Febre

Ardendo em febre no sofá da sala, comecei a delirar. Uma amiga me disse que gripe após muitos momentos felizes é uma indicação de que o corpo está brigando com você por ter voltado à rotina.

Fiquei duas semanas fora, na cidade dos meus pais.
Naquela que já foi minha e que hoje abraça doces lembranças da minha infância e adolescência.
Desde que comecei a trabalhar não tinha passado tanto tempo livre em Araçatuba. Sem horário, longe do calendário.

Peguei o carro para dirigir, cansei de tanto correr com o meu cachorro. Fiz uma luminária de cola e lã com o meu pai. Ela se desfez e tivemos que começar tudo de novo. Assisti a filmes abraçada com a minha mãe. Comprei objetos para a casa nova da minha irmã. Ouvi repetidas vezes as mesmas músicas do rádio. Convenci meu cunhado a ir num show sertanejo. Desliguei o celular. Sumi da internet. Fiquei mais tempo com o velho violão do meu avô. Comi chocotone. Senti meus dedos descalços no chão da cozinha. Me vi plena. Descansada.

No último domingo, coloquei uma toalha gelada na testa para fazer a febre baixar. Eu estava de volta a minha casa atual, em São Paulo. E o corpo ardendo me fazia movimentar de um lado para o outro como se procurasse uma satisfação. Eu estava confortada por voltar. Gosto de recomeço. Mas o inconsciente ainda se chateava.

Minha mãe me disse esses dias que os momentos e as pessoas duram exatamente o tempo que tem que durar. Nós não nos conformamos porque somos egoístas, todos. Queremos mais, infinitas vezes, desejamos o para sempre. O que a gente não percebe é que momentos bons só os são porque não duram. Têm hora para acabar.  São temporários e deliciosos. Valorizam-se  por serem assim.

E com meias nos pés, desejei não ter febre novamente. Os olhos pesados, a testa queimando como o fogo, a boca seca, tudo me fazia amolecer.  Foi então que comecei a suspirar para que aquilo parasse, para que o meu corpo retomasse o seu vigor. A sua racionalidade. O presente.

Com as mãos suadas, o quente começou a se despedir.
O termômetro acalmou o mercúrio e eu voltei a respirar.
Soltei os braços, as pernas, tirei algumas cobertas de cima de mim e telefonei – “Foi bom estar com vocês, mãe. Nos vemos no próximo feriado. Beijos”.

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4 comentários sobre “Febre

  1. Acho que nunca dei as caras nos comentários, mas está na hora de dizer que você escreve deliciosamente bem, Clarinha. Parabéns. ;]

  2. “…os momentos e as pessoas duram exatamente o tempo que têm que durar”.
    Então, que sejam eternos.
    Obs: não sou egoista.

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