Vertigem

Há muito tempo eu não sentia a palavra vertigem. O efeito de deitar e se levantar rapidamente causador de uma confusão mental não me enganava mais. Ao acordar de manhã, era preciso apenas diminuir o ritmo ao tirar os pés da cama para ela jamais conseguir se manifestar.
A vertigem é incômoda e nos tira um dos bens de qual temos mais orgulho: o controle. Ela gira, confunde, rouba a nossa expressão e norteia os movimentos. Ela é escura e não tem graça. A sua despedida só se faz ao fecharmos os olhos bem forte, para então, ao relaxarmos as pálpebras, sentirmos a insegurança causada pela sua passagem.

Há uma semana, fui à exposição dos artistas OsGemeos em São Paulo. Não gosto de sair sozinha, mas nesse dia achei que aproveitaria melhor sem alguém para influenciar os meus palpites. A fila de espera, que me fez quase desistir, não durou mais que trinta minutos na parte externa da FAAP. Orientada a deixar minha bolsa, caderno e máquina fotográfica em uma espécie de chapelaria, me vi livre e sem riscos de ouvir chamadas barulhentas do meu celular.

Ao entrar na sala onde estavam expostos os trabalhos, mirei o olhar no fundo do espaço e me deparei com ela. Acesa, colorida e radiante como se risse de mim. Um painel azul e vermelho de dimensões infinitas se apresentava trazendo a confusão que eu pensara não mais me deparar. Diferente da vertigem negra e controladora, no entanto, esta me fazia sorrir. Sendo assim, fui a sua direção não para enfrentá-la, mas para entendê-la.

A imagem vertiginosa, sem chão nem suporte, carregava alguns dos personagens característicos dos grafiteiros. Bonecos de aparência amarelada, olhos separados, narizes largos e com expressões que ora sugerem aventura, ora melancolia. Naquela situação, os desenhos também pareciam caçoar da minha curiosidade. Eles lá, flutuando na tela como se não houvesse melhor lugar para aproveitar e eu, tentando encontrar porque até então nenhuma vertigem havia me causado tão boa sensação.

A obra dos irmãos Gustavo e Otávio quebra regras. E fugir delas, nesse caso, funciona. O ambiente criado no piso térreo da universidade dialoga com os cantos espaçados, com o teto e com o estático das paredes. A conversa se faz com todas as instalações. Até mesmo com aquelas colocadas por eles, como portas, maçanetas, caixas de som e buzinas.

As histórias, contadas por meio dos traços, quando não refletem uma liberdade invejável, trazem referências de problemas mundiais pincelados com cores brasileiras. A mistura de membros humanos com os de animais, como peixes, pavões e patos, entretêm ao mesmo tempo em que nos pede menos arrogância: não somos tão racionais assim. E mesmo que o surrealismo das cenas e o vibrante das cores nos lembrem Bosch e Matisse, respectivamente, OsGemeos nos revelam a todo momento que aquilo, é só deles.

Os artistas não pedem nossa avaliação, eles proporcionam a experiência de apreciarmos um trabalho, em que metade fica por nossa conta. A exposição só é completa se deixarmos agir os sons e os movimentos do enredo criados apenas em nossa imaginação. Ao final, os trabalhos nos sugerem mudanças de percepções. A minha sobre a vertigem, foi uma delas. Agora, tenho mais prazer de estar com ela.

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Um comentário sobre “Vertigem

  1. Também fui ver a exposição e fiquei tão impressionada que me esborrachei na escadaria da FAAP, na frente de toda aquela gente…acho que vou escrever sobre isso.Ah, Adorei seu texto no blônicas! Parabéns! Eu tentei, mas não ganhei.beijos,

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