Alheio

Bem cedinho, no metrô de São Paulo, um pai segurava sua filha que devia ter uns 3 ou 4 anos. Ela não tinha cabelos, nem sobrancelhas. Vestia um chapéu amarelo e botas cor-de-rosa.

Seu pai, um careca alto e forte carregava-a com firmeza, sem titubear. Uma moça, que parecia enfermeira, puxou assunto com o pai sobre a menina.

Eu, sentada na frente deles, não fui notada. Aproveitei isso para observar o diálogo dos dois e o silêncio da menina.

Ela tem leucemia, de acordo com ele. Faz tratamento em um hospital sempre em sua companhia.

– “A mãe nunca vai até lá, não nasceu para ser mãe, sabe como é?” – disse o homem para a moça.

A mulher balançava a cabeça para confirmar tudo o que o pai dizia. Ela afirmava ter acompanhado várias crianças em tratamento de câncer.

– “O  processo é doloroso mas o final da história da sua filha será feliz, com certeza”.

Quase no fim do trajeto, ela ofereceu um chocolate para a criança que foi aceito. Era a primeira vez que a pequena sinalizava algo naquele dia.

Quietinha, ela ficou sentada com o doce na mão enquanto os adultos falavam de coisas sérias e de problemas desta vida. O pai, não saia de perto dela por nada. Nem mesmo na hora do chocolate.

Tanto cuidado.

No fundo disso tudo, o barulho grave do metrô seguia por todas as estações.
Segurando um jornal nas mãos, deixei algumas lágrimas pingarem no banco que eu estava.

Não fiz questão de guardá-las.

Interessante como a cidade surge e dá alguns sinais para que a gente jamais se esqueça. Deles, delas, da família, dos amigos. Das pessoas. De tudo o que importa mais do que o sucesso, dos parabéns, das metas atingidas.

Da bobagem e fragilidade que é a vida.

O que fica mesmo é o tempo que todas elas passaram ao nosso lado.

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7 comentários sobre “Alheio

  1. Clara, tu escreves muito bem!
    Nossa! Ao ler teu texto me lembrei de dois textos que escrevi há muitos anos quando trabalhava como voluntário num lugar chamado AMAMOS e na AACD. Você escreve com tamanha sensibilidade que me impressiona… rs rs. Ainda bem que o mundo está cheio de pessoas como tu, que se recusam a reproduzir o ‘status quo’ de um país em crise com a sua identidade, com uma juventude pasmada e acomodada, quase sem perspectivas…Parabéns! Se você tiver tempo e interesse, posso compartilhar via e-mail, deste texto que escrevi no longínquo 2002… Sucesso e um abraço!

  2. É engraçado quando esse tipo de situação acontece. No ônibus e no metrô todos nós nos enxergamos como simples passageiros, nada mais do que isso. Quando o silêncio se quebra e as pessoa buscam ouvir mais do que seus ipods podem-se encontrar casos emocionantes como esse.

  3. Na vida amore, vemos de tudo, alegrias, tristezas vivenciando tudo é que nos tornamos integros p/ ajudarmos os outros, mas somos finitos. Desfrute e valorize cada seg de sua vida, lembrando sempre os mais felizes. Te amo muito! bjs…..

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