O mundo de Bia
“O João Estrella ainda tinha uma família. Eu não tinha nada.”
Bia* chegou mais cedo do que a hora marcada, 15h.
Eu entrei na redação esbaforida, e comecei a falar sem parar para a Luiza que resolve todos os problemas solucionáveis ou não na tv, de como o sistema da universidade era burocrático e blá blá blá….

Nessa hora, um amigo do mesmo lugar chamou minha atenção e disse:

“Clara, essa é a Bia” / “Bia, essa é a Clara que falou com você”.
Ela, sentada com uma camisa de flores. Era baixa, assim como eu.
Levantou e eu a abracei feliz por estar conhecendo a pessoa que procurei exaustivamente umas cinco ou seis vezes no telefone – “Olá Bia, como vai, tudo bem?”
Seus cabelos ruivos e escassos refletiam a idade.
“Quer água?”
“Por favor.”
Não sabia muito o que dizer, sentei em uma cadeira ao seu lado.
“Deixa eu te mostrar a última edição do meu livro” – ela disse.
“Puxa, legal, eu só tinha aquele da sua produção independente”.
“É então, este aqui olha, já é pela editora. Lancei bem depois, quando já tinha me livrado das drogas”

Quando ela começou o assunto, não sabia novamente o que dizer.

Fiz uma pergunta camuflada, e dela surgiram as respostas para todas as possíveis futuras.

E ela começou….
Eu era produtora musical. Chico Buarque, Simone, Alceu Valença e Roberto Carlos. Era amiga de todos eles. Shows e música, era comigo. Lançar nomes, descobrir talentos.
Anos e anos assim. Correria. Muito trabalho, telefonemas, contatos.
E de repente, a cocaína.
Muita, muita mesmo.
A todo momento.
E quem entra no seu vicio só tem três caminhos, três Cs – clínica, cadeia ou cemitério.
Para pelo menos um deles você vai. Eu tive sorte, fui pra clínica. Mas o João Estrella lá do filme, teve mais sorte ainda, tinha uma família. Eu não tinha ninguém. Perdi tudo. Dinheiro, família, amigos.
Morei seis anos na rua. Na rua mesmo. Não tinha nada. E você imagina o que é não ter nada para um mulher. Escova de dente, absorvente, papel higiênico ou sabonete. Nada.
E quando você começa acha que sabe quando pode parar. Um cigarrinho, uma bebida e depois, drogas. Ah, eu paro, eu paro. Mas não pára.
Depois que você se livra do vício, nunca mais volta a ser a mesma pessoa. Hoje, eu evito pessoas, lugares e hábitos. E isso fica na minha cabeça – pessoas, lugares e hábitos. Não convivo com viciados ou pessoas que bebem e fumam. Não passo em frente de bares. Não fico em frente aos mesmos lugares que vivia antes.
A droga deixa marcas, cicatrizes. Antes de eu ir para as ruas, trabalhava. Mas já viciada, não conseguia trabalhar sem cheirar, e se cheirava também não trabalhava.
Hoje eu tô livre, limpa, há oito anos. Mas ainda tenho tudo aquilo, aqui, dentro da minha cabeça.
As mãos, bem pequenas, às vezes ficavam trêmulas. Efeitos de tanto tempo de uso.
Bia falava com tranquilidade, uma calma que qualquer um daria tudo para ter, como se estivesse contando uma história que não fosse a dela. Mas por dentro, ela sentia tudo outra vez.
Eu, balançava a cabeça.
Ela não era uma jovem. Era a Bia, com os seus 50 e tantos anos. E tinha um passado que com os anos continuava a ser o seu presente.
Uma entre tanta gente.
Ela, estava ali, contando uma história. E foram tantos buracos, fundos, que era quase irreal acreditar que estávamos ali conversando, naquele dia.
Eu, ouvinte. Entrando em um mundo que não era meu.
O camêra depois de uns 30 min, nos chamou. Hora da gravação.
– Mas você já não tinha um gravador aí?, brincou Bia.
Poderia ter. Mas era só um bate-papo.
Abracei-a e me despedi.
Ela falaria com uma outra repórter no estúdio.
E diria tudo outra vez, gravando.
E quantas vezes mais Bia repetirá em outras emissoras, lugares e pessoas.
E assim será, porque um passado tão forte era agora era a sua vida. Contar o que foi e o que sempre continuará sendo…
Sua luta, seu triunfo.
O mundo de Bia.

* o nome, este é fictício.

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7 comentários sobre “

  1. Clara, ontem eu virei pro Fanfarrão e perguntei:“Du, como é que eu faço pra passar 24 horas do seu lado?”Clarinha, por favor…Como é que eu faço pra passar 24 horas do SEU lado??

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