A história de um sebo

-“O que vocês estão procurando?”
– “Um sebo”.
-“Tem um logo ali ó, naquela portinha”.
-“Obrigada.”

Rua Vila Nova, cruzamento com a Maria Antônia. Uma simples portinha com tantas histórias para contar. Uma senhora, sentada, fazendo contas em uma mesa de madeira, semblante que se dividia entre o triste e o preocupado, óculos de aros finos, e a sua volta: livros, livros e livros.

Marta Cristina de Araújo tem 49 anos, dos quais 12 são dedicados ao trabalho com os sebos. Carioca, formou-se em pedagogia, e deixou as aulas para se entregar ao que mais gosta de fazer na vida: vender livros. Na sala em que trabalha, há cerca de 10 mil exemplares. Entre modelos antigos e raridades, os preços variam de R$5,00 até R$5mil. Marta é o tipo de mãe que educou os dois filhos a receberem mesada de acordo com o número de livros que lessem. Para ela, trabalhar com sebo é uma paixão e que “se você não lê, a própria vida te reprova”.

Entretanto, o ar desamparado que trazia em seu rosto, tinha um motivo: a queda de 70% nas vendas de livros. Desde setembro do ano passado, o movimento da sua loja caiu muito. Conhecida por “Martinha”, a pedagoga não sabe ao certo os motivos da falta de movimento. Do lado da mesa, a placa da fachada encostada do lado de uma prateleira indicava uma das possíveis causas. Depois que a Lei Cidade Limpa entrou em vigor, ela foi tirada da frente do local e prejudicou a visibilidade da sua loja, que passa quase que imperceptível por quem anda lá perto.

Nos arredores do sebo de Marta, encontram-se grandes livrarias como a Nobel e a Saraiva. Mesmo assim, ela não acredita que elas provoquem grande queda das suas vendas, já que seus livros são mais difíceis de serem encontrados. Sua loja vende por semana cerca de 1500 livros com preço até 60% mais baratos e a sua especialidade são livros de religião, seguidos por filosofia e antropologia.
Desconto na compra? Ela dá 20% “se pagar à vista”. E ainda assim, não aumenta o número de vendas. Para ela, o interesse por ler diminuiu bastante, e em contrapartida cresceu a influência da internet, que conquistou os jovens. Apesar de a vendedora ter clientes fixos por todo o Brasil, grande parte da sua clientela são os alunos das faculdades e colégios nas redondezas. Assim, no período de férias, as vendas caem significativamente.

Marta, embora já entre em contato com seus clientes por e-mail, quer montar um site para aumentar a propaganda do seu comércio. Do lado do seu comércio, vê-se a movimentação de um novo sebo que será aberto em breve, ao lado do seu. Questionada sobre a influência deste no seu negócio ela responde: “pode ser que atrapalhe bastante, mas por outro lado, os livros não encontrados por lá, eles descobrem aqui”.

No final da entrevista, Marta deixou claro o seu sentimento para com aqueles livros. Para ela, a melhor coisa que existe é receber alunos, intelectuais e pessoas interessadas que passam a tarde inteira em seu sebo trocando idéias e pesquisando sobre livros.

Porém, ela também se deu um prazo. Aguardará uma melhora nas vendas somente até o próximo mês de Julho. Se nada mudar, terá que abandonar o maior prazer da sua vida.

– “Vale a pena ter um sebo hoje em dia Marta?”

– “Às vezes, vale enfrentar coisas pelo incrível prazer de fazê-las. Ainda acho que vale muito a pena trabalhar com sebos, e com certeza não é pelo dinheiro”.

Clara acredita que trabalhar com coisas antigas não significa parar no tempo, e sim contextualizá-las no presente. A tecnologia, mesmo com os prós e contrás, veio para ficar. Justamente por isso, quem não a utiliza fica para trás. Hoje, a internet é um pólo de publicidade. Já há diversos sites que vendem livros novos e usados por um preço mais em conta. Uma saída para os sebos.

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4 comentários sobre “

  1. Gostei mto da nossa conversa d hje…me deu uma saudade, e uma vontade d ter conversas gostosas como akela sempre…com vc e as meninas, seja no Nordeste ou em algum lugar da América do Sul…pq nosso jornalismo Internacional pode ate c tornar Interestadual…mas os papos continuarão sempre d outro mundo, o nosso mundo!Bjos Clarinha!

  2. Adorei a Dona Marta!!!!! É isso aí, a gente tem que fazer o que a gente gosta mesmo né Clarinha????….Bjinho e bom feriado (ai que saudade já!!! hehehe…)

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