feliz de nós, ano-novo!

fim de ano.

conseguimos mais uma vez, só nisso que consigo pensar.
que honra poder ir à feira hoje, dia 13 de dezembro, almoçar tapioca e uma tâmara doce depois.
comprar chocotones para dar de presente.
entregar champagne para os melhores amigos.
tomar juntos os cafés que não tomamos nos últimos meses.
poder falar que foi corrido, que foi breve, que tanta coisa aconteceu que mal percebemos este ano passar.
sentir saudades da minha avó.
pensar se ano novo combina mais com blusa branca ou amarela.
fazer planos para daqui a pouco.

vencemos os dias ruins, aproveitamos os melhores, bebemos vinho, distribuímos abraços a conhecidos e desconhecidos, demos beijos demorados e bons.
festejamos, desde o carnaval.
sorrimos para os dias com sol.
choramos indignados. enxugamos as lágrimas. tocamos.
interagimos trocando mensagem pelo whats app. marcamos cervejas pelos bares perto de casa.
assistimos filmes no sofá. trabalhamos um bocado, conhecemos novas pessoas, novos clientes, dividimos dias breves e significativos.
estamos aqui, a poucos passos de finalizar mais um.
obrigada. pela oportunidade.
de registrar com meus olhos toda essa beleza, com tudo que vem junto, de mais um ano terminado.

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e então ela me disse que gostaria de ter a vida que tinha antes. 

quando não precisava sair para encontrar um possível amor de sua vida.
porque ela já o tinha. um canto seguro. alguém para mandar e receber whats app.
um toque. uma dança. tudo certinho, e desmoronou.

eu também queria a minha vida antes de 2017. o fatídico.
a minha coragem, meus pulos, meu ir e vir sem medo.
eu não sou a mesma. renasci de outra forma.
mas olha, eu continuo sendo alguém.

é que talvez o momento atual não seja o nosso melhor.
a gente não precisa existir como capa de revista em que o hoje é sempre a nossa fase mais brilhante.
muitas vezes não é. e também não sabemos se vai ser de novo.
talvez o nosso melhor tenha sido com 24 anos. com 50 ou 90. uma fase que a gente lembra com carinho. tem inveja de nós mesmos. revive o vigor na memória. a beleza que irradiava do rosto.

mas, veja.
sinta saudades. tenha apego. abrace aquele passado que te encheu de orgulho.
mas solte-o.
estamos vivos. e melhores ou piores, continuamos aqui.
com o privilégio de tentar. e viver.
o hoje pode não ser como aquele dias, mas ainda são dias.

hoje eu não tenho muito a dizer.

só que eu acho bonito essa gente que diz que não se arrepende de nada.
sabe daquelas que abrem a boca e a enchem de saliva e certeza repetindo: faria tudo exatamente igual.

eu me arrependo.
de minúsculas partes de vida e de maiúsculas.
a vida não tem rascunho. não dá pra fazer, voltar e fazer diferente.
o que tá feito se torna infinito. e não pode, por nossa vontade, mudar.

os dias são feitos de partículas de decisões inéditas e eternas.

milan kundera, do ‘a insustentável leveza do ser’ diz: “nunca se pode saber o que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-la nas vidas posteriores”.

e também diz: “uma vez não conta, uma vez é nunca. poder viver apenas uma vida é como não viver nunca”.

só continuo admirando quem tem essa certeza de que foi tudo do jeito que tinha que ser. e que não erramos nem um pouquinho.

as pizzas lá em casa são sempre extremistas.

por vezes regadas à gargalhadas. em que bebemos meia garrafa de vinho vibrando por cada um dos dias em que nos apaixonamos e nos deixamos viver sem o trágico peso do existir.

por vezes acompanhadas de lágrimas e desconsolo. em que também bebemos meia garrafa de vinho e nos lamentamos por cada um dos dias em que nos apaixonamos e não soubemos como agir com o trágico peso do existir.

são nos fins de noites que a gente percebe que toda essa preparação para viver um grande momento na verdade significa que já estamos vivendo um grande momento. e que toda essa espera para que as coisas aconteçam já significa que elas estão acontecendo.

e são nessas horas que desmontamos os personagens que somos para sermos apenas nós.
soltos de outros. de salas. de invenções.
pedimos pizza. abrimos vinho. e seguimos assim.

o instagram é maior do que nós

já que na origem dos encontros e dos vinhos não tirávamos tantas fotos para publicar. algumas raras para guardar.

mas hoje.
é lá que somos felizes. e onde não tomamos antidepressivos.
os corpos são bonitos. e as fotos são todas alaranjadas e azuis, com um sol sublime recriado para iludir.
é lá em que os casamentos tem mais fotos do que a duração da festa da vida real. instagram não é real. são coisas e comidas sempre alegres. poses de ioga em frente de monumentos turísticos. feeds coloridos e maravilhosos que fazem de todos os seguidores meros expectadores de beleza alheia. estamos passando o dedo na tela enquanto todos passam por nós.
e nos passam pra trás.
viajam pra europa em um suspiro. e nós suspirando daqui.
ficam grávidos. tem filhos rapidamente com fotos da amamentação perfeita.
mulheres maquiadas. decorações sublimes. cachoeiras que não são deste mundo.
como ser deste mundo? como ser um deles?

nós já somos. com menos ou mais intensidade, estamos lá.
felizes. apaixonados. cheios de trabalho. correndo. bebendo cervejas artesanais. nos iates. nas praias onde ninguém consegue chegar. só nós. e nossos filtros.

vivemos no instagram sem a nossa solidão, coitadinha. essa ainda vive entre uma publicação e outra tentando nos lembrar que tanto feed feliz pode nos deixar tristes.

você está querendo dizer que não somos felizes?

somos, ora!
já olhou hoje no instagram?

nome, idade e porquê estão aqui.

primeiro dia da aula de desenho.
todos deveriam se apresentar, falar nome, idade, o porquê de procurarem o curso, o que faziam de suas próprias vidas.
eu, procurando um motivo para sair de casa às segundas e sextas, tinha me encontrado ali com lápis, régua e esquadro na minha frente.  estes também esperando que eu me apresentasse.
– vim porque gosto de escrever e acho que a escrita é uma forma de desenho.
nesse meio tempo gaguejei, esqueci de falar minha idade, falei pouco da produtora, não mencionei que não sei desenhar absolutamente coisa alguma, e quando percebi já não era mais a minha vez.
revirei na cabeça o tanto de coisa que poderia ter dito para que as pessoas me conhecessem nos minutos disponíveis a mim, mas fiquei com a sensação de que não tinha falado nada. continuava sendo uma completa desconhecida para outros tantos desconhecidos que resolveram se encontrar todas as segundas e sextas pelos próximos cinco meses daquele ano.

não sei se é permitido não falar bem em público aos 31 anos, após já se ter falado tantas vezes em outras bandas. mas, na boa, é importante se perdoar às vezes. ninguém está tão interessado na nossa vida quanto a gente pensa e nem pensando em nós nas horas vagas. me perdoei por ter tido sintomas de timidez. por me sentir insegura em um ambiente que até então não é meu.
e talvez seja hora mesmo. de desenhar outras coisas que não me são convencionais. de falar para pessoas que não estão no meu dia a dia. de ir livre e sem compromisso para um curso que não espera nada de mim, apenas que eu esteja lá, disposta a fazer algo que nunca fiz antes.

é que a gente tem essa mania de sair de casa com uma bagagem imensa nas costas, como se tivéssemos sempre que levar tudo o que fizemos até então para que os outros nos conheçam. como se fôssemos os reis da sabedoria em outras artes. e para que a gente mesmo se aprove para a nova atividade a ser desenvolvida.
talvez seja o caso de chegarmos apenas com o nosso nome, com a roupa do corpo e os lápis apontados.

amor web 2.0

enquanto você não encontra o certo, aproveite para curtir com os errados.

veja bem, amor errado.
não quero deixar o celular bloqueado na tela principal para que você não veja que eu te vi. eu acabei de tomar banho, de secar o meu cabelo, de preparar algo para comer e quero te escrever. qualquer coisa. estar disponível. mas estar disponível sozinho é muito errado.

whats’app. esse aplicativo tão rapidinho que deixou a gente tão devagar.

amor errado,
não ir ao cinema com você aos domingos à tarde é de uma falta tamanha. e você jamais aceitaria ir porque ainda não nos apegamos o suficiente. e porque você não entenderia que filmes aos finais de semana não significam casamento.

filmes. às vezes são apenas filmes com as companhias certas.

amor errado,
eu poderia te amar sem ter dois filhos com você, sem morarmos na mesma casa ou precisarmos fazer tudo em conjunto. você seria certo para mim assim. mas aí não seria você. porque você acredita que aproximação significa perder. e eu não tenho paciência para te convencer a ficar.

amor errado,
já pensei que você fosse o certo. mais de uma porção de vezes.
é que nos primeiros dias me deixei entreter porque gosto da sensação que isso causa.
é um livro novo, com páginas frescas, sem sublinhados. só você e eu.
descubro ainda cedo que você é errado. me frustro. me canso.

amor. não me peça mais para curtir o errado.
eu anseio pelo certo.