só mais uma coisa.

De vez em quando eu levanto do sofá para colocar mais alguma coisa na mala. Agora pouco foi uma toalha de rosto. Minha mãe sempre diz para eu colocar uma toalha de rosto na mala quando vou viajar. E eu sempre acabo precisando dela, do meio para o fim do percurso principalmente – quando todas as roupas já estão sujas, os guias de viagem rabiscados, grifados, as meias repetidas e o espírito nômade cansado – com uma única peça livre: a toalha de rosto que nos faz lembrar de casa, da onde viemos e para onde voltaremos – depois de toda a aventura.

São quase duas da manhã e eu parei de tentar ir dormir com tanta coisa na cabeça. Estou gostando de ver Legião Urbana na MTV, estão fazendo um tributo à banda e eu fico pensando porquê demorei tanto para gostar do Renato Russo. Porquê demorei tanto tempo para conhecê-lo. Talvez porque minha turma não ouvia, meu pai não ouvia, Araçatuba não ouvia e eu era pequena demais para compreendê-lo.

é sempre só você que me entende do início ao fim, é sempre só você que tem a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo o que eu ainda não vi. 

é tão estranho, os bons morrem antes. me lembro de você. e de tanta gente que se foi. cedo demais. e eu continuo aqui, com meu trabalho, meus amigos, e me lembro de em dias assim, dia de sol, dia de chuva, e o que sinto não sei dizer. 

Esta semana lembrei da minha avó durante um almoço, bem de repente ela apareceu – no sabor e cheiro de manga servida na sobremesa. E eu acho tão fantástico essa capacidade que as frutas, aromas, gostos e sensações têm de nos trazer um tempo que já foi, pessoas, momentos, e as tardes que nos reuníamos na mesa da cozinha em catanduva – cidade que era dela – para falarmos sobre a vida, bolos e namorados (meus e das minhas irmãs) que ainda não tínhamos. Éramos crianças e tudo era a minha avó. E eu deveria ter ido mais para lá depois de grande. A correria – quase sempre – é uma merda.

todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou. não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas, lá fora. 

Como o Renato Russo sabia tanto sobre a vida? Tão cedo e profundo? E quando poderemos fazer as coisas senão cedo? Senão agora?  Obrigada por pensar, Renato.

e o teu medo de ter medo de ter medo.

é só hoje e isso passa, só me deixe aqui quieto, isso passa, amanhã é um outro dia. não é?

Eu já fui melhor em disfarçar. Hoje eu não consigo segurar e vou soltando umas frases no trabalho, em um jantar ou em um metrô descompromissado. Frases que não cabem na rotina, no dia a dia repetido de conversas que só podem ser boas, otimistas, e cercadas de planos para o trabalho, de comentários sobre o frio, chuva e trânsito. Aí quando eu vejo já foi, sabe? Já falei. Coisas desse blog, sentimentos, do que me é profundo mesmo, mas que talvez não caibam num café da tarde. O mundo não tem tempo para essas coisas. Eu vou tentar melhorar.

quem me dera ao menos uma vez entender como um só Deus ao mesmo tempo é três.

você diz que os seus pais não entendem, mas você não entende seus pais. você culpa os seus pais por tudo, isso é um absurdo. são crianças como você.

E eu vou viajar amanhã. Sair um pouco destas bandas.
E me sinto tão serena por isso. Por estar indo com as pessoas que eu mais amo e que mais me amam durante toda esta minha vida. A minha mala continua aberta porque talvez eu ainda me lembre de alguma coisa. Algumas meias, talvez. Vou pedir a opinião deles sobre a quantidade de blusas a levar, estou em dúvida. Eles sempre sabem o que dizer mesmo quando se arriscam em palpites. Isso já me faz profundamente bem.
Tanta gente ainda vai cruzar esse nosso mundo, e temos uma diversidade tão enorme de conhecimento para aprender nos próximos anos que é fascinante saber que esta fase eu passarei com eles – e os terei comigo quando chegar a um lugar pela primeira vez.

Agora vou dormir.
O que não significa que estou com sono.

*As frases em itálico são músicas do legião urbana – os nomes na ordem em que aparecem são: índios, love in the afternoon, tempo perdido, daniel na cova dos leões, a via láctea, índios (novamente), pais e filhos. 

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5 comentários sobre “só mais uma coisa.

  1. Eu sei que fazer qualquer metáfora com ”malas” pode ser um pouco pretensioso depois de “Up In The Air” (Amor sem escalas), mas mesmo assim me arriscarei.
    Acho que antes toda viagem, colocamos em nossa mala expectativas, sonhos, desejos, planos e um pouquinho de lembrança.
    Quando voltamos, nossa mala sempre está mais cheia. É sempre mais difícil de fechar, sempre está mais pesada. Não só pelas compras, mas porque na volta a mala está recheada de memórias, saudade, lembranças, novos planos e novas experiências. Isso sempre pesa mais.
    Quando saímos, sempre temos a sensação de estar esquecendo algo. Talvez seja uma pequena insegurança do que pode estar por vir, do desconhecido que enfrentaremos. Por mais aventureiros e exploradores que possamos ser, sempre temos o desejo de ter tudo a mão, nosso conforto e segurança a disposição a qualquer momento.
    Enfim, na hora de fazer sua mala, leve apenas o essencial. Não se prenda a segurança ou as lembranças. Você irá voltar! Deixe espaço para as futuras experiências, as futuras saudades.
    Sua mala é o reflexo do que você carrega, seja na vida, seja na viagem. Não é à toa que chamamos de bagagem. Deixe sempre um espaço reservado para as coisas novas. Esteja leve, esteja aberto.
    ”Esse é o nosso mundo: O que é demais nunca é o bastante, a a primeira vez é sempre a última chance.”
    Boa viagem Clara!

  2. Pingback: quando outubro acabar | …Às Claras….

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