inventaram uma máquina

que você pode voltar no tempo.

e não dispensar o grande amor da sua vida. a sua fase invencível. ao seu melhor corte de cabelo. ao passado. que nos faz esquecer de qualquer coisa errada e só nos lembra do que foi bom. a suas corridas na avenida paulista. as duas garrafas de vinho bebidas indevidamente. a sua resistência ao que era ruim. ao auge da sua beleza.

a você mesmo.

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escrevi num postal

e quando a gente se ver, vou te entregar.

| que dia bonito fazia na praça da catedral de barcelona.
um sol alaranjado, sabe?
cheio de crianças brincando e de bolinhas de sabão que vinham não sei bem da onde.

havia também uns comerciantes em umas tendas improvisadas, vendendo objetos bem antigos e coisas diversas. em uma das tendas, encontrei postais velhos, amarelados, de muitos anos atrás, perfeitos. cheios de histórias no cheiro e nas dobradiças das laterais. até meio amassados. não poderiam ser melhores.
olhei este e na hora me lembrei de você. meu favorito.
pensei na gente ali conversando e bebendo e conversando.

é seu. desculpe a demora na entrega.
foram os dias. meus. seus. corridos.

um beijo, my best.

clara |

depois da quarta

veio cólica.

fui comprar um advil. e farmácia sempre tem aquelas tranqueirinhas que você não precisa de maneira alguma, mas leva.
esmalte azul.
foi o que eu levei desta vez.

é isso. às vezes a única coisa que você precisa é de um advil e um esmalte azul.um advil pra passar a dor e um esmalte azul pra entreter.
voltei pro escritório. fiquei ouvindo música dispersas e vídeos dispersos e no meio de tanta dispersão usei como desculpa o fato de estar exportando um projeto para divagar naquele cantor que eu gosto. e nas suas músicas. e nos seus vídeos.

deu preguiça de ir pra casa. hoje cairia bem aquela rede que eu queria colocar bem aqui no meio das câmeras e tripés. e ficar ali. conversando e dispersando com tudo o que é bom.

terça.

dia chato.

e quando o dia é chato, ligo para divagar com a minha mãe.
– vamos largar tudo e ir para itália | o que a gente pode vender lá, mel? | talvez morar numa fazenda, criar ovelhas.
–  podemos vender uvas. uva é uma boa.

e assim vamos, sem fim. projetando nossos desejos longe do pagamento de contas, do atender expectativas e do que a rotina espera.

– vamos viajar aqui nesse telefone. fazer as malas telepaticamente. tocar o ‘deixa estar que  daqui a pouco a gente volta’. ou acaba gostando de criar ovelhas e nem volta.

dia de chateações.
ótimo para pular direto para o vinho. para o banho. para o beijo.

dia de ir longe.
bem depois de terça.

cereja.

eu não posso comer uvas. daquela variedade niágara. roxinhas e pequenas.
também evito mangas. da variedade palmer. bem amarelas, cheirosas e de gosto marcante.

eu evito, mas como.
evito porque comê-las me traz uma saudade tão forte que às vezes não tô pronta para sentí-la.
mas ainda assim as como porque assim que mordê-las, minha avó aparecerá ali, na minha frente.

outro dia, só de sentir o cheiro da manga no mercado, já disse – oi, vó.
-e aí? como você tá?

e vou fazendo um diálogo imaginário na cabeça. tentando entender como podem frutas tão inocentes carregarem uma carga dramática tão cortante.

– foda, vó.
mais um natal que a gente se lembra como é mais triste a vida sem você.

e aí, na minha cabeça, eu abro um vinho e e vou me lamentando na frente dela. chorando. sendo totalmente frágil, dilacerada. e menor que aquelas frutas todas.

– me dá um abraço aqui, pelo amor de deus.
vamos esquecer que a vida morre e que o tempo corre desse jeito. eu preciso curar essa tristeza aqui, vó. soltar esse amor que eu tô prendendo a tanto tempo. e comprei uvas pra gente.

merda.
lembrança é um negócio que derruba. natal derruba.
panetone derruba. e tudo que constrói os natais na casa da minha vó me atropela de dor.
– a gente te ama. e seu amor dá mais saudade em dezembro.

sempre tinha manga na casa da minha vó.
meu vô trazia da chácara e a gente só parava de comer quando cansava.
nos natais, os cachos de uvas que ela comprava eram tão bonitos – colocados numa bandeja antiga que ela tinha – que a gente quase trocava o pernil para ficar provando uvas a noite toda.

hoje fui ao mercado.
tinham uvas e mangas.
levei cerejas.

cerejas sim. um punhado.
– porque hoje vó, já tô tão sensibilizada de saudade que a única coisa que eu vou conseguir comer são cerejas / mas olha, tem feira de rua na quinta. me espera, que logo a gente se vê de novo.

 

de volta ao bar.

sentei num bar em que íamos em 2003.
e o bar de 2003, quando você volta em 2015, te recebe tirando sarro da tua cara – “o que você tá fazendo aqui?”

a banda começou a tocar cpm22, detonautas, skank e todas aquelas músicas que a banda do colégio tocava, que o garoto que você gostava cantava, e que abraçaram toda a sua adolescência no interior. eram, na época, as melhores músicas. hoje, são portões que abrem os seus 16 anos te trazendo aquela sensação estranha de que o tempo leva os dias sem perguntar.
sentada, vi uma amiga do colégio com um namorado numa mesa distante. ela não me viu, eu não a vi. eu a vi, ela me viu. a gente não se cumprimentou. porque o tempo passa, e os cumprimentos passam também. eu não sei bem porquê.

– “quer mesmo ficar aqui?”

e o bar, me punindo por aquela visita tardia, embalou músicas e lembranças que a cada canção te cutuca dizendo que não há mais nada para você ali.
eu com quase 30. vi um garoto com quase 18. e ele parecia muito um dos meninos que machucava os nossos corações nos anos pré-vestibular. só que eu sabia cantar as músicas do bar. ele não.
cadê os novos rocks? as novas melodias?
não.
o bar só tocava o que eu conhecia.

foram 3 horas que me esqueci que estamos em 2015.
fiquei ali num sofrimento particular, vivendo os meus 15, pensando que há 12 anos a gente nem imaginava que crescer e trabalhar era deixar de falar com as pessoas e olhar para o computador.
a gente foi crescendo, mas não ter celular era tão mais interessante. eu conhecia as pessoas. elas me conheciam. a gente se encontrava e quando não se encontrava, falava por horas no telefone. eu era muito mais conectada sem iphone do que agora.
e lá vem o bar de novo me surrar com a percepção que a tecnologia só facilitou a busca de receitas no google.
o resto é solidão.

voltar ao bar da adolescência é levar uma porrada.
– “você envelheceu, não é?
só que a gente vai deixar tudo aqui, desse jeitinho, pra você se lembrar do que perdeu”.

sono

sonhei que sabia que estava sonhando.
e por saber que estava sonhando, pedi um cachorro.
e com o cachorro pedi uma estrada em linha reta com jardins.
e corremos por ela, eu, o cachorro e mais um monte de gente que ia aparecendo no caminho. e elas tocavam flautas, violinos, e jogavam basquete na quadra ao lado – que eu também pedi.

apontei pro céu e pedi algumas folhas caindo.
e comentei com um cara que sabia que estava sonhando. ele sorriu. eu o beijei.
e parti com meu cachorro. de braços abertos. correndo para os nossos sonhos, transformando tudo em movimento.

o celular tocou. acordei.
e me lembrei que sonhava.
e sabia que estava sonhando.