A novidade

Ela observou Leonardo de longe enquanto se aproximava dele.
Ele fumava um cigarro e olhava o tempo cinza que fazia lá fora.
Enquanto isso, pessoas entravam e saiam do prédio, sempre olhando para o céu como se algo que jamais tivesse acontecido, fosse ocorrer.

Ele, do lado de fora, permanecia bastante atento. Não tinha trazido guarda-chuva.
Os guaritas faziam cara de surpresa – “Vai chover”.

Quando ela chegou perto de Leonardo, começou a pingar. Ela abriu o guarda-chuva rosa de flores verdes e lilás, cobriu sua cabeça e a dele e perguntou:

-Léo, quantos anos você tem?
(Ela sabia a idade dele)

-Por quê essa pergunta agora?

-Uns quarenta e poucos, certo?
– Pode ser. Um dia você terá quarenta também.
(risadas)

– Ok. Eu tenho 21 anos. E desde quando existe a chuva?

– Ora, como assim?
– Desde que nascemos chove, certo?
-Certo.
(?)

– Então por quê a chuva continua sendo uma novidade?
– Mas o que têm de novo?
– Olhe a sua volta, na calçada, em frente a esse prédio. Há quinze minutos as pessoas não param de olhar para o céu. Em São Paulo, chove toda a semana, e ainda é possível ouvir as pessoas reclamarem que estão sem o guarda-chuva. Os guardas fazem cara de espanto. O assunto no quinto andar, na praça de alimentação, é a chuva que vai chegar.
E então eu te pergunto, o que tem de novo?

– (…) Nunca pensei nisso.
– Essa tarde vai chover. Mas desde quando chove, Leonardo?
– Talvez estejamos sem assunto.
– A metrópole está sem assunto?

(Ele apagou o cigarro)

– Tá certo. Você disse que chove há muito tempo. Mas olhe esse guarda-chuva.
(e ele apontou para os ferros que seguram o tecido protetor da chuva)

Ferrugem e arames desencaixados.

-Chove desde quando nascemos e ainda não inventaram um bom guarda-chuva. E isso também não é novidade.

Ela tentou arrumar os ferros de encaixe. Bobagem.

– É descartável Léo. Os guardas-chuvas são todos descartáveis.

-Mas você sempre acaba comprando um novo, certo?
– Certo.
(?)

-E quando você compra um novo, ele continua sendo um guarda-chuva, mas com uma cor nova e um revestimento reforçado.
– E daí?
– E você se sente protegida porque tem um bom guarda-chuva.
– Pode ser mas….

– Cada chuva é como um novo guarda-chuva. Ela já veio uma vez, várias vezes, mas nenhuma é igual a anterior. Você pode encontrar uma chuva diferente dependendo do lugar em que você esteja. E tudo o que é novo sempre chama atenção.

– Faz algum sentido Léo?
– Para você não faz?
– Continuo achando que não há novidades.

(o tempo escurece e um trovão estrala em um piscar contínuo)

– Olha Léo! O céu clareou com esse trovão, você viu?

– Acabei de ver. E isso, é novo para você?

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6 comentários sobre “

  1. “Quando o céu estiver pretoe das nuvens até as sombras assombram. É só o reflexo do que está acontecendo.Só está faltando fósforo. Me dê aí!Não esqueça que nesse momentoo vento sacode as árvorese o clima que fica e o ar agitado.Dizendo tudo o que pode acontecer.Não escureça nem esquente a cabeça.Eu sei que você tem argumentos de querer.O sol pra pegar sua praia,pra bater sua bola.E a lua pra ver sua mina,ou só pra ir ali na esquina.Sem rima, sem rima!Faça como eu,que vou como estou,porque só o que pode acontecer…É os pingo da chuva me molhar”

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