morar comigo.

Eu tive um momento na vida em que não me via almoçando sozinha e, em que, até buscar pão na padaria deveria ser feito na presença de alguém. A fila de banco e as compras do mercado sempre se saiam melhores se supervisionadas pela minha irmã.

Eu já vivi dias em que ir sozinha ao cinema não passaria pela minha cabeça e que chegar em casa sem ouvir a voz de alguém poderia ser assustador. Eu já não soube ficar comigo mesma.

Apesar de estar há seis anos em São Paulo, longe da minha familia, morar sozinha ainda é uma experiência nova para mim. Minha irmã se mudou há pouco tempo de cidade e, desde então, é como se eu tivesse começado algo totalmente inédito.

Mas eu tenho amigos, certo? Você diria a mim. Eu tenho. Mas o que acontece quando os amigos se despedem no telefone e você coloca o aparelho no gancho? O que fazer quando o último gole de cerveja é dado no bar, e vocês dizem tchau para se verem apenas na oportunidade seguinte? Isso é o que eu tenho aprendido a fazer.

No começo a televisão é uma amiga e o escuro, um desafiador. Com os dias, aprendi a não depender mais dos seriados e a aproveitar mais o meu banho, sem pressa. As janelas, agora, ficam sempre abertas, com a luz dos apartamentos da frente disputando seu reflexo com o da lua, para chegarem dentro do meu quarto.

Se eu não posso mais contar como foi o meu dia olhando nos olhos da minha irmã, eu levo o telefone para ouvir sua voz embaixo das cobertas, até pegar no sono. E se eu tenho mais nostalgia do que antes, eu faço disso inspiração para os meus textos, que borbulham em minha mente a todo momento.

Morar sozinha é muito mais do que amadurecer . É uma oportunidade que a vida oferece para desafiarmos a nós mesmos. Uma chance de se ouvir e perceber que o silêncio ensina mais do que o burburinho. Você cria a sua rotina e se torna menos independente. E acredite, você se acostuma.

Tirar os sapatos na sala, sem se preocupar se eles vão incomodar alguém, tem as suas vantagens. O livre se torna seu, sem cobranças e palpável a qualquer momento. A mente concentra-se em si e a casa vira um lar essencial.

Comigo eu tenho mais saudade. Eu com a saudade eu sou melhor, mais sensível, mais deslumbrada com as pessoas, mais apaixonada por elas. Perto de mim eu consigo respirar, procurar o caminho sem ansiedade e molhar a bolacha no café, sem vergonha.

Às vezes tudo aperta. Os sapatos, a distância, o estresse e o coração. E então falta – a companhia que falará e pensará por mim naquele momento até que eu acorde apenas no dia seguinte. É nessa ausência que a gente percebe o que é morar sozinho e permite-se a encontrar a própria solução.

Há coisas que eu não me imaginava fazer sem a minha irmã.
Hoje, eu as faço comigo mesma e recolho aprendizados para contar a ela depois.

Estar na companhia de alguém se faz melhor quando se aprende a ser só.

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6 comentários sobre “morar comigo.

  1. Do Gil:

    (…)

    Sabe, gente,
    Eu sei que no fundo o problema é só da gente
    E só do coração dizer não, quando a mente
    Tenta nos levar pra casa do sofrer

    E quando escutar um samba-canção
    Assim como: “Eu preciso aprender a ser só”
    Reagir e ouvir o coração responder:
    “Eu preciso aprender a só ser”

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