Os mapas de Maia

Quando cheguei à casa de José Roberto Maia, sua esposa me ofereceu um café.

Perto do estádio do Pacaembú, sua casa lembrava a de minha avó. O portão baixo, a sala escura. Uma luminária fraca dava o tom amarelo aos montes de livros empilhados por todos os cantos.

– Obrigada, aceito o café.

Maia subiu as escadas e chegou até o escritório de trabalho. Mais livros na prateleira.
Um grande computador Machintosh na mesa era o oposto de tudo daquela casa.

O lugar, pequeno para os três: eu, Maia e o câmera, Guga. Coloquei um banquinho e estiquei meu papel de perguntas amassado.
Maia acomodou-se, arrumou os óculos e ajeitou o agasalho branco.
Afastamos a mesa para Guga colocar o equipamento. A janela aberta trazia o som dos pássaros que disputavam com as sirenes das ambulâncias.

Sua esposa às vezes passava pela porta para checar se estava tudo bem.

– E então Maia, quando começou a desenhar?

Maia pressionava os olhos quando eu falava, prestava atenção nas perguntas e ao final de cada uma delas, respirava, levantava a sobrancelhas e começava a falar.

Ele era o último arquiteto com quem eu falara. Mas Maia nunca tinha seguido a profissão de fato. O seu trabalho era com desenhos. Era com a arte.

Há anos ele desenha mapas das cidades. De São Paulo, da China e até de países que ele nunca visitara. O seu trabalho mostrava os lugares e os seus detalhes mais profundos. Os rabiscos do consciente

Os traços, no entanto, tem referência.
A arquitetura não foi à toa. De todos os arquitetos com quem conversei, ele era o que mais falava dela com paixão, segurança e simplicidade.

As casas, prédios e ruas adquirem vida no papel de Maia.
A cidade, que seria feita de linhas e cálculos em um projeto arquitetônico comum; é estruturada com pessoas e suas emoções.

Já se passaram 5 meses desde a realização desse documentário.
Na semana passada, li uma reportagem no jornal que apresentava o novo projeto de Maia: um mapa de toda a USP. Cada faculdade, parque, restaurante e orelhão estampados em um grande projeto da cidade universitária.

Não há nada melhor do que ler uma notícia com um personagem que você já conhece, já ouviu suas histórias, já conversou com parte da sua vida.

Esse é o grande presente de ser jornalista.

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