Eu vou contar uma história

Eu nunca tirei zero no colégio.

Mas já tirei meio. Zero vírgula cinco. Quase nada.
No dia, meu mundo caiu. Eu achei que fosse reprovar em História e descer morro abaixo naquele ranking babaca de quem-tira-a-melhor-nota, grudado no painel da escola.

O Paulão era o melhor professor que eu já tivera.
Ele ensinava bem, sabia o que estava dizendo e fazia disso, uma arma para o alunos se apavorarem com suas provas.

No entanto, ele era bom assim como era mau. Discursava aceleradamente e fazia com que gravadores ocupassem toda a sua mesa, a fim de que toda a sua aula ficasse ali registrada. Ele falava de História como eu gostava de Português. Mas naquele tempo, História pra mim se tornara Matemática. Fácil de entender, difícil de reproduzir.

Além disso, até a minha oitava série, eu estudara em uma escola em que História era decorar o livro inteiro e não entender quase nada. O importante era ser objetivo e responder a pergunta, na lata. Mas não para Paulão. Esse cara queria o contexto inteiro da guerra, nem que para isso você fizesse de sua prova, uma dissertação a cada resposta.

O meu primeiro exame deu no que deu.
0,5. Não mais que isso.

Adolescência é emoção pura. Qualquer tropeço vira drama.
Meu pai achou estranho – a filha caçula atingira um número que nenhuma das anteriores alcançara antes.
A turma da escola me olhou como uma extraterrestre. A garotinha estudiosa saindo-se pior que a galera do fundão.

Para quem tirava nota até 3, Paulão dobrava a prova em quatro e fazia você buscar lá frente só para te lembrar do quanto é ruim ir mal no colégio.

O fato é que a minha meia nota não tinha saído por falto de empenho ou estudo. Ela veio porque eu estava dançando errado. Para ir bem eu tinha sacar o que o Paulão queria. Eu precisava aprender a manha. Conhecer o estilo Paulão de dizer e amarrar os fatos do jeito que ele gostaria de ler.

Isso tudo me tirou o sono e a calma. Virou um peso.

Após duas semanas, resolvi que meus dias de angústia teriam um fim.
Eu transformaria toda a raiva que sentia pelo Paulão em uma nota alta.

A primeira parte do plano foi pegar emprestada a prova da menina A da sala.
Ela gostava das aulas de História e entendia qual era dele.
Analisei o seu teste do começo ao fim de cada linha. O raciocínio e, mais do que tudo, a técnica.

Dois meses se passaram e naqueles dias, ninguém nunca estudou tanto história como eu.

Eu não estudei só para mim. Estudei para o Paulão.
Para passar na sua prova e no dramalhão que ele fazia em torno de sua pessoa.

No mês seguinte, mais testes e novo dia de entrega de provas. Desta vez, ele não dobrou a minha folha em quatro.
Entregou-a reta, esticada e bonita.

Bingo. Com 9,5 fechei o meu semestre.

Aquele foi um dos dias mais alegres da minha vida. E a boa sensação não foi exatamente pela nota, foi mais.
A recompensa de tudo foi ter passado por uma etapa desagradável nas alturas, voando.

Se pudesse voltar no tempo, teria feito aviãozinho com aquele 0,5 ao som de minhas próprias gargalhadas.

Mas se fosse assim, o final não teria sido tão surpreendente e eu, também demoraria mais para perceber que, às vezes, a rotina não é exatamente como sonhamos. Tem nota baixa, decepções, falas repetidas, trabalhos maçantes e dias cansados. Mas se soubermos como tirar proveito dessas fases, o resultado disso tudo vai ser muito melhor.

Bom mesmo é aprender como se faz no momento em que se está.

Eu….aprendi História – e umas coisinhas mais.

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5 comentários sobre “Eu vou contar uma história

  1. Passei um tempo longe dos comentários aqui. Vou assumir que passei um tempão sem ler o blog também, mas vi que perdi as sábias histórias da minha “amiga orgulho”. Assumo também que não estou nem um pouco orgulhosa disso!
    Agora sobre o post: tá certíssima. Aprender com os pequenos erros faz a gente dar passos com intervalo maior entre os próximos erros. Será que me fiz entender?
    Saudade, Clarinha!!!

  2. Que linda você juju! Fiquei tão feliz com seu comentário! Obrigada, viu?! Estou com muitas saudades, espero que a gente possa se ver logo, logo! E volte sempre aqui :) bjins!!!!

  3. “Ela veio porque eu estava dançando errado.”
    Nem imagine o que pensei quando li essa definição para aquele momento decisivo da descoberta.

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