uma lágrima para daniel piza.

Eu tive o meu primeiro contato com o Daniel Piza em um curso de história da arte em 2009. Conhecia o jornalista pelas suas colunas no Estadão, mas pessoalmente mesmo, foi apenas nessa data.

Hoje, o pouco que sei de história de arte eu devo a ele. Na época, fui bem cru até esse curso, levei caderno, caneta e as memórias que eu tinha de algumas exposições por aí. Na sala, uns 12 alunos e lá na frente Daniel – simpático, falante e assustadoramente inteligente.

No total, foram umas cinco ou seis aulas de Piza discursando que a arte é um consolo, uma instabilidade, um conjunto infinito de interpretações. E o que mais impressionava nesse período era a forma como ele não dizia palavras soltas, sem significado. Cada falar era palpável, tinha autonomia. Daniel não era do tipo que enrolava o explicar ou se perdia no raciocínio – ele sabia exatamente o que tava fazendo e isso era fantástico. O professor mais didático que eu já conheci. Ele não gastava  frases e valores, tudo o que era dito carregava um sentido.  Em um mundo verborrágico cheio de declarações vazias, era bom saber que tínhamos Daniel.

E foi na véspera de ano novo que eu fiquei sabendo da notícia da sua morte. mas o quê, como assim, nunca, imagina. Foi chato, chato pra valer. Aquele curso permaneceu em mim nos anos seguintes e até hoje eu tenho aquele como o melhor curso livre que já fiz. Ele abriu um mundo para todos nós que enxergávamos os artistas como serem loucos, parte de algo que não desse mundo. A arte incompreendida ganhou, após Daniel Piza, uma face de bem-vinda.

E meio sem jeito, de repente, deixei as lágrimas escorrerem, rosto abaixo elas se foram. Minha mãe arrumando meu cabelo para a festa, meu pai do lado nos fazendo companhia, um conjunto de amenidades maravilhosas, todos nós ansiosos pela virada. No meio disso tudo, uma morte. E eu sempre acho a morte de alguém que a gente admira nos mata um pouco também, nos deixa mais frágeis, menos crentes, tristes.

E chorei com a mesma naturalidade que por tantas vezes sorri. Chorei por Daniel, chorei pela morte, pela angústia que é a vida.  Pelo jornalista que ele foi, pela sua família, pelos sonhos que ele não vai mais conseguir realizar. Chorei por um quase desconhecido, mas que era assim como nós – cheio de coisas para fazer amanhã, com um monte de ideias na cabeça, com dezenas de pessoas para cuidar e amar.

E eu estava na rede, deitada, com os pés balançando, sentindo a chuva que caía antes de 2012, o vento no rosto, comida na mesa, as minhas irmãs por perto. Chorei porque, agora, ele não poderá mais sentir isso tudo – como acontece com todas as pessoas que morrem. Esticar os dedos das mãos, coçar os olhos, abraçar as pessoas queridas, trocar experiências com a natureza, ouvir uma música e acompanhar cantarolando…por que a morte não nos permite mais nada?

Puxa! Quando as pessoas morrem elas não vão mais enxergar isso tudo. A rua lá fora, o telefone tocando, o cheiro do pão quente no forno, as gargalhadas na mesa de um bar, um filme emocionante no cinema. Eu choro mesmo porque esse troço é difícil de entender, bicho. E a vida vai tocando, ela vai levando e levando muita gente também. É dor. É emoção demais pra gente esquecer assim de repente, para não se abalar e fingir que não é comigo.

No final dos seus artigos do Estadão, Daniel costumava dedicar uma lágrima para alguma personalidade falecida. Hoje, todas as lágrimas são para ele. Meus sinceros sentimentos à família, aos amigos e a nós jornalistas, que ficaremos sem seus cursos, suas sugestões de livros, filmes, pitacos futebolísticos e reportagens espetaculares.

A vida foi breve para Daniel. O nosso consolo é que ele fez dela o que poucos conseguem: completou-a com obras e trabalhos preciosos que não conhecem o finito – irão levar cultura e ensinamentos para todos que quiserem ler e ouvir.

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12 comentários sobre “uma lágrima para daniel piza.

  1. Mais um texto maravilhoso, Clarinha. De uma sinceridade e simplicidade (da boa) que não se descrevem! Mas eu prefiro pensar que as pessoas que morrem continuam vendo tudo o que vemos. A diferença é que nós não as vemos mais. Prefiro pensar que elas continuam vivendo, mesmo que apenas aqui dentro. No final das contas, eu acho que é pra isso que as lembranças são feitas – para manter tudo o que amamos vivo e, assim, seremos mantidos um dia também!

    Beijo

  2. Sabe, Clara?! Eu prefiro pensar que a Morte é uma passagem para uma nova vida: uma vida sem lágrimas, tristezas, dores físicas e emocionais, mentiras, raivas, cansaço e solidão.

    Qualquer pensamento diferente disto me levaria a ter horror da Morte.

    Como dizia o saudoso Raul Seixas em uma de suas excelentes músicas, “a Morte surda caminha ao meu lado, e eu não sei em que esquina ela vai me beijar…”

    E assim é com todos nós.

    E foi com o saudoso Daniel Piza, que vai deixar saudades por tudo o que fez pelo jornalismo brasileiro.

    Só nos resta agradecer-lhe, e desejar seja lá aonde ele esteja, que descanse em Paz.

    Beijo.

  3. Adorei o texto Clara! Também tive oportunidade de conhecer o Daniel ano passado, fiz curso de jornalismo cultural com ele, sem dúvida um ótimo professor, além de grande jornalista, e senti o mesmo que você, no momento que soube de sua morte era como se nos sentíssemos mais próximos do que realmente somos, corri ligar para uma amiga que fez o curso comigo tomada de uma tristeza que não pensei sentir por alguém que conheci pouco, mas é o que você disse: ” a morte de alguém que a gente admira nos mata um pouco também, nos deixa mais frágeis, menos crentes, tristes”.
    Beijo

    • Que bom que você compartilha do mesmo sentimento, Carol. Obrigada por dividir isso aqui também, é difícil de entender algumas coisas da vida mesmo. um beijão!

  4. Daniel Piza foi um dos responsáveis por eu ter escolhido o jornalismo como profissão. Sempre que alguém me perguntava por que queria ser jornalista respondia que era pelo fato de poder entender de tudo um pouco. Porém, ao ler – todos os domingos – sua coluna nos Estadão comecei a perceber que estava errado: um bom jornalista deve entender tudo, mas de modo profundo, assim como Piza. Era espantoso como ele tecia opiniões balizadas sobre as mais diversas searas e de modo consistente. Meus domingos e quarta-feiras (quando escrevia na página de esporte do Estadão) não serão mais os mesmo…

    • Você falou bem Erico, os jornalistas deveriam ser como ele, entender de tudo de forma profunda…obrigada, obrigada pelo belo comentário. beijos.

  5. Clara,

    Só li este texto agora. De forma banal caí aqui, mas valeu a pena. Fui foca (do curso do Estadão) em 2009. Além de curzarmos pela redação durante 3 meses, o Daniel nos deu aula. Lembro que nos perguntou o que estávamos lendo. Eu respondi que lia O Jogo da Amarelinha, do Cortázar. Só não disse que tinha descoberto Cortázar justamente depois de uma indicação-crítica dele em sua coluna no ano anterior. Deveria ter revelado a sua influência. Enfim.

    Quando respondi, ele devolveu um simples “muito bom”. E sorriu.

    O Daniel faz falta aos seus leitores.

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  8. “Por que não me ufano” Em sua coluna do Estadão de Domingo – que permanece com essa lacuna que mais parece uma ferida que não cicatrizou – Ele manifestava sua insatisfação e apesar de muitas vezes não concordar com a opinião dele eu respeitava porque vindo de quem vinha… e Eu ficava refletindo porque era uma opinião que Eu respeitava muito e sempre começava a ler o Estadão à partir da coluna dele aos domingos…

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