O homem dos retalhos

Quem mora em São Paulo, sabe que não dá vontade de pegar ônibus aos finais de semana. A carência que temos é de: ou caminhar para sentir a liberdade que não temos durante a semana, ou de ir, onde quer que seja, de carro mesmo, para assegurar- nos de conforto.

Às vezes, não dá pra ter nem um, nem outro. Vamos de ônibus mesmo.

Nesse último sábado, minha opção foi a última.

O lugar era um pouco longe, e me atrasaria se fosse à pé.

Ao entrar, o movimento no ônibus estava relativamente calmo. Poucas pessoas, muitos lugares vazios. Resolvi ficar em pé, frente à porta em que eu sairia dali uns dez minutos. Em um dos bancos, me despertou a atenção, um senhor, que ocupava dois lugares. Era um mendigo.

Sentado, ao lado da janela olhava a avenida paulista que seguia tranquila naquela manhã. Ao seu lado duas ou três sacolas enormes, cheias de retalhos. Quem olhasse de relance, não entenderia a cena. Era essencial fitar várias vezes, para não perder nenhum detalhe.

Suas calças traziam costuras a vista. Mas não de uma roupa malfeita ou mal acabada. Eram, na verdade, marcas que ele mesmo havia feito. Retalhos verdes e azuis, em formatos de quadrados, espalhados também na sua blusa. Era até engraçado. Seus cabelos eram malcuidados, e depois de um tempo observando, percebi que na sacola, haviam cobertores. Ele parecia sozinho, não parecia ter casa ou família. Estava lá quieto…o homem dos retalhos.

Depois de um tempo, acho que ele pensou que eu estava incomodada de vê-lo ocupar dois lugares. E então perguntou:

– “Que sentar moça? Tem lugares vazios ali”

E realmente, havia muitos.

– ” Não, obrigada. Já vou descer”.

– ” Ah tá! Boa sorte!”

Boa Sorte!?

Fiquei pensando para quê eu precisava de um ‘boa sorte’ naquela hora. Ele falou de uma forma tão espontânea que eu percebi.

Talvez, o que mais precisaria, não só naquele dia, ao descer do ônibus, mas durante a minha vida toda era de: sorte.
Muita sorte para enfrentar os futuros medos, alegrias, obstáculos, perigos, desafios, satisfações, inseguranças, saudades, tudo….

Quando as portas abriram, e eu já estava saindo, o homem dos retalhos terminou: “Porque o que importa mesmo é saúde né?! Só isso que importa!”

E então, eu desci, pensando nas poucas frases que ele disse.

Ele, cheio de retalhos…… estava lá, olhando pela janela. Todas às vezes que falava, sorria, como
se não precisasse de mais nada na vida….só saúde e uma boa sorte.

Às vezes, nós nem lembramos que temos saúde.

Só lembramos que precisamos de muitas coisas, até de sorte.
O homem do retalho, ao contrário, tinha saúde…mas, com certeza, precisava de um pouco mais de sorte.

Mesmo assim, ele a desejava para os outros.

É interessante pensar nisso: desejar o bem e a sorte para alguém que não seja necessariamente, e somente…nós mesmos.

Muita vezes, inclusive, não lembramos que já temos sorte….muita sorte.
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7 comentários sobre “

  1. É… fazer o bem não dói e melhora a vida da gente. Quantas vezes a gente não fica feliz apenas por ter recebido um “bom dia” sincero e descompromissado de um transeunte qualquer?Até dizer um “obrigado” ao motorista do ônibus melhora o clima… =DBeijão e parabéns pelo ótimo texto, Clarinha!

  2. Olha Clarona, minha flor, to com muito sono pra ler esse texto agora…mas só uma coisa…não dá vontade de pegar onibus nunca, muito menos de fim de semana!!!mas fazer o que né? A VIDA É DURA!!BEIJO FUDENCIA, FICA COM DEUS AI E APROVEITA ARA!!

  3. Pois é Clara, vivemos nesta cidade maluca onde as pessoas são tão próximas mas fazem questão de se manterem distantes!!VAMOS DAR OI PARA AS PESSOAS!VAMOS ABRAÇÁ-LASVAMOS BEIJÁ-LASparabéns pelo blog Clarinha…beijos

  4. “O exito em qualquer situação depende muito do modo como nos preparamos para cumprir nossas tarefas. A (boa) sorte vem a reboque”Bernardinho.

  5. Clarinha …achei o texto muito interessante, numa época em que nos preocupamos em só olharmos para dentro de nós mesmo … ás vezes buscamos algo que temos ao lado e não nos damos conta. Outras procuramos culpar as pessoas que nos rodam por algum erro nosso ao invés de tentar ver, corrigir e desfrutar da companhia da mesma.Você está de parabéns pelo blog … pode ter certeza que passarei muitas vezes ainda por aqui …Sucesso que vc merece…bjos do amigo e fãLOKAM

  6. Ai Clarinha, como sempre me emociono com seus textos né??Sabe o que eu pensei agora, numa coisa q você mesma me disse: “Ju, quando a gente tá cercada de pessoas boas, tudo parece dar certo!”E é isso q tenho carregado por essa minha vidinha simplória desde então… merecer a companhia de boas pessoas….Acho que já tenho muita sorte!!!Bjinhoooo

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