Goma de metrô

– Bala de goma, bala de goma, bala de goma! Super macia! Bala de goma! Uma por R$0,30, duas por R$0,50, quatro por R$1,00. Macia, bala de goma, bala de goma! Quatro por R$1,00!

Os vendedores ambulantes do trem repetem seu discurso de venda exaustivamente. A mensagem sempre traz uma qualidade do produto e três ou quatro opções de compra. A repetição, no entanto, faz com quem a última palavra do discurso venha carregada de uma entonação irritante, trazendo a deixa para a próxima repetição. O vendedor pode ser homem ou mulher, a pronúncia da ultima palavra é sempre a mesma.

O senhor da goma conseguiu algumas moedas com a venda das balas que se assemelhavam a marshmellows coloridos empilhados em saquinhos plásticos. Sentado no banco a minha frente, um menino de 6 anos arregalou os olhos quando viu o vendedor passar do seu lado com os diversos saquinhos coloridos. Assim que o ambulante se virou e seguiu para o outro lado do vagão, a criança colocou as mãos no pequeno bolso do macacão, tirou três moedas de R$0,25, e as estendeu em direção a sua mãe sentada ao seu lado.

– Você quer a goma?
– Quero.
-Por quê não me disse enquanto o vendedor ainda estava aqui? – perguntou a mãe inconformada pela falta de atitude do menino quando o vendedor estava lá.

A essa hora, ele já descera do vagão. O menino ouviu a mãe repetir por vezes a mesma pergunta. Brava, ela devolveu as moedas e deu o assunto por encerrado. A criança arrependida por não ter pedido as balas em tempo, era como se perdesse a chance da sua vida. Ele próprio não parecia entender, a demora poderia ter sido por timidez ou por uma vontade que só veio com o distanciamento do vendedor. Com as moedas ainda em mãos, ele sussurrava pausadamente – goma, goma, goma.

A mãe deixava escapar suspiros impacientes no canto lateral da boca, ela não podia fazer nada. O menino, depois de algumas estações, esqueceu a bala e deitou o corpo no colo da mãe fazendo da mochila um travesseiro.

Depois de quase 20 minutos desde a saída do vendedor das balas, uma voz baixinha se aproxima do menino já quase sonolento e diz:

– Goma!

A palavra foi mágica.
Em segundos o menino olha para o lado e vê uma criança da mesma idade, com um dos saquinhos de goma em mãos.

– Toma, pra você!

O menino abre um sorriso, pega o saquinho e coloca as mãos no bolso onde estavam guardadas as moedas. A mãe não consegue disfarçar a alegria que logo aparece em seu rosto e ajuda o menino a separar as moedas.

– Não precisa, por favor, fique com ela! – diz um senhor, que logo se mostrou pai da criança que oferecia a bala.
– Ah, nossa, obrigada! Achei que ele estivesse vendendo-a. – explica-se a mãe.

A criança reiterou o pedido, fez um ‘jóia’ com a mão e grudou nas pernas do pai, que se equilibrava em pé dentro do trem. Ela carregava na mão outro saquinho já aberto e não parecia se importar em dar sua goma fechada para o menino.

Os olhos do garoto brilhavam ao fitar a goma que trazia verde, amarelo e rosa em suas cores. A mãe, ajudava-o a abrir o saquinho, mas sem amolecer, insistia em dizer que o menino deveria ter falado o que queria quando o vendedor ainda estava no trem, e não aceitar a goma de outra criança.
O menino não parecia mais se importar com a braveza da mãe. Enquanto ela falava, ele rasgava o plástico circularmente de modo que as gomas iam desprendendo-se umas das outras e por vezes caiam do saquinho.

– Quer? – ofereceu à mãe.

Ela fez que ‘não’ com a cabeça. O menino começou a mastigar uma por uma, intercalando as cores a cada nova mordida. A mãe observou-o por alguns minutos, abraçou sua mochila, encostou a cabeça na janela riscada do trem e adormeceu.

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