O casal – Parte II

Ele, ficou sério.

Ela percebeu e perguntou: – “O que foi?

Quieto. Ficou por segundos só respirando, forte, como se tentasse recuperar o fôlego que ainda não tinha perdido. E por mais alguns segundos, esfregou a mão na testa descendo até a nuca, exatamente como faz quando perde a calma.

“O que aconteceu?”

Ela repetiu, sem tirar as mãos da corda que já estava exaustivamente esticada.

“Nada, não houve nada.”

“Você ficou sério, de repente…”

“Bobeira. Eu tô normal.”

Normal. Ele sempre diz isso. E há dois meses, quando ela também notou algo estranho, ele disse que estava “normal”.

No entanto, nesta noite, ela não queria ouvir o que ele não queria dizer. E por isso, acreditou que tudo estava assim.
Ele, trocou os sorrisos espontâneos por uma expressão fechada. Estava covarde demais para dizer o que o amarrava como um nó. Melhor disfarçar.

“Acabei! Olha!?”

Ela tinha conseguido. Claro. Desde quando não consegue algo que se dedica a fazer.

A corda “lá” em perfeita sintonia com as demais. Não havia mais desafio, mas mesmo assim ele estava gostando dessa idéia de não interferir.
Ela olhou o violão de ponta a ponta, e abriu um sorriso de igual perfeição. Ela estava feliz.

“Pega, toca..!”

Ela disse, já colocando o violão no seu colo.

“Ah não. Tocar o quê? Pode tocar”

“Ahh toca vai, qualquer coisa.”

Aquele era o único momento que ele não queria tocar. Ele precisava falar, mas também não conseguia. Cedeu. E no rosto dela, os olhos brilhavam, e o cabelo deixava alguns fios cairem sem querer. Ele, adorava. O violão tinha uma fita na ponta do braço que ele tinha dado a ela quando começaram a namorar. Era inconfundível. E ela vivia dizendo que trazia sorte.

E procurou a canção que o deixaria mais à vontade…

“E então, vai tocar o quê?”

O seu amor

Reluz

Que nem riqueza

Asa do meu destino;

Clareza do tino
Pétala
De estrela caindo
Bem devagar…

Pétala. A música que ele cantou para ela no primeiro dia que se apresentou com sua banda na primeira vez que a viu.

Por ser exato
O amor não cabe em si
Por ser encantado
O amor revela-se
Por ser amor
Invade
E fim.

Ela, inclinou o corpo no sofá, satisfeita com a tarefa cumprida. E poderia ficar ali, a vida toda ouvindo-o tocar. Ao término da música, ela pegou em sua mão e cobriu com a sua:

“Obrigada…”

Ele, sorriu. E desejou ter mais coragem.

“Queria falar com você…”

“Percebi. Fala…”

“Você está feliz?” – ele perguntou já desejando não ter perguntado.

Ela, ficou séria. Sabia que ele não estava querendo saber do seu almoço, do seu emprego, ou da sua relação com os irmãos. Era sobre ele. Desde quando ela já não era mais feliz com ele? Ela sabia disso, mas acostumou. Não se questionava mais e também não acreditava em mudanças.

“Estou.”

“Está?”

“Estou.”

“Fala vai…”

“Você quer terminar?” – ela arriscou.

A pergunta era dele. Mas ela a fez.
Ele não queria terminar. Por nada. Mas sabia que ela sim. Que ela estava cansada e não queria mais aquele relacionamento de tão pouco tempo, mas tão desgastado.

Eles, ligados por uma história, mas sem o por quê de estarem juntos.

Ela já sabia há muito tempo.

Ele, percebeu naquela noite.

E ainda com o violão nas mãos, passava os dedos nas cordas como se elas pudessem soprar a próxima palavra que ele iria dizer.

Ela começou a respirar forte e a piscar lentamente. Era seu modo de tensão.

Ele, levantou do sofá e encostou o violão no tapete da sala.

Ele, pegou suas mãos e a abraçou. Ela estava realmente nervosa.
Sabia que isso tinha que acontecer, mas não estava preparada naquele momento.

Ele, nunca esteve preparado.

“Obrigada…” – ele disse.

“Pelo o quê?”

Ele foi até a porta.
Ela abriu e arriscou um tímido sorriso como se dissesse – “está tudo bem?”
Ele retribuiu.

Estava tudo bem….

A porta se fechou. Ela olhou o violão no chão.
A música do começo foi a mesma do final.
Como tinha que ser.
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8 comentários sobre “O casal – Parte II

  1. …chuvas rápidas de verão, tardes púrpuras de um pôr-de-sol imaginário, a beleza vã dos nossos pensamentos imperfeitos: o mundo gira, o incenso apaga, o tempo pára e nós não saímos do lugar! Tudo oq podíamos ser ecoando pelas vibrações de cada nota…

  2. Clarinhamigaaa!De quem é essa letra?Beijos e bom Natal…O seu amorReluzQue nem riquezaAsa do meu destino;Clareza do tinoPétalaDe estrela caindoBem devagar…Pétala. A música que ele cantou para ela no primeiro dia que se apresentou com sua banda na primeira vez que a viu. Por ser exatoO amor não cabe em siPor ser encantadoO amor revela-sePor ser amorInvadeE fim.

  3. “liga não, ………. q a corda lá tá meio desafinada”…Só pra vc saber quem é…rsrsrsVc me emocinou, descreveu td com uma delicadeza envolvente. Um suspense que criou uma expectativa…e um final apaixonante….Por essas e outras q gosto mto de vc…Amo-te, amiga!!!

  4. Esse texto ficou simplesmente lindo Clarinha!Espero que esteja td bem! Se estiver em “Araça” aproveite mto!Bjão e até breve!

  5. Olá Clarinha, como vai?Faz um tempo que nao passo para deixar um comentario, e nao é por isso que nao estou lendo seus textos, pelo contrario, leio todos.Nossa, e esse me tocou muito.A tempos nao lia uma historia tao comovente e inesperada.Uma historia comum, que foi contada de uma forma extramamente surpreendente.parabéns

  6. Li as duas partes antes de comentar, pq não aguentava pra saber o final… q coisa linda amoreco!!! Parecia q eu estava lá, assistindo a cena.E regado a Djavan, melhor ainda…. espetacular!!!!!!Amo-te!!!Bjinho

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