, lembrando de que não somos os donos de nada disso aqui. o caminho, esse monte de planos e a nossa arrogância (inocente, eu sei) para julgar, cobrar, e achar que tudo podemos só porque trabalhamos, lutamos e buscamos os nossos sonhos é inútil. a natureza e a vida, não estão preocupadas com nada disso. em um minuto, a nossa rotina pode ser uma reviravolta.