O apagão e os jornalistas

Na última terça-feira, o apagão na cidade de São Paulo começou às 22h. A princípio o que parecia apenas uma queda de energia se mostrou mais grave quando, ao olhar pela janela, percebi que a escuridão tomava conta, não só do meu prédio, como de toda a cidade. Outro indício de que não era um blecaute comum, foi falar ao celular com a minha mãe e a ouvir dizer que em Araçatuba também não havia luz.
Alguma coisa estava errada e essa provavelmente era a hora em que os jornais impressos se preparavam para fechar já com as manchetes prontas e com todo conteúdo organizado para ir à gráfica. Comentei com a minha irmã, que mora comigo aqui na paulicéia, que os jornalista teriam que madrugar aquela noite para reportarem o assunto no dia seguinte. Ela duvidou que houvesse tempo e replicou dizendo que fechariam a edição sem as notícias do fato caótico.

Na manhã seguinte, acordei cedo e fui correndo à porta pegar o jornal do dia. Ao ver a capa, sorri orgulhosa. Manchete da capa e duas duplas (!) traziam informações e entrevistas com moradores da cidade e com autoridades sobre as possíveis causas da pane elétrica. Na televisão, os jornais também traziam imagens dos momentos vividos por pessoas que não conseguiram ir para a casa, ficaram presas em um trânsito de semáforos apagados e sem saída em elevadores parados.

Não foi fácil a correria dos jornalistas que trabalharam nessa cobertura após um dia intenso de apuração de notícias e horas em frente ao computador. Um esforço que parecia ter se finalizado às 22h, mas que se estendeu até altas horas. Entretanto, são nesses momentos que eu tenho ainda mais orgulho da nossa profissão. No dia seguinte à confusão, a primeira coisa que qualquer cidadão curioso fez ao se levantar foi ligar a TV, pegar o jornal ou acessar a web. E ter acesso a essa informação, ainda que feita de forma automática, só foi possível graças a um profissional que se dedicou e trabalhou para tornar isso possível.

Jânio de Freitas, colunista da Folha de São Paulo, disse em um texto para o livro Jornalismo Diário, da jornalista Ana Estela de Sousa Pinto, que a essência do jornalismo é feita de uma combinação simples: “o interesse de uma coletividade em saber do mundo em que vive e a disposição de satisfazê-la, em certa medida, por quem possa fazê-la.” Mesmo que para alcançar esse objetivo eles tenham que encarar noites mal dormidas, imprevistos e corridas atrás de informações um tanto quanto obscuras.

Episódios como esse funcionam como um clique para nos lembrarmos de que a notícia não vem pronta. Ela é resultado de um processo que envolve muita apuração, investigação e vontade de se levar o fato até o conhecimento público. O jornalista é um eterno inconformado. Um profissional que se incomoda com tudo o que acontece no mundo, que precisa gritar e levar adiante o que vê. E o esforço que se dá para fazer isso é recompensado ao perceber que muitas pessoas são beneficiadas com a informação.

Não é incomum estudantes de jornalismo questionarem os já formados, se vale a pena seguir na profissão, mesmo sendo tão instável. Acho que não preciso responder, não é?

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Um comentário sobre “O apagão e os jornalistas

  1. Excelente texto, Clara, parabéns! Delicioso de ler, consegue traduzir com precisão um pouco do cotidiano dessa profissão tão fascinante quanto o jornalismo!São profissionais competentes e inteligentes como você que fazem o jornalismo ser tão encantador. Seu texto precioso é coisa rara mesmo, de verdade!E olha que não digo isso apenas porque te conheço e sei do seu enorme talento, hein?Beijos!

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