Dia dos Namorados

A porta do elevador se abriu.
A professora encostou no espelho, deu boa noite para o senhor que acabara de entrar e suspirou.

– Eu estava conversando com a minha mãe no telefone agora pouco. Disse a ela que não tenho mais paciência para ser aluna.

O homem levantou as sobrancelhas e expressou um sorriso médio.

– Sou professora, estou fazendo um curso mas não tenho mais paciência de ficar sentada ouvindo. E olha, também não vejo mais graça em ficar lá na frente falando quando ninguém presta atenção.

Ele ficou sério. Ajeitou os óculos e observou os números do elevador piscarem.

– Não quero mais brincar de trabalhar – sorriu a moça nos seus 44 anos, desejando ter 20 para ainda escolher o que fazer.

– Às vezes dá vontade de aproveitar mais a vida. É, eu sei como é – opinou o homem com os seus 52 anos.

– Eu queria um amor para mim.

O elevador chegou no 14. O senhor ouviu a última frase mas precisava descer. Sorriu abaixando as sobrancelhas e se despediu:

– Boa noite, boa sorte.

Ela arregalou os olhos assustada assim que o elevador abriu as portas.

– Desculpe o desabafo.
– Tudo bem, eu sei como é isso.

Ela segurou as portas para que não fechassem e expressou o mesmo sorriso médio do senhor.

– Quer tomar um café? Ainda são 19h. Estou cansada mas se você aceitar, posso fazer agora mesmo.

– Ah, é…bom…é que….tem certeza?

– Fiz bolinhos de chuva pela manhã, ainda estão bons.

– Tudo bem….. posso experimentar.

O porta se fechou, os dois abaixaram a cabeça. Ele mexeu nas chaves, ela descascou os esmaltes das unhas até a chegada do 25º andar.

– Você mora sozinha?
– Se você não considera gato como gente, então sim, moro sozinha.
– Pois veja….como ele chama?
– Gilberto….mas costumo chamá-lo de Gil…em homenagem ao cantor mesmo.
– Eu moro com a minha filha, Cecília.
– Você é casado?
– Divorciado…mas somos amigos.
– Ah, isso é bom.
– O que é bom?
– Ser amigo da ex-esposa…isso é bom.
– É.

Ela tirou o pó de café do armário e preparou a bebida na cafeteira. Enquanto isso, ele folheou algumas revistas e olhou o gato pelo canto dos olhos.

– Está aqui. Tem adoçante e açúcar, é só escolher. Pode sentar também.
– Obrigado.

Ele colocou duas colheres de açúcar e mexeu.

– Eu já fui casada sabia?
– Humm …. – ainda com café quente na boca.

– Por dois anos. Pouco tempo eu sei…
– O tempo que tinha que durar.

– Você foi casado por quanto tempo?
– 22 anos.

– O tempo que tinha que durar?
– Isso.
– Acha mesmo?
– E por quê não seria?

– Se ficaram juntos por 22 anos, por quê você acha que não conseguiriam ficar mais?
– Não daria mais certo.
– Mas deu certo?
– O tempo que durou sim. Você não precisar ficar para sempre com uma pessoa para dar certo. Todo amor tem um fim.

– Eu ainda gosto do meu ex-marido.
– Talvez você goste dele para sempre. Isso não é errado. Você só precisa entender que todo relacionamento tem um fim. Seja pelo homem, seja pela morte.

Ela cerrou os lábios, passou a mão pelo gato e jogou no lixo os pêlos que soltaram em suas mãos.

– Você quer mais café? – ofereceu ao senhor.
– Obrigada.
– Hoje é dia dos namorados. Faz tempo que eu não comemoro essa data.

– O que é comemorar esta data? – perguntou à moça.
– Estar namorando.
– Então não comemore. Não encare como um fim de semana em que você tem que sair a qualquer custo. Pense no dia de hoje como uma segunda-feira.

– Ninguém é feliz em uma segunda-feira.
– Você é feliz no dia que você quiser.

– Você é feliz?
– Eu tenho os meus momentos.
– Quais?
– Isso não importa…..qual é mesmo o seu nome?

-Marta.
-Marta. Então, isso não importa Marta.
-Qual é seu nome?

– Gilberto. Assim como seu gato.
– Que bom, porque ele foi a pessoa mais honesta que eu já conheci.
– Você não está em um bom dia não é mesmo Marta?
– Eu tenho os meus momentos.

– Acho que preciso ir.
– O que vai fazer?
– Jantar com a minha filha e talvez… ver um pouco de TV.
– Obrigada pela companhia.
– Espero não ter atrapalhado a sua sexta-feira à noite.

– A minha segunda-feira, você quer dizer.
– Como quiser.

Os dois expressaram o sorriso médio, ela recolheu as xícaras e o acompanhou até a porta.

– Então…. até. – disse a moça, esticando o braço direito para cumprimentá-lo.
– Até qualquer dia Marta. Prazer em conhecê-la. – aproximou-se beijando seu rosto.

Ele esticou o paletó e entrou no elevador.
Ela segurou as chaves, trancou a porta, levou a mão até o rosto e foi dormir.

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