Quando ainda há muito tempo

A menina morrera de repente, assim sem mais. Dormiu e já não estava mais neste mundo. Ela já era moça, 30 e poucos anos, 1 faculdade feita, 1 pós-graduação incompleta. Alguns cursinhos de inglês, um começo de italiano e um monte de rabiscos que deveriam preencher sua vontade de ser designer, o que nunca aconteceu. 

A última noite tinha sido boa. Seu namorado recente cozinhara para ela e fizera torta de limão. Ela nunca poderia imaginar que 2 taças de vinho combinariam tão bem com um doce que é feito com a fruta mais azeda do abecedário. Não fora com ele que ela perdera a virgindade mas ele era muito melhor que os dois anteriores. Mais dela. Mais calmo. E tocava violão. Homem quando toca violão não precisa nem ser simpático ou bonito, é só gostar de música e tocar.

E ela se foi ao fechar os olhos,  junto com a felicidade de sua mãe, pai e cachorro – um golden retriver. Grande. O melhor deste mundo. O único que assistia capítulo repetido de séries da Warner com ela, sem reclamar. Mas que droga, isso não é hora de morrer!

Ela ainda ia fazer pilates no final de semana, arrumar outro emprego, limpar o quarto, terminar os 4 novos livros da sua estante. E tinha planos de se sentir mais satisfeita, magra, cortar os cabelos, pintá-los de loiro e comprar sapatos mais confortáveis porque aqueles eram insustentáveis de tanta dor.

E tanta vontade ainda, poxa. Será que é coisa de Deus? Logo ela que rezava todas as noites. Chegou até a acender vela uma vez quando sua tia ficou doente e precisou de algo mais forte que antibióticos e corticóides. E aquele sentimento de que ela não poderia sair deste mundo sem fazer um trabalho voluntário ou plantar algumas árvores na rua?Também faltava presentear sua mãe com alguma coisa, um colar, brinco, ou o que quer que fosse. Um te amo, quem sabe. Ligar pro seu pai! Ela não tivera tempo de ligar para o pai nos dois últimos dias à noite.

E o que vai ser de mim? E o que vai ser da minha vida que eu não terminei? Como eu posso ir com tanta coisa na agenda? Com tantas novas palavras para aprender?

O que ela faria sem o resto de sua vida?

E como uma respiração que se recupera após três minutos embaixo d’água, ela acordou.
Viva. Com o travesseiro amassado e o seu cachorro arrastando as patas pelo piso de madeira.  Foi tudo impressão, devaneio, imaginação.  Aquilo que eles chamam de pesadelo.

Os olhos se abriram pesados, cheios de lágrimas. Transbordando em água salgada. Tanta coisa na cabeça – decidiu ligar para um amigo, aquele do peito, que a gente tem 15 quando criança e apenas 1 depois que cresce. Ela se esbaldou, contou o sonho, chorou de novo e se fez derrotada.

– Não seja assim, menina – disse o moço. – Quando o seu dia realmente chegar, você ainda assim, deixará milhares de coisas empilhadas para fazer. Elas nunca se acabam. Na verdade, os compromissos da vida são repetidos, só mudam de nome e local para nos fazerem menos entediados. Nós é que os transformamos em um peso, uma meta a ser cumprida, incondicionalmente. Você ama sua mãe, ela sabe. Seu pai também. Você se esforça no trabalho mesmo que não seja o emprego dos seus sonhos. E segue em frente, fazendo o melhor todos os dias. Complete o dia com o que você conseguir, a sobra deixe para o dia seguinte, mesmo que esse dia nunca chegue, porque um dia, de fato, ele não vai mais chegar. Sossega. Tenha menos vontade de fazer o mundo, torne o que você tem agora, a maior satisfação que alguém pode ter e, conquiste os demais propósitos sem esforço. Ao final de cada etapa da sua vida, não pense com o que ficou sem, mas no que se esbaldou.

Pronto. Conselhos deveriam não só serem cobrados como gravados em um aparelho universal que tocaria a cada insatisfação humana. E assim, ela desligou o telefone, arrumou a cama, se trocou, deu um beijo em seu cachorro e saiu. Na rua, colocou os fones de ouvido, escolheu sua música favorita e sorriu. Porque naquele momento, era só isso que ela poderia fazer.

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6 comentários sobre “Quando ainda há muito tempo

  1. Amei a sua crônica. Super verdadeira e profunda. Toca lá no fundo da nossa Alma. Parabéns, parabéns e parabéns. Acabou de ganhar um leitor!

    Escrevo também algumas crônicas(adoro escrever e ler, até por isso eu faço Jornalismo), ficaria grato se pudesse dar uma olhada: http://lucaspierref.tumblr.com

    Beijos, sucesso!

  2. Pingback: o magrão morreu ou porquê você precisa se lembrar da morte | …Às Claras….

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