A pauta de minha mãe

A melhor pauta que já recebi, nessa jornada de jornalismo, aconteceu bem antes da faculdade. Muito antes de eu saber o que é mesmo uma pauta ou um lead. Antes também de eu ficar sabendo que o jornalismo não é necessariamente imparcial e objetivo.
A melhor pauta, até hoje, foi sugerida pela minha mãe.
Colégio. 16 anos. Araçatuba.
Ritmo de vestibular, estava no escritório de casa com os livros sobre a mesa. Minha mãe chegou, alegre sempre, e disse muito sutilmente que tinha encontrado no mercado, uma antiga professora minha, lembro-me até hoje, a Dona Lurdes. Nota dez, essa tinha pulso firme, me deu aula na quinta série.
No encontro, minha mãe comentou que ela estava um tanto quanto abatida mas conformada, sua mãe tinha falecido de uma doença que os médicos não tinham ainda a cura: Alzheimer – ” a doença dos idosos”. Enquanto falava, minha mãe deixou sair um suspiro daqueles como quem diz ” puxa, como ainda não descobriram da onde vem uma doença dessas”. E depois disse a mim: “Clara, isso dá um assunto para uma boa matéria!”.
Na época, estava no jornal do interior de São Paulo, Folha da Região(www.folhadaregiao.com.br). Fazia parte do Conselho de Leitores, um grupo no veículo, em que os leitores davam opiniões sobre tudo. Bom, de quebra, o editor-chefe me deu a chance de fazer matérias para lá e que se ficassem boas, seriam publicadas. Sem remuneração.
Nesse dia da pauta, fiquei pensando sobre o assunto. Hesitei no primeiro momento e resolvi ligar para o chefe de pauta do jornal, que sempre incentivava :
– ” O que você acha de eu fazer uma reportagem sobre Alzheimer, posso?”.
E ele, nem pensou – ” Puxa, demorou! Manda a ver”.
E lá fui eu, não sabia quase nada da doença. E no inconsciente, fui usando os recursos jornalísticos. Marquei entrevista com uma moça que cuidava da filial da Abraz ( Assoc. brasileira de Alzheimer) de Araçatuba. Marquei com um geriatra. E nessa, você leitor, deve estar achando que foi fácil, rs. Eu estava morrendo de medo. Medo de não dar certo, de não publicarem. Era uma matéria que exigia pesquisa, não era “hard news” . E o jornal não publicava algo sobre o assunto há anos, talvez nunca tivesse publicado uma reportagem profunda no tema.
Como última fonte, liguei para a Dona Lurdes e ela, além do seu depoimento, me indicou uma visinha sua, a Dona Cleude.
E eu, fui a casa de dona Cleude. Era tudo simples. Sentei em uma cadeira ao seu lado, com uma caneta, um caderninho e um gravador (daqueles antigos). E ela foi me contando tudo sobre a sua mãe que também tinha falecido da doença. E seu depoimento foi tão triste, mas tão triste, que eu não sabia como agir na hora. Como é triste a vida da família que tem um paciênte com o Alzheimer e não pode fazer nada, e como são poucas as pessoas que sabem a realidade disso. Ao sair, já mais a vontade, ela me disse – ” Menina, escute bem, para cuidar de um paciente com Alzheimer, precisa-se de muito amor e paciência” – ” leve essa informação as pessoas, ninguém sabe como é até ter um parente portador em casa”.
Ao chegar, já na minha casa, depois daquele dia cheio de entrevistas e correria, encontrei a pessoa que começou isso tudo. Minha mãe. Nesse momento, ela perguntou: ” E então Clara, é isso mesmo que você quer fazer, filha? Jornalismo?”
Na hora, eu pensei no quanto fiquei tocada com essa reportagem, o quanto fiquei triste também com o depoimento das pessoas, do geriatra e então, não sabia se iria aguentar essa emoção toda durante a profissão que eu queria seguir. Mas percebi que era justamente esse sentimento forte, que fazeria valer a pena.
Voltei ao escritório de casa, e depois de duas semanas intensas de pesquisa e entrevista, sentei para escrever. E fiquei lá, durante uns dois dias mais ou menos, lendo, relendo e arrumando. Até que enviei para o chefe de pauta do jornal. Depois de uma manhã ansiosa de espera, ele me ligou. E disse que tinha caído uma lágrima de seus olhos, que a matéria era linda, ótima. Que seria publicada!
O alívio tomou conta, mas a espera persistiu. Passado um mês, a matéria ainda naum tinha saído. Naquele tempo, como eu disse, não sabia que o jornal tinha um espaço da publicidade para colocar a cada dia e por isso, minha matéria teria que aguardar. Foi mais de um mês entre telefonemas do jornal para arrumar algumas coisas, e a minha vontade de ver a matéria publicada.
Até que finalmente, em julho, depois de dois meses, meu pai, foi o primeiro a ver. Tinha uma chamada na capa, e dentro do jornal, uma página inteira, inteira do Alzheimer. Lá, tudo explicadinho, como fazer para identificar se seu avô tem a doença, como era importante o papel do cuidador, e da família no trato. Logo abaixo, escrito “Clara Vanali, estudante do Ensino Médio, especial para a Folha da Região”. =)
No mesmo dia, recebi telefonema da Cleude, da Dona Lurdes e de pessoas agradecendo a matéria. O Espaço de leitores do dia seguinte, era repleto de cartas, até de outros países que lêem o jornal, agradecendo pelo carinho com que o tema foi tratado. Puxa, grande a recompensa de ajudar as pessoas.
No dia em que foi publicada, tive reunião do Conselho de Leitores, o editor-chefe estava lá, e me disse com um abraço ” Fiquei orgulhoso de você Clara, parabéns”.
Depois desse dia, entendi o jornalismo.
Puxa! Há coisas na vida, inexplicáveis. Coisas que parecem pequenas, mas nos direcionam para o caminho certo, ou para aquele que a gente tem fé e acredita que é o certo.
Algo que fez diferença, para sempre, foi a pauta de minha mãe.
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7 comentários sobre “

  1. Clarinha!!!Que blog fanstático que texto fantástico!! Virei fã, vou colocar na minha lista de links. é uma pena que quem nasceu aqui em s.paulo nnao tem a mesma chance já que o jornal da cidade é o estadnao, porque a sua experiiencia de ter fieto toda a diferença! Adorei!!beijos

  2. Nossa, quase que eu choro, mew. Minha avó tem Alzheimer e fiquei pensando o quanto tem sido difícil pra nós, principalmente pro meu pai. E então pensei também no Jornalismo e em tudo o que podemos fazer. Aí relacionei com os seres humanos, porque afinal, jornalistas (podem não parecer em 100% das vezes) são seres humanos. E em como a gente tem tudo na mão e nem sempre concretiza.E aí pensei de novo na minha avó. E nos sonhos que ela teve…e que agora ela esqueceu.Os problemas ficaram realmente pequenos.Já era sua fã, Clarinha, agora sou fã também da sua mãe…e da D. Lurdes.Um beijo! ;*

  3. Legal é ler uma história bem escrita que já foi contada pela autora e encontrar cada vz mais detalhes!!!Ameiiii flor!Talvez seja isso que falte na minha vida: espirito jornalista desde cedo!!!Bjão!

  4. Clara, Chorei de novo! Chorei quando li sua reportagem e agora! Como já estava morando em sp nesta época nem sabia como tinha sido o processo para fazer e publicar esta reportagem. Acho que a principal diferença dos bons jornalistas, como vc, pois para mim vc já é uma jornalista, é a capacidade de emocionar, em um mundo onde não nos emocionamos ou nos chocamos com mais nada. Parabéns!

  5. Mais,O tema dessa reportagem resultou no primeiro artigo publicado pela Clarinha na pág. 3 do jornal “Correio Popular”, de Campinas. Como ela é muito humilde, seus amigos têm de lembrá-la. Em breve, novas peripécias da Clarinha pela mídia. Até apresentadora de televisão ela já foi e parou porque quis.

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