Era o que me faltava

Faz uns dois meses que ir na academia deixou de ser uma atividade prazerosa para se tornar uma obrigação exaustiva. Honestamente, sou adepta à vida saudável, pratico exercícios desde criança e doce é o que menos tem aqui em casa. Mas de coração? Ir na academia ultimamente tem sido um porre – cansei daquele ambiente fechado cheio de gente, abarrotado de fones de ouvido e de mundos que não se misturam. Talvez o horário, 7 da manhã, não ajude. Essa é a hora em que a todos estão ali de passagem, levantando pesos enquanto pensam em todo o restante do dia que está por vir como se aquele momento já não fizesse parte dele.  Para mim, levantar cedo todos os dias para ir até lá é uma batalha – não vejo mais graça, perdi.

E foi então que nesse último sábado aconteceu algo muito surpreendente. Acordei com um sol meio nublado que invadia as frestas da janela e ali, profundamente, tive uma vontade sincera de ir correr no parque. Já não estava tão cedo e nem tão tarde, me troquei e peguei o ônibus que passa aqui na av. paulista e segue direto pra lá. O fato é que eu nunca tinha feito isso antes – não sozinha, não assim com tanta vontade. Mas naquele momento a única coisa com franqueza que eu gostaria de fazer era ir até lá.

E segui. No ônibus, um casal de gringos se enrolava para entender o mecanismo da catraca. Como é difícil se locomover em um país que a gente não conhece. Como estava sendo difícil para eles entrar num transporte público desconhecido e ainda pedir gentilmente à cobradora, que não fala inglês, para avisarem-nos quando qual é o ponto mais próximo Ibirapuera. Fiquei fitando-os de longe, minha vontade era falar com eles, conversar, trazer um pouco de conforto em um situação embaraçosa que a gente também vive quando está lá fora.

Desci no mesmo local que eles e assim que se aproximaram de mim para pedir uma informação, me senti bem. Eles tinham em torno de 50 anos. Ela chamava-se Ma Teresa e ele Enrique. E assim, mesmo meio perdidos, estavam felizes da vida. Fizemos amizade, conversamos sobre o seu país, a Espanha, e sobre a cidade em que eles viviam, perto de Barcelona. Eles me seguiram até o parque e contaram sobre sua filha que estava passando uma temporada aqui na cidade, motivo de suas vindas até à metrópole. Após poucos minutos, deixei-os à vontade para andarem, desejei boa sorte e saí correndo – literalmente nesse caso.

A sensação foi de algo que eu não sentia há muito tempo. Como é diferente correr fora de uma esteira coberta com ar condicionado. No caminho – árvores, cachorros, bicicletas e toda e qualquer expressão de vida e de sol que não são prováveis de se ver em uma sala de musculação.  Puxa, como foi gostoso. É como se universo me agradecesse por eu ter feito algo com tamanha verdade. Corri como há muito tempo não corria. Com um abalo emocional à tona. Vontade mesmo.

Após uns 50 min, trombei novamente com o casal de espanhóis e o reencontro foi como de velhos amigos: oba, vocês aqui novamente! Ele com calça comprida, ela de saltinho baixo, nem se importaram com a falta de vestimenta apropriada, tinham percorrido o parque mesmo assim. Batemos mais um papo, trocamos cartões e seguimos as nossas vidas.

Parei uns metros à frente, tomei água de coco e sentei sem pressa enquanto observava um pai ensinar o seu filho a andar de bicicleta – um momento histórico. Ele caía e levantava, se emburrava, dizia que não ia conseguir. E o pai ali do lado, por vezes farto, por outras incentivador, seguia talvez sem se dando conta de quão eterno seria aquele momento na vida do menino. Os dois ali, com os altos e baixos, se entendiam.

No mesmo espaço passavam umas crianças com síndrome de down também andando em bicicletas, desta vez naquelas duplas, pela primeira vez. Elas riam alto, enchiam todo mundo de emoção. Alguns skatistas dividiam espaços uns com os outros e com o restante das pessoas caminhavam com o intuito apenas de se fazerem contentes por aquela manhã. Havia flores.

Terminei de tomar a água e parti para a minha casa. Desta vez, bastante esclarecida do que me faltava até então – aquele sentimento forte que só nos basta quando estiver em tudo aquilo que vamos fazer. Paixão. Era isso.

* foto linda daqui. 

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15 comentários sobre “Era o que me faltava

  1. Hahahaha, agora eu entendi sobre o skate! =P

    E, de fato, todos nós somos movidos por aquilo que se intitula como paixão. Ela é essencial em tudo o que formos fazer nessa vida.

    Ah, e existe uma paixão essencial, que devemos carregar consigo para a vida toda.

    Paixão pela Humanidade.

    Beijos, Claritcha!

  2. que coincidência, clarinha!
    ontem me aconteceu o mesmo, mas no parque aqui perto de casa.
    terminei lendo drummond embaixo de uma árvore e pensando o quanto preciso colocar essas sensações na minha rotina.

  3. Adoro esportes, mas detesto academia. Com tanto lugar legal para correr, pedalar, remar, acho um desperdício fazer esforço num ambiente fechado.

  4. Clara,
    Suas crônicas são como tomar um sorvete de flocos num dia quente de verão. Me dá uma sensação de frescor e alivio, quando quase todos os meios de comunicação invadem minha vida com noticias um tanto desagradáveis , que me sufocam como o calor abafado de São Paulo.

  5. Estou seguindo o teu blog a algum tempo e adoro tudo que você escreve. Quando leio os seus textos sinto a poesia da minha amada cidade de São Paulo, poesia que no meio da agitação do dia-a-dia se torna tão difícil de ser admirada.
    Adoro o Parque do Ibirapuera!
    beijijnhos

    • rafa, que alegria esse depoimento! fico feliz, obrigada! prazer conhecer você, fico muito feliz de conseguir fazer você matar a saudade daqui, beijos e apareça mais vezes!

  6. Preciosidade:
    “No mesmo espaço passavam umas crianças com síndrome de down também andando em bicicletas, desta vez naquelas duplas, pela primeira vez. Elas riam alto, enchiam todo mundo de emoção. Alguns skatistas dividiam espaços uns com os outros e com o restante das pessoas caminhavam com o intuito apenas de se fazerem contentes por aquela manhã. Havia flores.”

  7. Era isso. Apenas isso que estava faltando para uma iniciativa tão saudável.
    Delícia de texto, Clara.

    Abraço

    Rafa Cândido

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