querido desconhecido.

Ela voltava do trabalho com os pés quentes, cheios de bolhas e band aids gastos que, já sem cola, penduravam-se raspando o calcanhar. Com algumas revistas no braço, um jornal amassado e uma lista de compras a fazer no dia seguinte, ela se esforçava para chegar em casa com menos dor, mais vontade e a tempo de escapar dos velozes pingos de chuva do céu.

Na esquina com o sinaleiro vermelho, ela parou e esperou a passagem dos carros. Enquanto isso, um moço com camisa regata, tênis e cachos molhados passou correndo ao seu lado e fitou-a com um leve sorriso no rosto. Foi tão bom, ela pensou – e retornou com um entusiasmado mostrar de dentes. Se ele tomasse coragem e voltasse para falar com ela, poderia pedir-lhe seu telefone. Eles então jantariam na noite seguinte e provariam o salmão com alho poró do restaurante recém inaugurado na esquina da sua rua. Ela usaria o vestido comprado pela sua mãe, aquele lá que tem as manguinhas largas no ombro e um zíper que fecha até a beira do colo, deixando toda a parte do pescoço de fora. Irresistível – ele certamente acharia.

Nas noites seguintes, ele a ajudaria no mercado, escolheria o sabor da sua geléia, colocaria tudo no porta-malas do seu carro e dirigiria até o seu apartamento. Filmes de madrugada, companhia no telefone até altas horas, bate-papo no metrô na volta do trabalho e sopa, quem diria, servida no sofá.

Eles trocariam livros, beijos, presentes e até quem sabe, passagens para uma viagem a Paris. É tão bom ser clichê, ser amada e se deixar respirar por uma sensação que a gente nem sabe se um dia vai sentir. E ela nem queria saber se era amor, paixão, ilusão ou carência. O importante era que agora, ela tinha de quem gostar.

Seus filhos seriam Thomás e Marta. Crianças alegres e irmãos inseparáveis que posariam felizes para fotos na porta de sua casa, que já fora a casa de sua mãe e agora era a casa dela e de seu já atual marido – que esteve com ela nos mais felizes e tristes dias que poderiam acontecer ao longo de toda uma vida.

Ao virar o rosto para trás, no entanto, ele continuara a correr. O desconhecido, o futuro maior amor de sua vida seguira até a próxima avenida para lá no fim desaparecer. Ele não voltou. Os seus filmes não foram locados, as passagens ficaram na agência e o mercado continuara vazio, sem sabores diferentes e vinhos a escolher – havia apenas ela. O restaurante não serviria o prato, o vestido continuaria no armário e Thomás e Marta, não posariam mais naquele porta-retrato da sala.

Com o fim do caminho e a sua casa já à vista, ela arrancou de vez os curativos, pegou as chaves da bolsa e se concentrou em abrir a porta da frente. Sentada no sofá, já descalça e decepcionada, lamentou a falta de iniciativa do moço corredor – toda uma vida juntos, não tivera nem a chance de começar.

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5 comentários sobre “querido desconhecido.

  1. Isso já aconteceu, acontece e acontecerá conosco diversas vezes.

    é tão bom…e ao mesmo tempo, tão doído.

    Diante dessa mistura platônica de sentimentos, faço o seguinte questionamento: “para qual mortal se destina o Amor sem Dor?”

    Para ninguém, acho eu.

    Abraços.

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