O casal – parte I

Era a primeira vez que ele a via trocar a corda do violão.

Era a primeira vez que ela trocava a corda do violão.

Ela não pediu ajuda, não quis saber qual era o momento certo de amarrar, de puxar, de afinar. Essa era a sua vez.

E ele, fingiu que nada sabia, como se nunca tivesse tocado o instrumento. E como se ela não soubesse que ele tinha duas, três guitarras em casa e que poderia substitui aquela corda em dois, três minutos.

Mas não era o momento dele agir, só de observar.

Uma corda só estava arrebentada – a “lá”. E sem esta, as demais não faziam o menor sentido de existir.

Ele, sentado no sofá, acompanhava todos os seus movimentos ao tirar as cordas da caixinha e escolher sem pressa aquela que faria o seu violão tocar novamente.

Ela, fitou no violão todas as outras que já estavam presas, o modo como se encaixavam e como dessa forma, reproduziam o som que os seus pequenos dedos tocavam. A tv ligada com o som quase no mudo; a sua concentração era o único barulho que ocupava o silêncio.

Ele, assistia com sorrisos que apareciam sem querer. Apoiou a cabeça no braço direito que estava encostado no sofá. Com os pés esticados em cima de um banquinho, às vezes soltava risos de quem estava adorando vê-la fazer aquilo com tanto prazer, mesmo sem poder ajudar. E vendo-a rir também ao encarar aquela ação com tanta delicadeza e como algo a ser cumprido como uma meta, pensou: “- Eu poderia ficar com ela para sempre”.

E foi a primeira vez que caiu a ficha. Que ele percebeu que não suportaria continuar sem ela. Que ela tinha razão quando ficava chateada por ele não telefonar, por ele não se importar às vezes…quase sempre. Que ela não estava pedindo muito, algo difícil de fazer. Só a sua companhia, a sua amizade, mais do que o papel que qualquer namorado pode fazer – dar beijos e chamar pra sair.

Enquanto isso, ela soltou uma gargalhada ao ver passar na tv, um comercial que adora, no exato momento em que ela desviou o olhar da sua atividade, para logo em seguida voltar à tarefa. E ela estava quase conseguindo, agora é só puxar para que a corda se adequasse ao formato do braço do violão. Colocou os cabelos atrás da orelha e enrolou o restante com as mãos, preendendo com uma presilha que estava em cima do sofá.

Ele, ficou sério.

Ela percebeu e perguntou: – “O que foi?”

(continua…)

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