o instagram é maior do que nós

já que na origem dos encontros e dos vinhos não tirávamos tantas fotos para publicar. algumas raras para guardar.

mas hoje.
é lá que somos felizes. e onde não tomamos antidepressivos.
os corpos são bonitos. e as fotos são todas alaranjadas e azuis, com um sol sublime recriado para iludir.
é lá em que os casamentos tem mais fotos do que a duração da festa da vida real. instagram não é real. são coisas e comidas sempre alegres. poses de ioga em frente de monumentos turísticos. feeds coloridos e maravilhosos que fazem de todos os seguidores meros expectadores de beleza alheia. estamos passando o dedo na tela enquanto todos passam por nós.
e nos passam pra trás.
viajam pra europa em um suspiro. e nós suspirando daqui.
ficam grávidos. tem filhos rapidamente com fotos da amamentação perfeita.
mulheres maquiadas. decorações sublimes. cachoeiras que não são deste mundo.
como ser deste mundo? como ser um deles?

nós já somos. com menos ou mais intensidade, estamos lá.
felizes. apaixonados. cheios de trabalho. correndo. bebendo cervejas artesanais. nos iates. nas praias onde ninguém consegue chegar. só nós. e nossos filtros.

vivemos no instagram sem a nossa solidão, coitadinha. essa ainda vive entre uma publicação e outra tentando nos lembrar que tanto feed feliz pode nos deixar tristes.

você está querendo dizer que não somos felizes?

somos, ora!
já olhou hoje no instagram?

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nome, idade e porquê estão aqui.

primeiro dia da aula de desenho.
todos deveriam se apresentar, falar nome, idade, o porquê de procurarem o curso, o que faziam de suas próprias vidas.
eu, procurando um motivo para sair de casa às segundas e sextas, tinha me encontrado ali com lápis, régua e esquadro na minha frente.  estes também esperando que eu me apresentasse.
– vim porque gosto de escrever e acho que a escrita é uma forma de desenho.
nesse meio tempo gaguejei, esqueci de falar minha idade, falei pouco da produtora, não mencionei que não sei desenhar absolutamente coisa alguma, e quando percebi já não era mais a minha vez.
revirei na cabeça o tanto de coisa que poderia ter dito para que as pessoas me conhecessem nos minutos disponíveis a mim, mas fiquei com a sensação de que não tinha falado nada. continuava sendo uma completa desconhecida para outros tantos desconhecidos que resolveram se encontrar todas as segundas e sextas pelos próximos cinco meses daquele ano.

não sei se é permitido não falar bem em público aos 31 anos, após já se ter falado tantas vezes em outras bandas. mas, na boa, é importante se perdoar às vezes. ninguém está tão interessado na nossa vida quanto a gente pensa e nem pensando em nós nas horas vagas. me perdoei por ter tido sintomas de timidez. por me sentir insegura em um ambiente que até então não é meu.
e talvez seja hora mesmo. de desenhar outras coisas que não me são convencionais. de falar para pessoas que não estão no meu dia a dia. de ir livre e sem compromisso para um curso que não espera nada de mim, apenas que eu esteja lá, disposta a fazer algo que nunca fiz antes.

é que a gente tem essa mania de sair de casa com uma bagagem imensa nas costas, como se tivéssemos sempre que levar tudo o que fizemos até então para que os outros nos conheçam. como se fôssemos os reis da sabedoria em outras artes. e para que a gente mesmo se aprove para a nova atividade a ser desenvolvida.
talvez seja o caso de chegarmos apenas com o nosso nome, com a roupa do corpo e os lápis apontados.

amor web 2.0

enquanto você não encontra o certo, aproveite para curtir com os errados.

veja bem, amor errado.
não quero deixar o celular bloqueado na tela principal para que você não veja que eu te vi. eu acabei de tomar banho, de secar o meu cabelo, de preparar algo para comer e quero te escrever. qualquer coisa. estar disponível. mas estar disponível sozinho é muito errado.

whats’app. esse aplicativo tão rapidinho que deixou a gente tão devagar.

amor errado,
não ir ao cinema com você aos domingos à tarde é de uma falta tamanha. e você jamais aceitaria ir porque ainda não nos apegamos o suficiente. e porque você não entenderia que filmes aos finais de semana não significam casamento.

filmes. às vezes são apenas filmes com as companhias certas.

amor errado,
eu poderia te amar sem ter dois filhos com você, sem morarmos na mesma casa ou precisarmos fazer tudo em conjunto. você seria certo para mim assim. mas aí não seria você. porque você acredita que aproximação significa perder. e eu não tenho paciência para te convencer a ficar.

amor errado,
já pensei que você fosse o certo. mais de uma porção de vezes.
é que nos primeiros dias me deixei entreter porque gosto da sensação que isso causa.
é um livro novo, com páginas frescas, sem sublinhados. só você e eu.
descubro ainda cedo que você é errado. me frustro. me canso.

amor. não me peça mais para curtir o errado.
eu anseio pelo certo.

convém aproximar bocas conhecidas

e que memorizam o caminho de casa para nos acompanharem a pé.
que não deixarão jamais, nem por uma fatalidade, de enviar mensagens ao longo do dia.
– você está bem / está ouvindo minha saudade / está com fome / está por aí?

bocas que já sabem a história da nossa vida. que 2017 não foi tão bom. e que 2018 vai fazer mais sentido a partir de agora.
que gostam do quanto improvisamos no assunto que seja. china. tesouro direto. x-men.

as bocas novas impressionam. se envaidecem. são curiosas.
mas as conhecidas. ah, as conhecidas. são as que nos carregam no colo.
experimentam o vinho na nossa taça, conhecem nosso gosto de ficar por oras em livrarias e supermercados, escolhendo livros e produtos que por vezes não são comprados.

que já entendem que à noite o traje é moletom. dos mais gostosos e confortáveis.
que a especialidade é macarrão e ovo com gema mole.
e que o pão francês aos sábados e domingos vem com manteiga aviação.

bocas que já se viram não precisam esperar. porque eu não tenho mais paciência. desculpa.
desejo que todas as bocas novas venham carregadas com a trajetória das antigas.
com os beijos que não são à toa. que caminham para um cinema. para as rotinas preferidas. para os clichês.

convém amar, diria hilda hilst.
convém amar bocas conhecidas, diria eu.

notas

deitei a cabeça no travesseiro e resolvi ir até a quarta-série. me pareceu aconchegante.  | saí correndo com alguns amigos no corredor, inventei a próxima peça de teatro. não senti dores. escutei risadas muito altas. era comum gargalharmos naquela época. compramos dadinhos para comer no intervalo. refrigerante em sacos plásticos. puxamos a manga do moletom para que ele acobertasse as mãos. e trocamos de sonhos como quem troca de calçada.| peguei no sono.


dos momentos mais generosos que me ocorreram.
minha mãe vindo até meu quarto me perguntar como fazia para eu ser feliz de novo, já que ela se sentia responsável por ter me colocado nesse mundo. oras, como ela poderia ter inventado uma pessoa e agora deixá-la sem a felicidade desabando na cabeça.
foi um abraço. sim. alguém me dizer que eu não sou a única preocupada em me fazer feliz dia e noite. tem alguém comigo nesta.


me perguntaram qual é o meu diretor favorito, e eu não tenho.
como é que pode alguém que trabalha com vídeos não ter um diretor favorito.
não, não tenho.
tenho filmes, dos quais gosto mundo. dos quais poderíamos passar a noite falando. mas não me peça um único diretor porque é muito limitador crescermos com a premissa de que aos 30 temos tudo definido. a melhor viagem, a bebida preferida, a estação mais esperada, o lugar favorito. não tenho. porque muitas coisas já se passaram por aqui e eu não quero fechar esse ciclo.

como éramos fixos

– fixo chamando.
– fixo!

a única pessoa que ainda me liga no fixo. minha mãe.
pago a NET para ouvir seu “fixo” ali do outro lado e pagaria quantas vezes fosse preciso.
não cancele jamais a minha linha, senhor. tenho o fixo para ela, e somos felizes assim.

e lá começamos a falar sobre nada. sobre como acordamos, o que comemos e o que vamos assistir na tv até a hora de dormir. alguns planos ficam apenas no fixo, outros poucos a gente começa a dar andamento como um curso de pintura que quero fazer – sem nem nunca ter pintado algo em vida. espero que dê certo. torço para que eu não me arrependa. quero que as cores umidifiquem os dias esquisitos.

ontem fiquei vendo uma série de uns alunos do colegial que se encontram após sete anos de formados. me lembrei do meu colegial. de como todo mundo se amava. e tinha um brilho no olhar de conquistar, conquistar e conquistar. de conseguir os maiores sonhos. embora a gente não soubesse que quando os conquistamos é quando nos sentimos muito solitários também. porque somos adultos. e adultos não tem muito tempo. e nem a mesma saúde dos 15. (- que absurdo! meu pai diria sobre isso. você tem apenas 30 anos!)

não tínhamos Netflix em meados de 2003 e 2004. a gente se ligava no fixo. essa era a nossa distração. e então falávamos por horas na sala, ao lado do telefone, até alguém da cozinha gritar para desligar. éramos íntimos das pessoas. e digo isso sem querer romantizar a era pré-digital, mas apenas sentindo a falta de ser próxima. de termos uns aos outros de novo para conversar.
às vezes no sofá, embaixo das cobertas, com a melhor programação do mundo no controle remoto, ainda sinto. o vão. de não ter mais aquilo.

quem dera o celular nos fizesse conversar.

 

me sinto em um filme,

com o abajour e algumas luzinhas piscantes, que ganhei no natal,  iluminarem meu quarto 3×4 de pé direito baixo.
foto da viagem a ny em 2010 coladas na parede.
vontade de escrever. de cobrir meus pés gelados que acompanham de longe a garoa paulista de domingo.

também estou num filme porque tento manter a dieta como fazem as atrizes.
embora só pense em um queijo cortado em pedaços servido ao lado da minha cama. penso no porquê dos domingos nos lembrarem que não temos amigos suficientes. começo a repassar cada um dos amigos que fiz na adolescência, na faculdade, e a causa da vida adulta não trazer novos amigos.

provo um caqui doce gelado.
agradeço por ter vivido mais esse dia.
é gostoso sentir frio dentro de casa, ter um livro sempre a nossa espera como um pássaro disposto a cantar.
a solidão não é tão boa. mas faz parte do filme.
penso na minha mãe, lembro da minha avó. festejo em pensamento com meu futuro sobrinho.

tenho 10% de bateria no computador.
vou ali descansar.
ainda chove.
me sinto em um filme.