A melhor fase da nossa vida

Todo mundo fala que a melhor fase da vida é a de criança.
Difícil concordar quando se é a criança.
Quando essa era a minha fase, não via a hora de trabalhar, dirigir e entender o Jornal Nacional.
Esses dias, lembrei de algo que talvez faça da primeira frase desse post, verdadeira.

Catanduva, interior de São Paulo. Cidade dos avós. Eu deveria ter uns dez anos quando minha avó montou uma sorveteria. Isso é inimaginável para qualquer criança. Todas as avós das minhas amigas faziam crochê, bordado e assistiam as novelas do SBT.

A minha avó era dona maior sorveteria do centro da cidade. A cidade, era onde eu passava as minhas férias com as minhas irmãs, também crianças.

As férias não eram de uma semana ou duas. Eram de dois meses – dezembro e janeiro.

Todos os dias a nossa única preocupação era em escolher os sabores. Tomávamos três sorvetes ao dia. Dois à tarde e um à noite. E talvez eles sejam os culpados por alguns quilinhos a mais nos dias de hoje.

O meu preferido era o de abacaxi. Da irmã mais velha, chocolate. E a do meio, acredite, derretia-se pelo de limão. Nunca pedíamos para minha avó ou sua única funcionária que servia o sorvete, fazer uma banana split ou um “colegial”. Não abusávamos das caldas e castanhas. Gostávamos dos simples e repetíamos o quanto gostoso fosse.

O calor de dezembro lotava a sorveteria da minha avó à noite. Ela e meu avô enlouqueciam no caixa, enquanto eu e minhas irmãs sentávamos nas mesas da sorveteria na calçada em frente a praça principal da cidade e ríamos de qualquer coisa.

Naquela época, não fazia parte da nossa vida ir em festas, paquerar ou se vestir com as roupas da moda. Éramos crianças. E tomávamos sorvete.

No almoço, minha avó preparava os melhores pratos. Servida nunca depois do meio-dia, a mesa era de arroz, feijão e bife com cebola. O melhor bife já provado. A salada era de tomate. E pelo menos uma vez a cada duas semanas, minha avó preparava minha opção predileta – couve-flor à milanesa (tema de um antigo post desse blog).

De sobremesa, sorvete.

À tarde, infinitas jogadas de banco imobiliário, cara-a-cara e um jogo que simulava o corpo de um ser humano em uma mesa de cirurgia; se o bisturi, no momento da retirada do membro fraturado, batesse no suporte de metal, ele dava choques.

E tudo mais era brincadeira. As antigas jóias da vovó, a cadeira de balanço da sua cozinha e suas eternas brigas com meu avô….que persistem até hoje.

Toda semana saímos para fazer compras com minha avó. Ela nunca teve carro, então ajudávamos a trazer as sacolas à pé mesmo. No caminho, ríamos a beça por motivo nenhum. Minha avó ficava brava porque dizia que rir alto é falta de educação. Sua braveza, aumentava as nossas gargalhadas.

Com o tempo, deixamos de passar as férias na casa da minha avó. Começaram as festas, as paqueras e a adolescência. A gente já não combinava mais com as férias de Catanduva. E a sorveteria também teve que acabar.

A mudança foi natural e até hoje quando tentamos lembrar o momento em que deixamos de de ir para a casa dos avós, não lembramos a data exata.

E não lembramos porque foi uma fase. A nossa fase de criança.

Aquela que queríamos que passasse muito rápido para púdessemos enfim, pagar as contas em um banco de verdade.

Quando adultos, ganhamos o dinheiro, o emprego, o carro e o convite pra festa.
Muitas vezes, o que realmente queremos, é um sorvete.
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3 comentários sobre “

  1. ai adorei clarinha! vou passar mais vezes aqui! tb quero um sorvete agora… eu qse nao sou viciada…….. hahabeijosss

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