sobre deus e nós

esperar por deus é como esperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho com a sua minissaia erótica tão desadequada à ingenuidade das crianças.
o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas. 

(valter hugo mãe – escritor que tem uma capacidade assustadoramente fantástica para descrever os conflitos desse nosso mundo)

e tem mais aqui e aqui. 

estão pintando a minha casa

e isso tem sido estranho.
estou, há três dias, vivendo no meu quarto com meu computador solitário e os meus pés presos em sapatos. a cozinha esta coberta de pó, a sala forrada de jornal e de uma lona preta que deixa o piso mais sujo e cansado.

tudo tem sido uma lembrança de como meus pais faziam quando éramos crianças – empilhávamos os sofás, televisão e cadeiras embaixo de um grande lençol. um cheirinho de tinta fresca ficava à mostra durante a noite e andar descalços pela casa era proibido até que os pintores recolhessem tudo e deixassem a casa em ordem.

naquela época, era gostoso e desafiador para mim e minhas irmãs – abandonarmos o quarto individual e nos juntarmos ao meu pai e mãe para dormirmos todos juntos em meio a móveis e ferramentas acumuladas que deviam esperar a tinta secar para voltarem ao seu devido lugar. emoção era sair fora da rotina.

desde então, nunca tinha estado sozinha em uma casa enquanto esta fosse pintada. não até hoje. a sensação é a de crescer de uma vez por todas. acho que quando pintam a casa da gente e você tem que cuidar de tudo sem a ajuda de ninguém é porque o caminho é sem volta, meu amigo: a gente realmente já cresceu.

e tem que cuidar de tudo para que a casa volte a funcionar. as paredes ficam brancas novamente, uma nova história deverá ser construída ali.

mas e o medo? de sujá-las e estragar tamanho esforço. está tudo limpo, liso, com aroma de novo. a sensação é a mesma de uma virada de ano, em que a ansiedade por preencher um espaço vazio pela frente se faz caprichosa, cheia de cuidado. é difícil pregar pregos em paredes recém-pintadas. acho que precisarei de ajuda.

estão pintando a minha casa e agora só me resta esperar. daqui a dois dias poderei voltar a mesa para a sala, ligar a tv na tomada e limpar a grossa camada de cinzas que se apoiou sobre meu telefone. começarei a reerguer as cadeiras e as cortinas deverão ser colocadas de maneira que não fiquem tortas e enrrugadas. a cozinha vai precisar de um pano úmido para voltar a respirar, e as plantas lá de fora, ficarão para sempre com resquícios de tinta branca. algumas coisas, não tem jeito mesmo.

eu vou voltar e me acostumar ao novo branco. com o tempo, colocarei quadros na parede e quem sabe até me arrisque a colar um adesivo – pequeno – no corredor de entrada. tudo deverá ser refeito, dia após dia, como um caminho que não vê graça enquanto não é preenchido de fotos, narrativas, marcas boas e ruins.

estão pintando a minha casa.
e essa não será a primeira vez.

o nosso casamento com são paulo

Às vezes, vejo pessoas andando do caminho do metrô para o trabalho com um livro na mão – lendo, lendo, sem que o atravessar da rua, as pessoas e o próprio caminhar desviem seus olhares das páginas tão ávidas para serem ouvidas. Eu nunca fiz isso. Nunca até hoje. E isso porque agora eu encontrei um livro que, de fato, me fez querer estar com ele desde a minha casa até o trabalho. E quando digo isso não falo sobre estar sentada no metrô com um livro aberto, porque isso eu sempre gostei de fazer com o jornal diário. Aqui eu me refiro ao andar pela cidade, colocando uma perna em frente a outra, desviando de pessoas, de carros e semáforos com um livro aberto nas mãos.
Caio Fernando Abreu é um jornalista que era desconhecido por mim até mês passado. Esta semana, no entanto, ele me arrancou sorrisos e identificações tão fortes que me deixam assim: apta a movimentar-me apenas com ele, nos braços, cheio de crônicas e palavras que a cada lida me fazem pensar – puxa, a sensação é exatamente essa!

Abaixo, segue um dos trechos do autor no livro Pequenas Epifanias. Quem já morou em São Paulo ou passou um dia que seja aqui na cidade, sabe do que ele está falando:

“Nunca na minha vida casei, mas – imagino – minha relação com São Paulo é igual a um casamento. Atualmente, em crise. Como conheço bem esse laço, sei que apesar das porradas e desacatos, das queixas e frustações, ainda não será desta vez que resultará em separação definitiva. No máximo, posso dormir no sofá ou num hotel no fim de semana, mas acabo voltando. Na segunda-feira, volto brava e masoquistamente, como se volta sempre para um caso de amor desesperado e desesperançado, cheio de fantasias de que amanhã ou depois, quem sabe, possa ter conserto. Este, amargamente, não sei se terá. Por que está demais, querida Sampa. E sempre penso que pode ser este agosto, mês especialmente dado a essas feiúras, sempre penso que pode ser o tempo, tão instável ultimamente, sempre penso que pode ser qualquer coisa de fora, alheia à alma da cidade – para que seja mais fácil perdoar, esquecer, deixar pra lá. Não sei se é. As calçadas e as ruas estão esburacadas demais, o céu anda sujo demais, o trânsito engarrafado demais, os táxis tão hostis a pobres pedestres como eu…Cada vez é mais difícil se mexer pelas ruas da cidade – e mais penoso, mais atordoante e feio.”

*a bonita foto é do rafael fagundes.

sobre o nosso tempo, que já é tarde.

falar sobre a vida não pode ser mais interessante do que vivê-la.
sabe quando pensamos que é cedo demais para falar? para expor esse tanto de emoção, de festa, dor e amor que fica aqui dentro? isso está errado. e não é cedo demais para eu comentar que está errado. porque é errado.

minha mãe me ligou hoje, agorinha.
para dizer – na verdade, para me lembrar – que tudo o que está acontecendo agora já é agora. não é cedo demais. nós não precisaremos esperar até mais tarde, até os 26, até a passagem da crise dos trinta. até a chegada da maturidade, da experiência e dos desejos realizados. minha mãe ligou para dizer que hoje não pode jamais ser o dia das insatisfações porque se ele o for, já terá passado.

esse sentimento de não expressarmos nossas vontades e intenções porque elas poderão ser feitas no futuro…..não façamos isso. os dias passam e nós já estamos vivendo. está tudo valendo. o esquecer do guarda-chuva, o almoço, o lanche da noite, o banho, esse período que passamos em frente ao computador. isso tudo não é uma preparação. o metrô que você usou para chegar ao trabalho hoje, era exatamente ele. o que você sentiu nesse momento também já estava fazendo parte da sua vida. da minha.

esse cuidado pelo precoce, pelo tomar os pés pelas mãos pode nos custar energia. façamos reais esse monte de sensações agora, mesmo que estejamos um tanto quando incertos, medrosos e por vezes, solitários.

pela felicidade e tristeza, vamos ser nós mesmos, por favor.
às vezes eu tenho a sensação de que criamos todos um personagem, quase um ator, que não chora, não teme, não tem saudades – apenas para sermos pessoas irresistívelmente interessantes e seguras. nós não somos nada disso. a vida nos quer sinceros, intuitivos, cheios de coragem para assumirmos que muitas vezes é isso que nos falta.

mais vontades pelo dia de hoje, por elogios sinceros, por relações humanas que ultrapassem a nossa falta de tempo, de fé e sono.
em um mundo em que todo mundo fala em amor, vamos colocá-lo na frente de tudo, logo de uma vez. e deixar de pensar que as coisas que desejamos acontecerão apenas lá na frente.

tudo já está acontecendo.
o que você quer e o que não, também.

este texto na tela, você aí do outro lado lendo. que tal? quais sensações te aparecem? o que você tem vontade de fazer agora?

o mais bacana disso – depois de ler isso tudo  - é ter bem fresco na memória que a sua próxima ação poderá, se você quiser, ser realizada com a maior paixão que você jamais imaginou que poderia sentir.

aproveite isso, antes que a gente se esqueça.

*esse trecho de livro acima do post, absolutamente verdadeiro, foi tirado deste tumblr.

para não esquecer

“A aspiração à plenitude e à realização interior se encontra no espírito de todo ser humano.  Se temos dificuldade para nomeá-la , é porque ela assume as formas mais extraordinariamente diversas. Sabemos bem que não podemos viver permanentemente nesse estado de realização e de plenitude do ser, que se trata mais de um horizonte do que de um território; sem ele, todavia, a vida não tem o mesmo valor.”

Tzvetan Todorov - A Beleza Salvará o Mundo 

*essa foto linda é da Lucy Fracchetta.

mesa de bar

E sentamos nós quatro naquela mesa. Depois de uns 40 minutos, chegou mais um, publicitário – um tanto satisfeito, um pouco cansado.

Pedimos cerveja, pastel e a boazinha – uma cachaça brasileira que levanta o humor, diminui a ansiedade e aumenta o volume das gargalhadas pelo galpão. Eu passei pra frente a boazinha, mas fiquei com a cerveja e o pastel.

E então começamos uma das coisas que eu mais gosto de fazer aqui nessa cidade – sentar na mesa de um bar e dividir um pouco da vida com quem não tem pressa. Não sou a maior degustadora de cerveja do mundo mas sinto apreço pela cumplicidade que ela proporciona – deixa todos menos posados, mais frágeis e sem a obrigação de dizerem que está sempre tudo bem.

é ali, quando estamos todos reunidos que descobrimos as nossas maiores fragilidades. as confissões são ditas como frases comuns, que saem entre os goles, os olhares cansados e as risadas, cada vez altas.
é ali que percebemos que quem tem um trabalho fixo quer ter mais tempo livre e quem está sem emprego procura uma atividade permanente. e que todos queremos mais viagens, mais amor, mais filmes como medianeiras. mais noites como essa. mais calma, também.

e trocamos assuntos, experiências e notícias de jornal. coisa de jornalista. falar do que já está devidamente falado e felicitar-se por perceber que todos ali sabem do que se trata. e por aí vai a noite, meu amigo. alguns acendem o cigarro, outros checam o e-mail pelo celular. sentados ou em pé, estamos todos ali juntos, compartilhando o que tem dado certo, errado e todo o resto que tem caminhado, sabe-se lá para onde.

ninguém quer ir embora, pede a saideira, a vida é curta, fica um pouco mais. temos nós, temos todo mundo, ninguém está sozinho. passa o visa, 30 reais me parece justo, o ponto de táxi é logo ali. e assim vamos todos, para casa que já está escura e se faz noite. sem copo, soltos, um pouco mais alegres, um pouco mais tristes.

sem ninguém ao redor, a mesa de bar fica lá no tempo e nós aqui sozinhos novamente. com as cortinas abertas. sempre à procura, estudando, lendo, crescendo, indo atrás. e no fundo, solitários, tentando criar coragem, paciência, cheios de redes sociais e separados por uma multidão que não se conhece e por vezes, não se interessa. esperando o dia em nos veremos novamente. nós, que com tantas indas e vindas, temos os mesmos sentimentos.

você – que está aí lendo este post – e eu.
iguais. como somos, em uma mesa de bar.