Um Tobias em minha vida

Pelo terceiro dia, a manhã continuava nublada.

Na larga calçada que protegia toda a praia do Guarujá, caminhávamos eu e minha irmã mais velha. E entre casais e famílias passeava uma mulher com seu cachorro no colo como se fosse uma criança. E não era só ela. Poodle, beagle, maltês….diversos cães acompanhavam seus donos que se divertiam com a simples companhia do animal de estimação.
Após poucos segundos olhando, minha irmã disse:
– Hoje, eu entendo essas pessoas.

Meu pai precisava de um cachorro para ficar no sítio em Araçatuba. Um cachorro esperto, de grande porte, que não fosse bravo, mas que fingisse ser. Durante várias semanas, ele circulou anúncios de jornais que falavam sobre venda de cachorros.

Há anos não tínhamos mais cachorro em casa. Durante muito tempo convivemos com a Angel, da raça pastor alemão, mas nunca tivemos muita intimidade com ela. Treinada por policiais, ela era bastante brava e por ser muito grande, ficava presa no canil para não bagunçar muito o quintal lá de casa. Angel morreu de morte natural, mas certamente não foi feliz presa durante tantos anos da sua vida. E esse foi um dos motivos que prometemos nunca mais ter cachorros em casa.

Dessa vez, entretanto, o cachorro era para o sítio. O caseiro que tomaria conta.
Eu estava em São Paulo quando o telefone tocou:

-Clara, o pai trouxe um cachorrinho aqui para casa. Olhei para ele e dei o nome de Tobias!

Meu pai foi visitar a a casa de um dos anunciantes do jornal.
Era a casa de uma mulher.
A casa era cheia de cachorros, o primeiro que se aproximou dele, ele pegou.
Um filhote de labrador. Sessenta dias de vida. Bege. E para minha irmã, era o Tobias.

Minha mãe nunca gostou muito de cachorros. Principalmente dentro de casa. Para ela, o cheiro era insuportável, sem contar a sujeira que eles podiam fazer.

Mas dessa vez, a história tornara-se diferente.

Tobias chegou como um estranho. Eu acompanhei sua vinda à 500km de distância e conforme os dias iam passando pude perceber que a sua permanência na casa não seria de poucos dias.

A cada dia minha irmã ligava para contar uma história do cachorro. O dia em que ele dormiu com uma orelha dentro da tigela de água, em que correu loucamente atrás da mangueira enquanto a empregada lavava o jardim, e as noites em que chorava toda vez que apagavam a luz do cantinho em que ele dormia.

Com os dias, o Tobias se tornou uma companhia para o meu pai, nas noites em que minha mãe ia para a aula de pintura.
E esse mesmo Tobias, passava por entre os pés da minha mãe enquanto ela preparava os almoços todas as manhãs.

Para a minha irmã, foi além de um amigo e se tornou um conforto para as frustações amorosas.

Após quase um mês, finalmente conheci o Tobias. E quando cheguei em Araçatuba neste dia com a minha irmã do meio, nos apegamos a ele logo no primeiro encontro.
Passei quatro dias com o labrador. E pude perceber também, que sua rotina era brincar e dormir. Acordava e brincava.

-Cadê o Tobias?

Era assim que eu o chamava. E isso o deixava incrivelmente irritado e feliz ao mesmo tempo. Ele corria apressadamente atrás de mim e mordia a barra do meu vestido. Eu, também me fazia de contraditória, ria e brigava com ele, insistindo para que ele parasse, para depois chamá-lo novamente e começar tudo de novo.

Eu nunca liguei para cachorros. Pelo menos, antes do Tobias era assim.

Voltei para São Paulo e o Tobias ficou.

Ele começou a crescer e a sua permanência em casa começara a ficar impossível.

Chinelos, rodinhos e a vassoura amarela que varríamos a varanda. Tudo ele mordia.
A partir daí, ele ficaria maior e precisaria de um espaço para suas travessuras.
Além do mais, ele precisava de companhia. E em casa, nem meus pais, nem minha irmã passava a maior parte do tempo lá. Trabalhos, estudos….. e Tobias sozinho.
A saída era levá-lo para onde ele iria desde o começo, para o sítio.
Minha irmã o levou como se fosse um filho. Despediu e chorou.
Lá, ele tinha espaço para correr, brincar e crescer com outros cachorros que futuramente seriam criados ali.
Uma semana depois, ela e meus pais me encontraram em São Paulo para passarmos o feriado no Guarujá. Ficamos quatro dias lá, com direito a bastante chuva e pouco sol.
E pelo terceiro dia, a manhã continuava nublada.
Na larga calçada que protegia toda a praia do Guarujá, caminhávamos eu e minha irmã mais velha. E entre casais e famílias passeava uma mulher com seu cachorro no colo como se fosse uma criança. Ela o abraçava e sorria enquanto o carregava. E não era só ela. Poodle, beagle, maltês….diversos cães acompanhavam seus donos que se divertiam com a simples companhia do animal de estimação.

Após poucos segundos olhando, minha irmã disse:
– Hoje, eu entendo essas pessoas.

E não era só ela.
O Tobias se foi,
Mas tudo o que aprendemos com ele ficou.

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3 comentários sobre “

  1. Quero conhecer o Tobias!!!!E quem não se daria bem com vc amoreco??? Mesmo não estando perto, os cães sentem melhor que mta gente quem são as pessoas boas e em quem devem confiar!Vai ser um amor recíproco, pode ter certeza!!!Um bjinho e até mais tarde!!!

  2. Ai carinho…que texto maravilhoso! Esse foi pra fazer chorar mesmo né? Assim num vale… rs…Até hj eu não entendo pq quando olhei pra ele me veio esse nome Tobias. E olha que engraçado, depois eu fui procurar o significado e eu vi que TObias significa – abençoado por Deus, aquele sobre quem Deus põe a mão. Realmente, agora eu entendo todas as pessoas que se apegam aos seus animais de estimação, pq ao contrário de muitos humanos, eles sabem recompensar nosso amor e nosso carinho.rs…E aí vem o ditado da nossa Mãe: “a gente pega amor até em um cachorro”.rs…Um beijo bem grande pra vc! Volta logo pra casa!

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