Para não esquecer

Eu vivo dizendo que o pessoal de São Paulo é cult.
Em araçatuba, interior paulista, você não encontra pessoas Cult. E se encontra, são poucos. Os cults são os que gostam de filmes, músicas, programas alternativos. Nada muito pop.
Quinta-feira.20h.

Nesse dia, uma amiga cult me chamou para conferir a pré-estréia de um filme no Espaço Unibanco, aqui na rua Augusta em Sampa.
Chegamos cedo, às seis da tarde e já havia uma fila considerável. O filme começaria às oito. Ao lado do cinema há um lugar que serve pizza em pedaço e assim, fizemos uma boquinha, revesando o lugar na fila com uns amigos.
O filme chama Batistmo de Sangue. Não sei se você, meu queridíssimo leitor, já ouviu falar. Mas se não, ouvirá falar muito dele ainda. É baseado no filme do Frei Betto. Esse frei, na época da ditadura no brasil, fez parte de um grupo de dominicanos que lutavam pela democracia no país.
Até então, nenhum assunto novo. Já estamos cansados de ver filmes que falam sobre a ditadura.
Pois bem, cinema lotado. Antes de começar, o próprio Frei Betto foi lá na frente e falou sobre o fundo de aplausos fortíssimos da galera:” Vocês não vão sair desse cinema da mesma forma que entraram”. Todos ficamos um pouco assustados. O que significaria essa frase mais tarde?
O filme começou com uma cena pesada do suicídio de Frei Tito, interpretado por Caio Blat, personagem principal da história. E a partir daí começamos a entender qual seria o motivo de Betto ter falado aquilo no início de sua fala.
Nunca no Brasil foi feito um filme de ditadura como esse. Nunca se mostrou com tamanha profundidade o período cruel que foram esses anos de ditadura no Brasil que durou de 1964 a 1985.
A sensibilidade com que o diretor mostra esse acontecimento pelo olhar de quem sofreu na pele as torturas de um regime ridículo e sem fundamento, é tocante. Quando o filme termina, dá para sentir o coração apertado da platéia.

Revolta. Essa é a sensação. O filme levanta questões que vão além da sala de cinema. Como isso pode ter acontecido?! Como o Brasil até hoje não permite que se abram todos os arquivos da ditadura?! Como as pessoas que sofreram tanto naquela época estão vivas e todo mundo já esqueceu desse período?

Esqueceram. As pessoas se esqueceram de algo que aconteceu há pouco tempo, sim, há pouquíssimo tempo.

O diretor do filme, Helvécio Ratton e o diretor de fotografia deram uma entrevista ao final. Eles, se envolveram tanto com a história, que não conseguiram cumprir mais dez cenas que haviam previsto. O diretor, até hoje, tem pesadelos. Caio Blat chorava no intervalos das cenas. E isso, justamente, porque tudo foi e ainda é muito triste. O filme mostra com clareza as cenas de tortura. Cheguei a fechar os olhos para não ver. E mesmo assim, Frei Betto declarou nesse mesmo dia que o diretor pegou leve, que no fundo, foi tudo muito, muito pior.
Triste mesmo é pensar que hoje ningúem comenta sobre o assunto para não se recordarem de como foi. É como se tivessem passado uma borracha em tudo.

Que democracia é essa afinal, que não libera logo esses arquivos?

Quem mais sofreu os efeitos da ditadura na época foram cidades como São Paulo, Rio e outras agregadas. Justamente por isso as cidades que não sofreram tanto, não tem essa cultura de discutir sobre o que foi a ditadura.Por isso que eu continuo achando: há coisas, que só São Paulo oferece.

Nunca tive tanta clareza sobre sobre ditadura depois de Batismo de Sangue. A partir de um convite, conheci, de fato, a história.Frei Betto acertou quando disse – ninguém saiu de lá naquele dia, da mesma forma que entrou.
Clara acha que todo mundo deveria dedicar um tempo, um bom tempo, ao que não é Pop.
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6 comentários sobre “

  1. quero muito ver esse filme..já li críticas que o dizem sensacionalista demais.. mas quero constatar com meus próprios olhos a versão cinematográfica do livro homônimo de Frei Betto.beijão CLARA!seu blog já está linkado!

  2. Fantástico! Nunca tinha lido um texto seu Clarinha, mas vc é foda hein?! Eu tenho esse livro do Frei Betto, tenho a edição de 82, que se não me engano foi a primeira, mas nunca li o livro, depois de ler seu texto até fiquei com vontade de lê-lo e ver o filme. Mas só uma correção, a ditadura começou em 64 e não em 74, deve ter sido erro de digitação né?Bons textos são estes que nos aguçam a vontade de provar do assunto de que ele se trata.Beijos Clarinha!

  3. Traser a tona fatos que hj nos envergonham e mancharam uma página da história do nosso Brasil, sem dúvida contribui para valorizarmos, cuidarmos e aprimorarmos a democracia que hj vivemos no nosso país.Taí tb uma missão importante a ser cumprida pelo bom jornalista…Parabéns!!!!!Um beijão…

  4. Tá precisando ir fuçar numas fichas do DEOPS comigo!!hehehehe convidadíssima se quiser… será uma ótima companhia!!! hahahahaBjinhooooooo

  5. clara, poxa… o filme… como você mesma disse: “punk”. escrevi sobre isso lá no meu blog hoje também… certos filmes são muito mais do que histórias…

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