café de 1 só morador.

Hoje cedo fiz café preto. Há dois dias tenho feito isso depois de quase 1 ano de abandono à cafeína dentro de casa. É chato preparar café para uma pessoa só. Ontem, no entanto, minha diarista estava aqui, éramos duas. Já hoje, meu jornal estava especialmente bom e merecia uma xícara daquele preto forte.

Servi a bebida na mesa para mim do lado do Estadão esparramado, junto com uma saudade imensa da minha irmã, que morava comigo. Domingo é devastador. Ela fez tanta falta esta manhã. Queria poder conversar com ela ali pessoalmente, servir mais café e dizer que as noites pós-trabalho passavam mais rápidas com ela aqui.

Na manchete do jornal hoje, dizia que o número de brasileiros que moram sozinhos triplicou em 20 anos. Agora são 6,9 milhões de pessoas fazendo café para elas mesmas. O texto estava tão bom que me felicitei ao perceber que jornais diários ainda fazem coisas boas assim. Nos depoimentos, uma atriz lamentava que morar sozinha faz com que a louça sempre seja dela. O poeta Paulo Bomfim, de 85 anos, confessou ser povoado de tantas boas lembranças que não consegue se sentir só, mas: “a única coisa triste é no fim do dia não ter para quem voltar”.

Morar sozinho não é sinônimo de solidão. Saudade é uma coisa, solidão é outra. Favor não confundir. Hoje a saudade está forte. Comprei uma botão de rosa amarela que aos poucos tem desabrochado ao lado da minha televisão. Minha mãe iria gostar de ver e de me ajudar a trocar a água dela em uma garrafa de vinho que adaptei como vaso.

Percebi que a minha inspiração para escrever voltou com tamanha vontade que tenho de acordar no domingo com a minha família. Um entusiasmo artístico que antes era provocado pela minhas voltas à noite do trabalho, no ônibus que subia aquela Teodoro Sampaio, sem hora para chegar em casa. No caminho, as pessoas, as lojas de sapatos repetidos e o vaivém dos passageiros me faziam querer escrever algo a cada chegada em casa. Mas com o novo metrô inaugurado há poucos meses, não vejo mais as ruas e embora a minha qualidade de vida tenha aumentado, as minhas histórias urbanas se perderam e já devem, também, estar com saudades de mim.

A falta de alguém para dividir o café me faz desordenada e sem consolo. Em contrapartida, me traz palavras, sensações, escritas e pessoas que não querem ser esquecidas.

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14 comentários sobre “café de 1 só morador.

  1. Tive essa história com o arroz. Já só, fiz o arroz. Ele empapou e não tinha ninguém para me dizer “puts! e agora? Estragaste meu almoço de domingo”. No prazo de uma vida, você observa o passado e ri satisfeito com sua determinação de caminhar com os próprios calçados comprados por si. Mas antes disso, existe uma vastidão de horas a fio a percorrer a fim de conquistar o trofeu do corajoso. O “não ter pra quem voltar” foi glorioso. Dá um aperto.

    Parabéns pelo espaço. Já ganhou outra visitante.

    abs.

  2. Tive essa história com o arroz. Já só, fiz o arroz. Ele empapou e não tinha ninguém para me dizer “puts! e agora? Estragaste meu almoço de domingo”. No prazo de uma vida, você observa o passado e ri satisfeito com sua determinação de caminhar com os próprios calçados comprados por si. Mas antes disso, existe uma vastidão de horas a fio a percorrer a fim de conquistar o trofeu do corajoso. O “não ter pra quem voltar” foi glorioso. Dá um aperto.

    Parabéns pelo espaço. Já ganhou outra visitante.

    abs.

  3. Difícil não dizer o quanto as ruas fazem falta na gente quando não as vemos tanto quanto antes, quanto gostaríamos. As histórias vão deslizando como areia pelos dedos e é sempre bom uma saudade no peito, uma lembrança úmida e um copo d’água de sensações para empaparmos esses grãos e deixá-los palpáveis para formarmos letras, palavras, frases inteiras para nos perdermos. Há muitos benefícios em estar sozinho e um deles é poder lembrar como queremos, sem a burocracia de discursos que precisam penetrar em ouvidos. Nos redamos às letras, nossa burocracia pessoal criada para organizar o turbilhão de paixões no peito… mesmo que sejam paixões de alegrias ou tristezas. E sobe o cheiro de café fresco.
    Lindo texto Clarinha. Poesia nas frases e imagens. Sempre!
    Beijos

  4. Obrigada, Renan. Adoro seus comentários, sempre muito sinceros e cheios de poesia. Fico feliz que esteja passando por aqui, beijos!

  5. Excelente e verdadeiro texto.
    Sinto saudade da minha vovó que não fará mais aquele delicioso café preto e nem me dará aquelas broncas que fazem tanta falta. Hoje eu sei que elas fazem falta. Muita falta.

    Agora, eu sigo no Trem da Vida: eu e Deus. Até que Ele coloque um Amor verdadeiro em meu caminho.

    Abraços.

  6. Clarinha!
    Ninguém está só diante de um exemplar do nosso
    jornalão e com uma xícara de café passado na hora.
    Lendo Monsieur Lapouge, então, é estr em companhia
    do melhor dos mundos.
    Beijo

  7. Pingback: o que acontece quando nos apaixonamos. | …Às Claras….

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