cinderelas da paulista

Na Avenida Paulista perto da entrada do metrô Trianon, têm aparecido umas senhoras que eu não percebera antes. Elas já têm idade, brancos, rugas e se vestem como cinderelas – com vestidos pomposos, feitos com tecido acetinado e cheios de pedras brilhantes que, com o uso, se desgrudaram e deixaram falhas em toda a peça. Essas roupas, embora de princesas, estão sujas, mal cuidadas, prontas para o lixo. Ainda assim, cobrem diariamente essas mulheres que mais tarde percebi serem ciganas, donas do destino ou funcionárias da sorte que, juntas em três ou quatro, lêem as mãos de pessoas que querem descobrir o que lhes reserva o futuro.

Em um desses dias, uma jovem de óculos escuros sentou-se ao lado de uma das adivinhadoras, estendeu-lhe a mão e não olhou mais para o resto, para a rua e pedestres que passavam a sua volta. Aquela senhora reservara-lhe respostas, conselhos e divagações para a angústia não escondida no rosto da moça, que balançava em sinal de confirmação a cada vez que a velha passava-lhe os dedos nas linhas de sua mão, revelando profecias.

Enquanto uma trabalhava, as outras cinderelas conversavam entre si, trocavam moedas e andavam pela calçada rastejando a calda do vestido imundo que acumulava folhas e pressa da maioria dos paulistanos que nem as notavam – passavam por cima de todas elas, sem tempo para jogos de azar ou o que quer que aquilo fosse.

Sob indiferença ou não, daquele canto elas não se despediam porque de meia em meia hora alguma garota desolada abria a carteira, oferecia o pagamento e se deixava suplicar por uma frase salvação que pudesse alivar seu dia, anseios e dúvidas sobre o que desta vida fazer.

De um lado, seres humanos – que de tamanha tormenta – se jogam nos braços de adivinhadoras do destino.

Do outro, senhoras – que sem perspectiva de um porvir próspero, dispõe-se a resolver o futuro alheio.

Eu aqui, fico a pensar – quem é que neste mundo, precisa de ajuda?

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2 comentários sobre “cinderelas da paulista

  1. Seu vocabulário está cada vez mais rico; sua sensibilidade, cada vez mais aguaçada; seu Nobel de Literatura, cada vez mais próximo!

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