Tudo por acaso

São Paulo tem uma casualidade que me instiga todos os dias.
Uma ligação entre as pessoas diferente das outras cidades.

Uma amiga me disse uma vez que estava aprendendo a viver sozinha; a não ter companhia a todo momento; a almoçar ouvindo apenas o som da sua mastigação; a saber que nem sempre alguém está disponível; a aprender que às vezes é gostoso ouvir o som dos próprios passos e não da vida alheia.

Por outro lado, São Paulo testa essa habilidade de ficarmos sozinhos a todo momento. Muitas vezes se estou caminhando comigo mesma, posso ligar para um amigo e em poucos segundos sentar na mesa de uma livraria para tomar um café. Ou então, trombar de repente com alguém no mercado e marcar um chopp na sequência.

Aqui, alguém sempre vai topar alguma coisa. E eu gosto disso: desta solidão que se desmonta a qualquer momento.
São Paulo ao mesmo tempo que nos deixa livres para andar, respirar e estar sozinhos; ela também nos traz pessoas diferentes todos os dias. Pessoas antigas, novos amigos. Professores, colegas de infância, queridos do trabalho.

Os encontros são instantâneos. Fala-se de planos, de cortes de cabelos, de peças de teatro. A tarde cai e você se despede sem saber quando encontrará aquela pessoa novamente. No outro dia, um outro amigo te liga e diz que está ali, na região da sua casa. Que tal um suco?

O fato de sair de casa sozinha e não saber com quem irá conversar até o final do dia é umas das virtudes de se morar nesta cidade tão grande. A surpresa é o que me interessa.

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4 comentários sobre “Tudo por acaso

  1. Clarinha!
    Nesse texto, vc traduz Tom Zé em “São, São Paulo, meu amor”: são cinco milhões de habitantes, aglomerada solidão, se mamam com tanto ódio, se odeiam com tanto amor… (quando eram cinco milhões, em 1968…). Gostava de comprar um saco de pipoca na Praça da Sé e chegar com ele inteiro à Praça do Patriarca, experimentando duas sesações:
    1. Vencer o desafio de chegar com ele cheio, depois de tantas trombadas.
    2. Olhar firme no rosto das pessoas, certo de que aquela era a primeira e última vez que estava vendo cada uma (estranho isso…)

    Incrível, vc sente essa cidade como eu: barulho dos próprios passos, refeições solitárias, conversa com quem nunca vimos….

    Beijos e obrigado por continuar meu carinho por São Paulo — sempre adorei essa cidade, que tem os maiores braços abertos do mundo para todos. As aberturas do Jornal da Manhã da Jovem Pan me comovem: “São Paulo, que amanhece trabalhando…”
    “A cidade não desperta, apenas aperta…”

  2. Clarinha!!!
    Pare de rir e, por favor, corrija a letra do Tom Zé: em vez de “se amam com tanto ódio”, saiu “se mamam com tanto ódio”.

  3. Sensacional é a sua definição do que é morar sozinha em São Paulo.
    Moro há 2 anos por aqui … Poetizo a solidão e faço rimas dos encontros. Os encontros não planejados viram até canção. Canção daquele tipo que esqueço as notas no dia seguinte, pra dar espaço para uma nova, em um novo encontro despretencioso.

    Gosto daqui porque no ‘até logo’ ninguém me cobra a data do ‘logo’.
    Gosto daqui porque estar sozinha em um bar é normal e nada melhor do que estar sozinha pra se conhecer novas pessoas.
    Estar sozinha em São Paulo é relativo, é efêmero, é duvidoso e ao mesmo tempo, enquanto sozinho estiver, é gostoso.
    A dúvida de quem vai se ver, se conhecer, se (re)encontrar só traz benefícios pra quem como nós, é apaixonada pela vida inconstante, inconsequente e improvável.
    :)

    Apaixonante!

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