o que eu aprendi com melancolia.

Melancolia me deixou mal, muito mal. Eu nem lembro qual foi o último filme que me trouxe uma sensação tão ruim quanto essa. Saí do cinema sem vontade de jantar, com o estômago embrulhado e me arrependendo da decisão tê-lo assistido em um domingo à noite – que se fez perturbado na volta para casa.

No dias seguintes ele não saiu da minha cabeça, ainda penso muito nele e quero entender o por quê. Melancolia é triste. E não triste de chorar, triste de raiva, de impotência. O mundo vai acabar é o que diz o enredo e mesmo que a história seja ficção é fato que ele vai acabar para cada um de nós qualquer dia desses – e nada do que fizermos de surpreendente ou de ruim vai importar. Então qual é?

O fim do filme é tão frustrante porque é o previsível que não queremos ver. E talvez nem precisamos mesmo vê-lo. A morte é demasiadamente amarga que já nos basta encontrá-la apenas uma vez – no dia que isso acontecer com a vida de cada um de nós. O fim de tudo é de tamanha melancolia que nem vale a pena antecipá-lo na ficção, para que soframos antes e duramente sem que nada ainda tenha acontecido.

Isto me deixa ludibriada: esse fim de fé e de vontade de acreditar em desejos que no final das contas serão cinzas. E esse caso – de eu não me entusiasmar com o filme – não se encaixa naqueles em que tampamos os olhos para não vermos a verdade. Eu sei qual é a realidade e você também. Melancolia está certo, é um filme que não conta mentiras. Tudo o que está ali, por mais maluco que pareça, faz sentido. Mas sua desesperança é dispensável em um mundo tão cheio de gente, de lugares e de experiências para acontecer.

Hoje de manhã, pensando melhor, percebi que gostei de alguns momentos do longa. Da primeira parte principalmente, do sorriso da protagonista pelo seu noivo que – mesmo ao se alternar com caídas de profunda infelicidade – ainda se mostrava apaixonada por ele. Ou quando, na beira do fim mundo entre o medo e a solidão, o que restava era apenas a família – e quem quer que seja que você considere parte de sua família – eles sempre serão responsáveis por te deixarem em pé.

Melancolia é uma crua realidade daquilo que é duro de entender. Eu não sei ao certo se aprendi coisas, talvez eu venha reaprendendo com o tempo e esse filme foi mais um encaixe nesse conjunto de peças confusas que, de vez em quando, nos levamos a pensar e repensar.

Uma amiga definiu Melancolia como “uma dor de cabeça bem vinda”. Eu o defino como uma desagradável previsão do futuro que talvez…seja importante existir para levarmos tudo isso aqui com menos peso e mais alegria – mesmo que não hajam razões para isso, saltitando em nossa frente. Se há pessoas queridas que você sorri só de pensar no momento em que irá abracá-las, isso basta. Sermos mais felizes sem exigirmos tanto do mundo e de nós, isso também é suficiente. No meu mundo, pelo menos.

* Um agradecimento especial a Clarisse Braga, que me acompanhou em um ataque de riso durante um intervalo do longa – o que nos fez tomadas por menos melancolia e mais felicidade.

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5 comentários sobre “o que eu aprendi com melancolia.

  1. logo que vi o título, me entusiasmei a ler o que você teria aprendido com Melacolia porque também o assisti e ainda não sei o que achei. Embora seu texto tenha frustrado minha expectativa toda permeada pela racionalidade – no afã de você ter desvendado o que incomoda desde sábado – ele me surpreendeu positivamente pela simplicidade e equilíbrio com o qual você lidou com as diversas chamas que o filme acende. E mais: me fez valorizar ainda mais o novo trabalho do Lars von Trier. Afinal, de certa forma a arte está aí para incomodar, para balançar. E desses sobressaltos é que vem a reflexão, que causa entendimento, que transforma-se em mudanças. Parabéns.

  2. Até agora não achei nenhuma interpretação equânime quanto às mensagens que este filme passa. A mim, a principal lição é de como a força de personalidade difere de pessoa para pessoa. Justine, no início, parece frívola, fraca e inconsequente. O que de fato é. Porém, nos momentos de adversidades extremas soube lidar com a situação melhor do que sua irmã Claire, que parecia tão centrada e racional.

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