Foto de estrada

O casal de velhos desceu do ônibus que parara na estrada para fazer uma pausa durante a longa viagem. Os passageiros saíram apressados, se dirigiram ao banheiro do posto e contaram as moedas do bolso que pagavam uma esfiha de carne mal passada.

O lugar era chato. Distante do destino. O marrom e o bege ali não combinavam.
Ninguém se conversava. Não há amizade dentro de ônibus. Há olhares, suspiros, cansaço.

O casal de velho não foi ao banheiro e não pagou R$2,50 pelo risólis de catupiry.
Eles seguravam um máquina analógica preta, daquelas que…a gente já nem lembra que existe.

A senhora apontou para umas árvores que compunham o encostamento da estrada. Muita grama, muito verde.

– Ali! – disse ela, já direcionando a posição do senhor que a acompanhava.
Ele puxou a camisa amassada, levantou a bermuda e acenou um jóia com o polegar.

Ela focou o olhar no orifício da câmera com o video já desgastado de tanto uso. Firmou a bolsa no braço para não se desequilibrar. Concentrou-se na ação para não tremer a câmera e gritou:

– Agora!

Ele, com os lábios bastante enrugados, ficou nervoso por saber que aquele era o momento. Mas se fixou na meta e sorriu, mostrando os dentes.

Ela bateu a foto e respirou aliviada.
Eles deram as mãos e voltaram para o ônibus. Não ficaram ansiosos por não poderem ver a foto ali no visor.

O retrato seria belo, de qualquer jeito.

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