Aprender a perder

Eram 20h e ela se dara ao luxo de voltar de táxi para casa.

O motorista seguiu o mesmo caminho que o ônibus fazia quando a levava do trabalho.

Encostada na janela, ela só desviou o olhar do chão quando o trânsito parado, a deixara em frente a loja de vestidos de noiva. O bairro era imundo. Lixos destampados, crianças jantnado no chão, prostitutas sem pudor. Baladas com letreiros velhos e incompletos brilhavam fora de ordem. Às vezes, não brilhavam.

O taxista gargalhava com o braço no retrovisor ouvindo piadas de uma FM chiada. Lá fora, as músicas dos bares se confundiam com a apresentação ao vivo de um palhaço desconsolado. Ela poderia se apresentar na rua também. O seu dia era desconsolo.

Na vitrine, tinham trocado o vestido principal. O de hoje, era feito por uma renda quase transparente que cobria metade dos ombros, deixando a outra metade sensualmente descoberta.

Enquanto o verde do semáforo não fazia efeito, ela lembrou do barulho da máquina do supermercado. Cada iogurte, requeijão, papel higiênico e lata de ervilha provocavam um som curto e agudo que se repetia a cada novo produto. Durante oito horas, o mesmo ruído. Era o primeiro dia no emprego novo, ela não poderia mais aguentar.

O terno listrado fora trocado por um uniforme verde carimbado com a marca de um supermercado do centro da cidade. A faculdade de direito agora serviria para denunciar um cliente que levasse as batatas-palhas sem pagar.

5 anos de Direito Constitucional, Direito Penal, Direito do Trabalho, Direito Processual Civil, Direito Civil, Direito Administrativo, Direito Tributário, Direito Previdênciário . Sua mãe não iria suportar. Agora era ela quem passaria as suas compras no caixa.

A luz branca da loja, refletia amarela no vestido. O que fazia com que os pequenos brilhantes bordados, se asemelhassem a cores de pérolas desbotadas. Bonitas.

A rua, suja e maltradada. Os vestidos, os mais bonitos que ela já viu.
Um emprego que ela não queria mais.

O táxi conseguiu mais de velocidade. A loja ficou para trás. A única que brilhava naquela noite.
Ela se lembrou do dia da formatura – advogada, não ficará sem emprego, dizia sua mãe.

Durante dois anos, ela não ficou. Vestiu social, assinou processos e foi até a última fase do concurso da promotoria.

Com o escritório falido, tudo desapareceu.

O transporte de luxo custara R$20,00. Despediu-se seca do taxista e subiu.
No elevador, imaginou que sua noite não seria tão cinzenta se vestisse o mesmo que o manequim da vitrine.

Depois de umas batidas na porta, foi atendida por sua mãe que a reprendeu por ter esquecido as chaves.

– Mãe, perdi o emprego.
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2 comentários sobre “Aprender a perder

  1. Adoro quando Clara conta um conto. Ainda mais delicado e supreendente como este. A Clara conta um conto cada vez melhor. Gostei!!!

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