Por uma couve-flor à milanesa

É difícil, nos dias de hoje, dedicar um tempo para que os nossos desejos se realizem.
Queremos tudo para já.Imediatamente.
Kápuscinski, um brilhante jornalista polônes, que faleceu no início desse ano, tinha um dom incrível de escrever com detalhes cenas que passariam em branco por muitos de nós.
No seu livro ” Ébano”, em que ele escreve sobre o período em que foi correspondente na África, ele fala sobre a noção que os africanos tem do ‘tempo’ em comparação com outras partes do mundo. Ele conta, que para os habitantes de lá, o homem é que controla o tempo, e não ao contrário. Olhe a descrição, vista pelos africanos:
“O tempo surge em função das nossa atividades e desaparece quando renunciamos a ele, ou mesmo quando nem o requeremos. O tempo é inerte, passivo e, sobretudo, dependente do homem. É matéria que, dependendo de nossa vontade, não existe, se não lhe fornecemos energia”.
A nossa percepção de tempo é um “pouquinho” diferente. Nós vivemos e acreditamos que a todo momento somos controlados pelo tempo. Para os africanos, quem manda no relógio somos nós, somente nós.

Porém, hoje, a paciência é excassa e a ansiedade é farta.
Nessa semana santa, de volta a minha casa em Araça, revivi um dos momentos mais gostosos e exigentes de paciência na vida de um ser humano: fazer couve-flor à milanesa.
Não sei exatamente quando tudo começou. Mas um certo dia, quando eu era muito pequena, minha avó, lá na cidade de Catanduva, resolveu fazer essas “flores” no almoço, em uma temporada de férias que passamos por lá. A partir desse dia, virou o meu predileto.
Couve-flor, é um tipo de flor, que se se feita a milanesa, se torna um dos pratos mais saborosos que existem.
Dá trabalho. Muito trabalho. Eu admirava o capricho e a quatidade de tempo que minha avó dispensava ao fazê-las.
Separar cada cacho até que cada parte vire uma pequena árvore. Gema de ovo, pimenta e sal para mergulhar a couve. Torrar pão francês da semana, que duro, vira uma farinha bem fina, na batedeira. Óleo quente na panela. E depois disso, muito tempo livre.
Minha avó fazia nas ocasiões especiais, quando passávamos as férias por lá.
Esse semana, na minha volta para casa, minha mãe fez. Eu, ela, e minha irmã ficamos a manhã toda, ‘perdendo’ o tempo com a couve flor. Difícil pensar em perder tanto tempo com um cacho de flor. Mas o momento é mágico. É lembrar das boas saudades e se concentrar em algo que exige somente uma coisa, mas que é dificil encontrar: paciência.
Não se pode colocar todos os cachos de uma vez só na panela, é preciso colocar , no máximo, três. E mais difícil ainda é ficar sem provar enquanto se faz. Justamente, por exigir tamanha paciência, a satisfação de degustar o alimento pronto, é muito mais saborosa.
Kapuscinski dizia que o africano, ao entrar em um ônibus parado, não pergunta quando este vai partir, pois ele sabe, que quando este lotar, seguirá o seu trajeto.
Na vida, muitas vezes, queremos ver o produto final, sem passar pelas etapas. Sem esquentar o óleo ou separar os cachos, sem tirar todo o excesso de farinha e colocar guardanapos para secar.
Sem demora, nem desafios.
A espera – a tão paciente espera – entretanto, pode trazer um fruto muito mais satisfatório e prazeroso.
Que além de tudo …. virá no seu prato, à milanesa.
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3 comentários sobre “

  1. “A paciência é uma virtude”Também adoro couve-flor à milanesa, e assim como a sua mãe, a minha também faz uma muito boa viu Clarinha???Como tudo o que ela faz…. tudo fica bom de mais, e você sabe disso hein???? hahahahaBjinhooo

  2. Complementando a Ju: “A paciência é uma virtude que Deus nos deu de graça”. Pena que nem todos sabemos usá-la!Ah, couves-flores à milanesa! Inigualável prazer de ocasiões muitíssimo especiais. Fez-me lembrar da minha avó. Grande D. Amélia, essa sim era mulher de verdade!Que sua vida seja repleta de pratos à milanesa, Flarinha.Feliz Páscoa! Um beijo…*

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