Entre dois lados

Uma das melhores decisões que tomei na minha vida até hoje foi ter vindo para São Paulo. E algumas coisas de São Paulo só se aprende vivendo aqui.
Com as malas prontas, antes de viajar, lembro que liguei para uma grande amiga minha de Araçatuba para jogar conversa fora, e a mãe dela atendeu:
– Oi Clara! Fiquei sabendo que passou na facul, vai pra São Paulo! Parabéns!
– Obrigada tia! Agora vida nova né?!
– É verdade! E olha, São Paulo é muito bom! Mas vai se acostumando, eu morei lá durante muito tempo. E lá você se depara com a miséria e a riqueza ao mesmo tempo. Uma do lado da outra.
Na hora, não fez muito sentido para mim.
Mas não demorou muito até que eu me deparasse com isso por aqui.
Percebi também, que esses dois lados juntos tem muito a nos ensinar, todos os dias.
Essa semana, voltei em um ônibus um tanto quanto lotado para casa. Acho que os ônibus de Sampa, devido a quantidade de pessoas que entram e saem, tem muito a nos mostrar. Se for contar a quantidade de tempo que passamos dentro deles, nesse vai e vem, dá uma significativa parte do nosso dia.
Eu estava em pé do lado da porta. Um homem simples, de bermuda e chinelos entrou logo depois . Começou a falar dos seus problemas em voz alta. Sabe aquelas pessoas que pedem licença ao motorista para entrarem no ônibus para venderem coisas, como balas e chicletes? Que quando elas entram, o restante do ônibus fica com cara feia? Pois então…
Esse homem entrou, não para vende, mas para contar das suas dificuldades e pedir dinheiro. Confesso que na hora também fiquei de cara feia. A primeira coisa que nos vem a mente é porque o cara não vai trabalhar ao invés de pedir esmola.
Na verdade a história toda era muito triste. Ele estava desempregado e com problemas graves de saúde. Dava para perceber e a desilusão daquele homem, era fácil de se notar. Nesse momento algumas pesssoas tiraram moedinhas da carteira para ajudá-lo de alguma forma. Fiquei pensando no que as minhas moedas iriam ajudá-lo. E se o ônibus inteiro resolvesse dar moedas a ele, isso ajudaria em alguma coisa? Certamente não muito, quase nada. Qual seria a utilidade daquelas poucas moedas?
Depois que ele já tinha recolhido algumas, sentou-se em um dos bancos. Eu o cutuquei:
– Senhor, aqui estão.
E as minhas moedas escorregaram para suas mãos. E a sensação de impotência surgiu. Todos entregamos as moedas como se fossemos deixar nossas mentes tranquilas ao cumprir nossa função com a responsabilidade social. Na verdade….todos sabíamos que tínhamos ajudado com nada.
E as moedas foram dadas porque no fundo percebemos que aquele moço não tinha outras tantas alternativas. Ele, triste, provavelmente também não estava confortável na sua situação de pedir dinheiro, e no estado em que estava, não iria encontrar um emprego tão facilmente.
Ao sair do ônibus, lembrei do que a mãe da minha amiga me disse aquele dia. Faz dois anos que ela me disse isso, mas São Paulo vive me lembrando dessa conversa. E me lembrando que toda vez que vemos esses dois lados, o pobre e o rico juntos, temos muito do que nos alegrarmos.

Que ricos somos nós. Que temos de tudo. Oportunidade, chance e capacidade. Não é uma questão de ter dinheiro em abundância, mas uma situação de ter, claro, dinheiro também, mas principalmente, de ter possibilidades e uma sorte que muitas vezes não valorizamos.

São Paulo, muitas vezes, nos coloca em situações estranhas para nos recordarmos de como precisamos sorrir e agradecer mais.
Para nos lembrar de que provas, trabalhos, dúvidas, frustações amorosas e profissionais, não são problemas. Estão muito mas muito longe de serem problemas. Que na verdade, devemos rir com tudo e de tudo isso. São Paulo, talvez, mais do que qualquer outra cidade, nos lembra que temos que dizer mais “obrigada” pela vida.
Nos sentimos impotentes quando não podemos ajudar alguém que realmente precise, mas a maior atitude de impotência que podemos ter é a de reclamar dos nossos próprios problemas, quando na verdade eles são a solução.
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6 comentários sobre “

  1. Oi Clarinha, muito interessante q tenha tocado nesse assunto! realmente na cidade de São Paulo cada um vive em função de si próprio.Ninguém enxerga além do próprio nariz,sempre na correria, sempre reclamando de estresse e akilo outro! E deixamos de ver o qto a vida nos proporciona coisas boas. Há pessoas q como este senhor…apesar de estarem nessa situação são felizes do seu jeito, e agradecem a todo momento pela vida..e foi ótemo destacar isso..para podermos para e pensar no modo de vida q estamos levando neh!!Enton mais uma vez parabéns linda! adorei ..como sempre estava perfeita!! Bjuxx..

  2. Muitas coisas fazem a gente acordar pra vida! Semana passada eu tbm passei por isso mas de uma forma diferente. Eu andava meio tristinha, achando que as coisas não estavam dando certo pra mim….até que vi uma reportagem na tv da modelo Bia Furtado que teve 25% do seu corpo queimado no atentado a um ônibus no RJ em Dez do ano passado. Uma modelo linda e que agora tem o rosto queimado, os braços, as mãos…muito triste mesmo. Ela ainda tem que passar por diversas cirurgias, e não se sabe se recuperará a beleza que tinha anteriormente. Só pelo fato dela ter sobrevivido ao incidente ela acorda todos os dias e agradece a Deus!!! Estar viva é o motivo principal pra agradecer a Deus!!!Acordei pra isso…e parei de reclamar…Um bjo bem grande da Lari….

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