esta não é uma história de amor

Naquela noite, Ana voltara cedo pra casa, porque era muita coisa dentro de si para suportar até às duas da manhã. Mais um dia com ele, mais uma noite sentindo amor, incômodo, solidão. E foi então que ela percebeu que a única maneira de voltar a encontrá-lo com sinceridade era dizer tudo o quê ele não sabia. E dizer como? Um e-mail? Um telefonema? Pessoalmente?
Era tarde, mas ainda assim ela pegou um lápis, um papel, e o desabafo começou.

você é burro, cara. burro.

e, além de burro, é a única pessoa para quem eu não consigo dizer não – mesmo os seus convites vindo daqueles sms idiotas que você manda para mim e para os seus outros 15 amigos. e mesmo você assinando o seu nome embaixo de cada mensagem, para eu não pensar que o chamado veio só pra mim.

a gente já tomou cerveja juntos, dividiu sorvete e ficou até às seis na balada. nesta mesma balada você cantou olhando para mim, me abraçou no final e acabou comigo. me deixou arrasada. me fez sentir como seria estar nos seus braços, andar de mãos dadas contigo e deixar de ser sozinha.

foda é dizer não para os seus programas. eu me sinto culpada, enfeito os caracteres, coloco carinhas, peço desculpas e mando beijo no final. você nem responde.

foda é te ver e perceber que você é o cara mais simpático do universo. e o mais bonito também. mesmo com esses quilinhos a mais que você ganhou depois que se mudou para  essa cidade grande.

foda é encontrar esse sorriso que faz eu querer me declarar a você a cada vez que eu te vejo, que me recebe quando eu entro no carro, que tem assunto para uma noite inteira comigo.

você é foda. você não percebe.
eu não acredito que eu seja tão sua amiga assim. eu não acredito que você não perceba que eu sou bonita, que eu fico bonita pra você. que eu trabalho, corro, estudo, leio e acompanho tudo o que você diz. e também todo o seu facebook – que nunca tem nada, você quase não usa aquela droga.

e quando eu tento achar uma explicação para você me querer ao seu lado, sem de fato se envolver, eu percebo que não é sua hora. que você tá assim nesta tua fase bon vivant. que conhece várias. que aproveita a vida e tá gostando. e que me quer sempre simpática, querida, sem compromisso. sem ter que me ligar no dia seguinte, conhecer meus pais e se complicar de uma vez. tu não acredita em compromisso e vive dizendo isso pelo mundo. tu só acredita em você.

amizade é uma merda.
um dia eu me declaro. jogo na sua cara tudo o que fica preso por aqui e tudo o que eu tenho que transformar em cordialidade a cada vez que a gente senta na mesa de um bar.

mentira. eu não vou fazer nada disso.
porque tu é burro, cara. burro.

Ana releu tudo o que acabara de escrever.
Rasgou o papel, tomou um copo de água e foi dormir.

obs: se você gostou dessa crônica, pode ser que goste desta aqui também
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14 comentários sobre “esta não é uma história de amor

  1. É, Ana…”A vida é uma merda. A gente gosta de quem não gosta da gente. E quem gosta da gente a gente não gosta”.

    Excelente crônica. Essa carta poderia ser até a introdução de um livro, uma história continuada.
    Beijoca!

  2. Caramba, Clara, que coisa linda é essa?
    Uma excelente crônica para começar a semana.
    Adoro o seu blog. Acompanho sempre.
    Que você tenha vida longa para continuar a escrever assim. Coisas leves, belas e envolventes..

    Beijão, querida.

  3. Ola Clara,

    Como sempre um ótimo texto, achei esse melhor por contar uma historia fictícia, ou até onde sabemos é fictícia não é…..rs…..
    Continue assim, e sucesso no ape,ritivos…

    Abraços…

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