O amor dele

Ela costumava usar um par de sapatos azul com duas borboletas em cima. E passar a mão nos cabelos com os esmaltes descascados.Não usava anéis, vestia tiara. E também um laço amarelo no pescoço que deixava o seu colo vistoso, solitário de tanta beleza.

As unhas compridas faziam trec trec no vidro fechado do carro. A voz rouca saía para cantarolar antigas de rock e cair no mesmo The Police. O dia passava e ela nada entendia de tédio ou chateações.

Estava sempre tudo bem.

Perto da primavera, ela trocava a cor do lenço, a marca do vinho chileno e se esbaldava. Ria alto, desafiava palavrões e se exibia doce, mostrando que tudo era pura ingenuidade.

Ela não repetia a camiseta, tirava música no violão de cabeça. O seu francês era torto mas a expressão mais falada o deixava sempre estupefato de exclamação: Vous perdez tout près de moi.

Tudo tão certo, ela gostava. Não brigava, queria sair.
Ele chato, reclamão. Até quando cegaria?

Ela pediu água no bar.
Roeu as unhas até acabar. E não chorou.

Que sorte a dele se tivera aproveitado tudo o que dela alcançou.
A palavra, o gosto por café preto, os filmes velhos na tv e a imperfeição.

A vida nos surpreende, mas ela não dá tanta voltas assim.
E por aí ele soube que ela não apareceria mais.

A foto deste post é de babileta.

Anúncios

2 comentários sobre “O amor dele

  1. Pingback: de dentro – quem é que entende. | …Às Claras….

  2. Pingback: de dentro – quem é que entende | …Às Claras….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s