Diário de uma ex-míope

Deitada com os pés esticados ouvia a leitura de meu pai em voz alta sobre uma reportagem em uma revista. Era o meu único modo de ter informações já que uma recente cirurgia de miopia trazia um pós-operatório bastante embaçado, impossibilitando leituras e filmes legendados por alguns dias.

Era uma sexta-feira, logo cedo.
Seguimos para São José do Rio Preto. Meu pai no volante, minha mãe no banco ao lado. Eu com os meus óculos cheios de grau.
Com 12 anos, não enxergava nada na lousa. E assim segui até os 21. Colecionando oftalmologistas, armações de óculos e alergias de lentes de contato.

A consulta estava marcada para às 9h. A minha e de mais dez pessoas. Na sala de espera, os olhos aflitos ainda cobertos pelas lentes grossas, ainda permitia a todos a alternativa de não fazer. De sair correndo, inventar uma desculpa. De deixar quieto e continuar a vida, afinal ele nunca causou grandes problemas.
É, ele causou. Além de todo o desconforto, você acha que eles só são charmosos nas atrizes, que mesmo sem grau algum, às vezes decidem aparecer na festa do Oscar com uma armação gigante e colorida, a última moda, para provar que elas são normais – tem miopia como qualquer um.

Eu acho bonito os óculos nos outros. Bonito mesmo. Nunca liguei pra isso, sempre fui do mesmo time. A única inquietação é para quem usa.

E eu estava lá agora. Já tinha decidido e pronto. Todo mundo dizia que a cirurgia de miopia era a mais simples de todas as existentes no mundo. E a minha escolha foi se apegar a isso até o fim. Exceto há cinco minutos antes da operação, esperando para ser chamada.

Uma moça retirou os meus óculos do rosto e eu mal enxergava onde deveria me deitar. Aquela seria a última vez que eu os usaria.

A única coisa que eu lembro é que acenderam luzes sobre o meu olho, pingaram vários colírios, rasparam e deixaram o laser agir.

Não foi confortável, mas indolor.

Levantei um pouco confusa, alguém me levou até a porta e disse: “boa sorte”.

Saí como se estivesse em uma sauna. Enxergava como se houvesse fumaça por todos os lados. Olhei para o lado e vi um extintor vermelho. Mesmo distante puder ler “use em casos de emergência”.

Sorri sozinha. Eu podia ler. A vista ainda embaçada por causa da cirurgia; no entanto já bem melhor do que eu poderia anteriormente.

Com as semanas, vieram alguns incômodos e reclamações. Nada que a leitura em voz alta de outra pessoa e um óculos de sol não pudessem resolver.

A partir daí, vieram algumas descobertas como ler o rótulo do shampoo durante o banho, tomar chuva sem ter aqueles pinguinhos de água na lente dos óculos e não entrar em pânico ao colocar a lente de contato dentro dos olhos.

Nunca tive tanto de medo de fazer uma cirurgia quanto essa. Tá certo, nunca fiz cirurgia alguma. Mas não é fácil quebrar uma rotina de 12 anos. Ainda hoje, me pego por vezes tirando óculos invisíveis do rosto, antes de dormir.

E até hoje custo a me acostumar que eles já não pegam mais atrás da minha orelha.

Uma despedida que aconteceu em 15 minutos e não deixa saudades.

Ainda míope, procurei na internet relatos de pessoas que tinham feito e não achei muita coisa. Se alguém por acaso cair neste blog e estiver querendo fazer, vá em frente. Você pode ficar feliz ao enxegar um extintor ao seu lado.
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Um comentário sobre “

  1. Até que enfim ouço um comentário otimista sobre essa cirurgia, já que até um oftalmologista me desaconselhou a operar, já que eu poderia não me livrar deles – os óculos. Mas não desisto.. E, se resolveu com vc, pode resolver comigo..rsbjos

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