……………………….As boas mentiras do Jornalismo

Todo mundo que faz jornalismo, vive se perguntando por quê faz jornalismo.
Av. Paulista, Quarta-feira, 17:30h.
O trânsito à toda, a cidade agitada. Nossa pauta era “jornais de bairro”.

Marquei a entrevista para às cinco.
Eu e minha amiga Lu estudamos o mapa para chegar até lá. Rua Major Diogo, logo após à rua 23 de Maio.

A distância foi bem maior do que imaginávamos, e por isso depois muito andar, estávamos meia hora atrasada. Liguei para o Haroldo, nosso contato, e avisei que estávamos no trânsito.

Foi a nossa primeira mentira do dia. Estávamos a pé.
Aqui em Sampa, o motivo de todo atraso é congestionamento, lentidão de carros….
E é desculpa também até quando isso não acontece…esse foi o nosso caso.

Ao chegar, estávamos em frente a uma pequena casinha marrom.
Casa de vó, cheiro de comida.

Uma moça nos atendeu e pediu para que esperássemos na “redação” do jornal.
A redação era na verdade, um pequeno escritório. Um computador com internet banda larga, um telefone, e muitos jornais empilhados.

Ainda o cheiro de comida.
O editor chegou. Como eu já disse, ele se chama Haroldo.

E como ele mesmo disse, tem cara de Zé. Sentamos e começamos o bate-papo.

E nessas horas nos lembramos por quê fazemos jornalismo.

Haroldo tem postura firme, é capaz de botar pra correr qualquer prefeito e presidente. Não tem medo de falar – se acha que tirar os outdoors da rua é ruim, ele fala mesmo. Se acredita que eventos, como foi a Virada Cultura para a metrópole, não deram oportunidades para quem deveria, ele não perde tempo – publica na primeira página.

Seu jornal cobre oito bairros. E faz a “senhora” cobertura.
Não fala de Brasília, de apagão aéreo ou de operação Navalha. O jornal, fala de carros roubados abandonados nas ruas, de lixo, de miséria e desigualdade. Haroldo dispensa publicidade do governo, no seu jornal, se tiver que se privar das críticas.

Simples e forte ao mesmo tempo. Sotaque do interior. Ele foi major do exercíto e confessa – já deu carteirada muitas vezes para conseguir entrar em coberturas jornalísticas.

No meio da conversa, ele diz:

– Vocês estão em frente da maior boca de fumo de São Paulo!
– …

Nessa hora, fizemos cara de paisagem.
O medo surgiu, e com ele a emoção de estar, em plena quarta-feira em um dos lugares mais perigosos da cidade.

E depois, completou:

– Aqui, sai tiroteio semana sim, semana também.
– …

É.
Nessa hora pensamos que ele devia ser louco. Ou que nós éramos as loucas.
Sua “redação” ficava de frente para a rua. Dava para ver tudo de lá, os carros, as pessoas, a boca de fumo.

Sorte nossa – nesse dia não teve tiroteio.

Já eram 20h. e Haroldo gostou da entrevista. Falava com gosto de cada aventura, desgosto e perigo que passou durante a profissão.
Já quase no fim, ele disse:

-Depois de tudo isso que eu falei vocês ainda querem ser jornalistas?

Um estudante de jornalismo ouve isso umas 300 vezes no mínino até o fim da faculdade. Mas quem entra nessa, não desiste tão cedo.

Haroldo é um deles. E por isso, essa foi sua mentira.
Falou como se ser jornalista não fosse tão bom, mas ele não conseguiu disfarçar.
Era um economista de formação, jornalista de coração.

Na volta, arriscamos um ônibus. Chegamos na av. paulista e decidimos terminar o trajeto andando. E mesmo depois daquele dia corrido, não dava para esconder a satisfação de ter feito a entrevista mais arriscada, até agora.

Em frente a Gazeta, paramos para comprar pipoca. Um moço arrumado, quis fazer amizade.
Cumprimentamos e ele, querendo mais que uma prosa, nos convidou para um cinema:

-Vamos ver um filme?
– O que é isso moço, estamos trabalhando.
-O que vocês fazem?
-Somos jornalistas.

Segunda mentira.

– Ahhh, vocês trabalham aqui na Gazeta?
-Simm, trabalhamos.

Essa foi a nossa terceira mentira.
Improvisamos bem, até que ele disse:

-Minha prima trabalha aí.
-Ah é? Legal, qual é o nome dela?

Arriscamos.

-Não vou falar, porque senão vocês vão dizer que um louco as chamou para irem no cine.
-Então tá.

Aproveitamos e fomos. Dali 5 segundos, o moço gritou:

-Rosini! Rosini! O nome dela é Rosini!
-Ahh claro, a Rosini! Gente boa!

Quarta.
E saímos de fininho. Muito bem por sinal.
A prima do alegre moço vai quebrar a cabeça para tentar lembrar das duas mocinhas da pipoca, que apesar de trabalharem com ela, nunca as viu na vida.

Fazer jornalismo….


Levaremos para sempre dia em que fizemos a reportagem mais curiosa, estivemos na maior boca de fumo de São Paulo e em uma rua de tiroteios.

Ficará marcado o dia em que estivemos em um congestionamente andando a pé, fomos jornalistas formadas no terceiro ano de faculdade e trabalhamos na gazeta, com a Rosini.

……………
Clara teve uma semana corrida, mas ela promete não deixar os leitores tanto tempo sem histórias. Ela está muito feliz com os conhecidos e os desconhecidos, que visitam seu blog diariamente. Fazer jornalismo é poder contar com todos eles, muito obrigada!
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3 comentários sobre “

  1. Vou contar um segredinho… eu fui a essa boca de fumo aí tbm… e nem sabia que era!!! Fui na “sede” do jornal dos bairros.. na Rua Major Diogo, que é uma continuação da Rua Major Quedinho, num é isso??? Ah, ainda bem q eu num sabia dessa história…. fui a pé e sozinha!!!!!Aquele centro é lindo…. pena q ngm dá valor a isso, coisa que me entristece mto aqui na capitarrrrr!Na próxima empreitada, me chama!! Adoro aventuras do tipo, ir até Campo Limpo numa ONG, não saber o caminho e ainda depender de informação de um cobrador q mal sabia oq estava fazendo ali, naquele banquinho que divide as duas partes do ônibus…Se virar em São Paulo é um dos grandes prazeres q a gnt tem qdo vem morar aqui… e é melhor ainda qdo temos boa companhia!!!!Brigada Clarinha!!! Bjinhoo

  2. GENIAL…jornalismo literário total…pq jornalismo???“Um estudante de jornalismo ouve isso umas 300 vezes no mínino até o fim da faculdade”Mto bom…e só tenho q acrescentar a minha modéstia opinião em uma frase (pra variar)…“não escolhemos jornalismo…é ele q nos escolhe”

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