Um novo caminho
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Terça-feira à noite tocou o telefone. Uma amiga tinha conseguido marcar uma entrevista para uma reportagem que estamos fazendo sobre reciclagem, em Santo André. Entre tantas ONGs que visitaremos, uma delas fica em Santo André.
Essa seria a minha semana mais corrida do ano de 2007.
De segunda até sexta, tudo devidamente programado. Justamente por isso eu tinha a opção de não ir. De deixar para a próxima. De ir em todas as outras instituições de São Paulo mesmo.
Santo André.
Desde quando mudei para Sampa, há quase 2 anos e meio, nunca tinha andado de trem. Assim como nunca andei de avião.
No dia do telefonema fiquei de ver se iria.
Mas o sono me deu a resposta de alguma forma. No dia seguinte, ao acordar, tive a certeza de que a semana merecia algo a mais. Por mais que ficasse tudo mais corrido, valeria a pena.
Ao sair de casa, avisei a minha irmã. Ela teve expressão de interrogação. Disse que era longe, pediu para eu ter cuidado e para qualquer coisa ligar.
Na faculdade, encontrei minha amiga:
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-Você vai?
-Vou sim. Sabe como iremos?
– A gente descobre.
Pedi para que ela me aguardasse às 13h no terceiro andar do prédio para almoçarmos e irmos. Como, é que eu não sabia. Dei uma rápida passada no estágio e perguntei para uma moça que trabalha lá:
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-Como eu faço para ir a Santo André?
– Puxa, é longe viu. Não sei.
Perguntei a mais três pessoas e a única informação era que a cidade estava longe.
Câmera, gravador, caneta e papel. Um destino. Faltava o caminho.
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Após o almoço uma outra amiga nos acompanhou até o metrô.
A partir dai o nosso mapa seria as indicações que ficam coladas em cima da porta de cada vagão.
Depois das baldiações, fomos em direção a estação de trem. O engraçado, é que tanto eu como ela, naquele dia, confiamo em uma informação de cada vez. Um passo completado, pensávamos no próximo.
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Quase chegando a estação lembrei de uma coisa que a minha irmã me disse uma vez:
-Em São Paulo, quando você se sentir insegura, faça cara de brava.
Sempre achei engraçado isso: cara de brava. Certamente inspira confiança e não deixa ninguém se aproximar.
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O trem chegou. Entramos rapidamente, não havia mais lugares para sentar.
Minha amiga alertou para segurar a bolsa mais juntinha ao braço. Tirei os três anéis e também guardei.
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E assim, o caminho começou a surgir…..
Eu sempre achei que o trem corresse, levantasse a poeira e não deixasse tempo nem para saudade.
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A verdade é que o trem caminha pelo balanço. Os vagões se movem de um lado para o outro. Em nossa frente, havia um mãe com um bebê dormindo calmamente. O trem é como o movimento de um berço: quando você acha que vai parar, ele segue o movimento novamente.
Dá para ficar olhando pela janelinha. E durante toda a viagem, as pessoas no trem se calam e a música se faz pelos barulho calmo e constante dos trilhos.
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Em 40 minutos, chegamos.

Santo André. O estrangeiro diria “Santander”.
E ainda faltava estrada para completarmos o caminho.
A procura da rua João Ribeiro, pedimos informação. O guardinha da estação nos ofereceu um café:

– “Olha meninas, dá para ir a pé. Logo ali, cinco quadras”.

E partimos. O interessante foi que a parte em que caminhamos na cidade era muito semelhante ao interior. Ruas estreitas, casas com portões baixinhos, muitas árvores e pouco movimento de carros.
E caminhando, a tranquilidade se aproximava. Com os cadernos nas mãos, dávamos risadas e conversávamos sobre possíveis perguntas para a nossa pauta.
Ainda assim, pedimos informações a mais umas quatro pessoas, só para ter certeza.

E lá estava, a Ong de reciclagem. Uma casa verde, pequenina. Tocamos o interfone e a visita começou. Aceitamos um copo d´água e tomamos o fôlego. Após duas horas, nos despedimos e voltamos a rua.

Dessa vez, entretanto, não havia caminho a traçar. Estávamos em casa.
A memória havia gravado tudo, e dava chance para aproveitarmos ainda mais aquele novo espaço, sua paisagem com todos os detalhes.
Já na estação, encontramos novamente o guardinha do café:

-“Deu certo filhas?”
– “Deu sim Sr.”
– “Sr? Estou com cara de velho,rs?”
– “Não sr. É por respeito mesmo.”
– “Ah bom! então boa viagem”.
– “Obrigada, até a próxima”.

E a porta do vagão fechou-se.

A sensação era de missão cumprida.
A situação era de como se em um belo dia, tivéssemos resolvido dar um passeio por lá.

Uma semana que incorporou mais vida.

Nada se compara ao prazer de uma nova conquista.
A reportagem foi muito boa. Melhor ainda….o caminho de Santo André.

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8 comentários sobre “

  1. Santo André…conheço muito bem essa cidade.. meu pai é engenheiro da prefeitura.. meu dentista.. e alguns médicos foram lá… mas faz um tempo q eu não vou pra lá.a única vez q fui de trem foi pra comprar ingressos do show do Linkin Park, em 2004.

  2. Puts, eu trabalho em Santo André! Vou pra lá um dia sim e um dia não(trabalho em dias intercalados). Mas eu pego o trem só a até duas estações antes da que vocês foram. Eu vou até a estação Prefeito Saladino, que também é bem longe. Compensa bem mais ir de trem da facul até lá. Uma vez fui de carro e demorei mais de uma hora, indo de trem demora uns 30 minutos.Essa linha balança mesmo Clarinha, mas pega o trem da marginal, é uma delícia, vai suave e vc nem ouve o barulho dos trilhos.Beijos Clarinha, até mais!

  3. Aiai Clarinha…. um passeiozinho e uma lição de vida!!!Como sempre, mto bom!!!!!!E dessa vez demorei pra comentar hein???? hehehehe (mas não falho!!!)Bjinho

  4. Clara! adorei! hahahaha… ano passado peguei o trem pela primeira vez, fui conhecer osasco, dar um oi pra sa… a hora que eu peguei o trem tava vaziiiio… eu parecia uma crianca, toda aquela novidade e o ritmo, de interior, de osasco… o calcadao cheio de barraquinhas… o shopping pequenino… bah, mudar a rotina eh o melhor descanso que se pode ter vivendo no caos… beijao!!!

  5. “O trem é como o movimento de um berço: quando você acha que vai parar, ele segue o movimento novamente.” acho q é por isso q eu durmo qnd volto do mack…nem vou comentar o resto, pq não andou de trem antes pq não quis… :(

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