Ônibus

O Armênia 719P não sai sempre no horário. Os motoristas param o ônibus, pegam um café no bar, espantam o cachorro e desejam estar em casa.

Eu e os outros do ponto suspiramos fundo e arrastamos os pés na calçada desejando estar em casa.

O Armênia 719P não fica lotado. Eu sento sempre no mesmo local, um banco elevado que fica no fundo veículo e tem uma vista melhor para a rua.

Eu tiro o Estadão do dia que já está com o prazo de validade quase se esgotando e torço para que a Teodoro Sampaio não tenha carros, buzinas e semáforos fechados. O motorista acende todas as luzes do veículo e, às vezes, nos seus dias mais cansados, apaga as quatro lâmpadas que ficam em cima da área do volante para aproveitar o trajeto como se estivesse no meio de uma estrada, apenas iluminada por faróis que transformam-se em únicos e  poderosos.  Se ele pudesse, até fecharia os olhos só para sentir o vento que chega pela janela.

As três senhoras que entram no terceiro ponto, entregam o dinheiro para cobrador sempre do mesmo jeito. Metade do dinheiro na mão e metade perdida na bolsa. A dificuldade em encontrar as moedas soltas as fazem reclamarem baixinho da própria falta de organização.

Eu leio uma parte do jornal e começo a lembrar de uma entrevista que vi um dia na GNT em que uma moça dizia que ler em movimento pode provocar descolamente de retina. Paranóia. Tiro o ipod da bolsa e olho para quem está sentado ao meu lado. Se tiver uma feição tranquila e despreocupada, troco a música na sua frente. Se for estranho e de mochila, escondo o aparelho na bolsa e conto com o gosto da seleção automática de músicas do próprio aparelho.

O ônibus balança, as pessoas saem e a Teodoro anda. Adoro pegar ônibus sem trânsito. Ver os comerciantes fechando as portas e as botas na vitrine em eterna promoção. Observar o cobrador que, mesmo durão, amolece o rosto ao ver um passageiro conhecido. O vaivém de poucas bicicletas na rua, o cansaço da rotina estampada nos rostos da cidade e a tamanha diversidade de histórias que entram e saem dali sem dizer uma palavra.

Eu aperto o sinal da descida, seguro firme a bolsa e as folhas do jornal bagunçadas, retiro os fones dos ouvidos e desço me equilibrando em saltos muitas vezes mais altos do que eu consigo calçar. Estou em casa.

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6 comentários sobre “Ônibus

  1. Curioso! Este texto me deu uma sensação tão estranha. Um misto de saudade com alegria e algumas coisas que hoje estão mais distantes… Sempre gostei de observar este tipo de comportamento das pessoas, divagar… e quem é que nunca escondeu um ipod ou mp3 com medo de alguém que nem conhecia ou sabia se era “coisa boa” ou não. Como a gente se entrega a devaneios e probabilidades que às vezes não são nem possíveis.
    Adorei o texto, Clara. Sinto falta de parar dentro de um ônibus para ler com sono ou chacoalhar ali dentro até destruir folhas e equilíbrio rs.
    Beijos

  2. Oi Clarinha,

    Tudo bem?

    Quando tempo……….. Pois é, eu pegava exatamente este ônibus para voltar do estágio (trabalhava na subprefeitura de Pinheiros).

    Lembro muito bem de rezar todo dia para a Teodoro estar livre para que conseguisse chegar no inglês…..nem sempre dava certo.

    Bjo Mari

  3. Pingback: sete « …Às Claras….

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