Jum Nakao e a melhor palestra da minha vida

Palestras não são sempre agradáveis e difíceis são aquelas que realmente provocam uma ansiedade e uma comoção sincera. Na semana passada, tive uma primeira experiência marcante no que diz respeito ao assunto.

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Com o auditório lotado, quase não consegui encontrar um lugar para sentar e assistir à palestra do estilista e diretor de criação Jum Nakao no Conad 2010 (Congresso Nacional dos Designers de Interiores). Enquanto ele preparava o aparato tecnológico para a sua apresentação, um mestre de cerimônias divertia a plateia de profissionais que batia palmas e se exaltava com o sorteio de brindes. Nada de excitante, até então.

Após sentar-se em frente a dois computadores, ele iniciou a sua conversa com um slide em que aparecia o título A Costura do Invisível e disse a todos que desejava transformar a nossa vida após a sua apresentação.

Com a fala mansa, ele começou a contar sobre uma viagem que fizera há alguns anos. No local, um amigo o convencera a dar uma volta de barco à vela em vez de entrar no que navegava a motor. Ele topou e no caminho, enquanto se encantava com a paisagem da viagem, ele mirou o outro barco que seguia com muito mais velocidade e com várias pessoas acenando. Nesse momento, seu companheiro o chamou e comentou:

– Para aquelas pessoas que estão naquele barco não existe passeio. Existe apenas linha de saída e linha de chegada.

Nesse momento, Nakao provocou o seu primeiro silêncio na plateia. E essa era apenas a introdução. A partir daí, ele entrou no assunto principal da palestra: um desfile criado por ele em 2004 para o São Paulo Fashion Week, em que todas as roupas eram de papel.

O palestrante, sem pressa, falou sobre todas as fases que resultaram nesse desfile, considerado o melhor do século. A sua principal intenção no evento de moda era a de criar um encantamento em 5 minutos (o tempo de duração da apresentação na passarela).

Mas no momento da inspiração e concepção do projeto, muitos não acreditaram na sua ideia. A dificuldade de conseguir patrocinadores que financiassem uma proposta inédita (e por isso ainda muito incerta) colocava ainda mais empecilhos no trabalho do estilista.

Depois de um árduo caminho para convencer um grupo de profissionais de que aquilo poderia dar certo, ele começou do zero, se viu diante de milhares de possibilidades, de dúvidas e dores. 182 dias e mais de 700 horas de trabalho resultaram em uma coleção linda inspirada no final do século 19. Modelos com perucas de bonecos playmobil faziam referência ao modelo industrial de produção em massa e contrastavam com a originalidade das roupas de papel que transmitiam leveza e inovação.

Depois dessa história, Nakao calou a plateira do Conad mais uma vez. Ele mostrou o vídeo do desfile em que, no final, surpreendentemente todas as modelos rasgaram as roupas de papel e ficaram apenas de collant preto provocando um choque em todos que assistiam ao evento, já que todo o trabalho tinha sido destruído. Será? Para ele, essa foi uma atitude de coragem.

As roupas, para ele, não eram o mais importante. O trabalho em grupo, o aprendizado e tudo o que foi feito para se chegar em algo inovador foi o que realmente marcou para sempre a vida do estilista. E a minha também.

Em um período em que fomos surpreendidos pela morte de José Saramago, Jum Nakao nos lembrou do que o autor português não cansava de declarar. A essência é mais importante que a superfície. O vestuário de papel não é o fim do processo, o mais importante é a capacidade de transformação para se chegar até ele.

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