o não acaso de um sábado à tarde

Existe uma porção de eventos na vida que são pura coincidência.
Uma outra parte é tudo que não o acaso. E eu acredito que vivi essa última no sábado que se passou.

Há uns cinco anos eu não ia na Benedito Calixto – aquela feirinha aos sábado que concentram tudo o que é antigo e gostoso de lembrar. Dois amigos queridos, o Eduardo e o Thiago – dos poucos que a gente guarda depois da faculdade – fizeram o convite e, eu, aqui dentro, senti que eu precisava ir para lá a hora que fosse. E a hora foi tarde, às cinco já. quase no final do dia, já com algumas barracas recolhendo aquele acervo de objetos velhos e usados que todas as semanas tentam nos convencer de que podem, em nossa estante, recobrar sua utilidade.

No caminhar daquele monte de gente, do sol gostoso do fim do dia, no meio revistas que não existe mais e lentes cansadas de fotografia, os vendedores que restavam negociavam o passado como novo. Parei num desses sebos embaixo de lona amarela, com livros de papel também amarelo, quando pude ler em uma capa: “Sonata da última cidade – o romance de São Paulo”.

Renato Modernell. Um querido professor que meu deu aula de narrativas de viagem na universidade e o único que tinha sensibilidade para escapar da ignorante objetividade das aulas de jornalismo para nos fazer escrever, escrever e escrever.

O livro é raro, não existe mais nas livrarias. Eu estava a sua procura há um tempo e sabia que seria difícil encontrá-lo. A sugestão de leitura foi dada por uma amiga querida – Marcia Carini – que contou-me ser esse um dos melhores que já lera.

No meio de tantos livros e possibilidades, ele ali olhando pra mim só tinha que ser meu. 20 reais, assim, baratinho. Coloquei na sacola e logo tratei de espalhar essa história feliz para os amigos comigo ali. Até então acaso, mera coincidência de uma jovem e um livro que se trombaram no mesmo lugar.

Não casualidade é a sequência disso tudo. Com o livro em mãos seguindo ainda pela feira, fiquei imaginando quão interessante seria ter o autógrafo do Renato naquela obra tão procurada. Imagine então a minha surpresa, cinco minutos após a compra do livro, visualizar – naquele acúmulo de gente – o próprio Renato Modernell.

Gritei seu nome sem entender como pode uma feira, um livro e um momento tão bom se reunirem num sábado à tarde. Ele atendeu e se mostrou feliz ao reencontrar seus antigos alunos na praça. Mostrei a ele o livro de 1988 que na primeira página trazia seu autógrafo em inglês escrito em 1996 para uma pessoa – “thanks you for all, best wishes”.

Ele olhou, sorriu, perguntou como encontramos aquele livro e tentou lembrar quem era a pessoa da dedicatória. Não lembrou, mas pegou uma caneta e escreveu seu nome com bons votos para mim, na mesma página da antiga dedicatória dedicada àquela anônima, que de seu livro se perdeu.

por alguns minutos, ficamos os 3 conversando com aquele velho professor, que de repente por ali aparecera. repetimos por vezes a palavra coincidência, coincidência, coincidência ao mesmo tempo em que sabíamos que esse encontro era qualquer coisa que não uma coincidência.

Um livro antigo a espera do seu dono para que fosse autografado para um novo dono. são paulo – gigante de tamanho e eventualidades me trouxe esse presente de fim de semana. comecei a ler a obra e e eu – que não acredito muito em destino – começo a achar que existe uma sintonia neste mundão que, de vez em quando, faz questão de juntar pessoas e vontades apenas para mostrar que nem tudo nesta vida acontece sem querer.

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8 comentários sobre “o não acaso de um sábado à tarde

  1. no instante em que você se dirigiu ao Modernell, em meio ao susto de encontrá-lo, imaginei como seria o texto que você extrairia daquele instante. sei lá pq achei que você fosse transformar aquilo em uma crônica. não sabia, porém, que ela ia sair tão interessante. mais uma vez me rendo ao seu talento.

    um ps: a márcia merece nomeação e o Franca e o Palmeiras não? É pq temos nomes de presidiários?

    bjo!

  2. Clara, sim, sim, e quando você chegar lá no final da sonata, encontrará, novamente, o Modernell, no espelho, dizendo: “Nada é coincidência…embora tudo seja”. Beijos, Marcinha

  3. O livro deve ser INTERESSANTÍSSIMO. Procurei em Araçatuba e não achei. :(

    Bem, se meus planos de ir para a Mackenzie se concretizarem, quem sabe eu não terei aula com Renato Mordenell. Espero que ele ainda esteja por lá…

    …Enfim, sonhos de foca. =P

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