porquê você precisa se lembrar da morte


Semana passada morreu Magrão. Integrante do MPB 4 e autor do arranjo fantástico de vozes da música Roda Viva, com o Chico Buarque

Droga – eu pensei. Lá vem a morte outra vez. E puxa, justo o Magrão. Nunca o conheci, nunca fui a um show do grupo, mas o ouvia muito dos vinis do meu pai. Dos cds antigos nos churrascos em família, de apreciar o conjunto harmônico que ele, junto com o MBP 4, fazia com um violão na mão e um talento no tom. Se eu fiquei triste, imagine o restante do grupo que não terá mais a voz, música e vida do Magrão.

Essas notícias sempre me abalam. Eu não consigo viver na amenidade , eu sofro junto. Eu lamento. Tenho pena. O fim da vida é uma merda. E isso não é ser pessimista, é ser sincera. Eu não preciso enganar a mim.
E fiquei com isso na cabeça. O corre diário, a morte do magrão, esse monte de preocupação que a gente tem na cabeça para ser uma pessoa correta, sem sair da linha, pensando sempre no futuro, nos planos, em chegar e sair no horário, em dar risada mais baixo no trabalho, em parar na primeira taça de vinho, no emprego mais fácil que nos aparece.

Minha mãe me ligou hoje e disse que uma amiga dela está com diagnóstico de leucemia. E puxa….a mulher trabalhou tanto durante a vida, foi traída pelo marido, saiu pouco, já não se divertia há um tempo e agora está doente. A vida é indigesta né? Disse minha mãe. Mas sabe que é bom a gente lembrar dessa indigestão para parar de comer a vida com tanta culpa. Com tanta cautela em amar, em expor nossos sentimentos, angústias e vontades. Eu tenho falado aqui há tanto tempo de fazermos o que a gente gosta, sabe por quê? Porque as pessoas morrem. Morrem. E se a gente nasce feito uma planta, uma semente que cresceu com tempo finito para durar, por que não somos mais intensos?

O que é dar certo ou errado numa vida que acaba? Percebe-se assim que não precisamos de tantos filtros para fazer as coisas, e de tantos pensamentos que criam uma cadeia de problemas que se multiplicam em situações imaginárias que ainda nem aconteceram. O melhor conselho que minha mãe já me deu e sempre me lembra é: a felicidade são momentos. A condição permanente não existe, mas os dias sim. Esse sofrimento pela felicidade eterna, e pelas conquistas do futuro têm que ser substituídas imediatamente pela consciência de que a satisfação se faz em pílulas. Há dias de sim, há dias que faltam. E o que temos hoje?

Ninguém se importa tanto com as ações particulares. Sabe quando você pratica alguma atitude e fica sofrendo de imaginar o que estarão pensando de você? Nada. As pessoas tem coisas mais importantes para fazer do que pensar na gente. Precisamos fazer mais escolhas, do contrário escolherão por nós e no final o que sobra é um monte de arrependimento, medo e tristeza.

Uma moça grávida do trabalho chegou radiante esta manhã na redação: “ela chutou, ela chutou! pela primeira vez, minha filha chutou!”. E foi um momento tão especial pra ela que pra gente se fez como nosso. E todos paramos, ouvimos suas histórias e sua emoção em criar um ser para que os sonhos se refaçam. Enquanto uns morrem, outros nascem por aí e bem perto da gente.

Essa vida é morte, diz a música aí em cima. É bom sempre nos lembrarmos dela para vivermos melhor.

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– Uma lágrima para Daniel Piza:
– Quando ainda há muito tempo:
– Quando a dor acontece. 

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7 comentários sobre “porquê você precisa se lembrar da morte

  1. Oi Clara!

    Temos mesmo que viver o hoje, lembrando que a felicidade pode ser nesse instante e nunca mais. Lendo seu texto lembrei de um post em meu blog em que falei da perda de um amigo, de 28 anos, que se foi um acidente de carro (http://www.roxaneregly.blogspot.com.br/2011/12/este-ano-o-verao-acabou-mais-cedo.html). Como jornalista, cansei de relatar os problemas daquela mesma pista que o levou…

    Para nós, restou a sensação de que “o verão acabou mais cedo”, acabaram as cores, a alegria. Acredito que aprendemos que o viver é hoje! Hoje, antes de brigar futilmente com meu namorado lembro que amanhã um de nós pode partir sem dar tchau… E acho que em tudo na vida tenho pensado assim: “e se não houver amanhã?”

    Belo texto querida! É um prazer acompanhar seu blog!

  2. Eu tenho uma visão um pouco diferente.
    Acredito que a Morte está de mãos dadas com a Vida. Morrer é necessário.
    Se nós fossemos seres imortais a vida perderia completamente o sentido, ainda mais no mundo em que vivemos onde a sociedade não tem tempo para coisas como o Amor, a Saudade e outros sentimentos sublimes.
    É sempre um querendo passar em cima do outro, e isso em todos os âmbitos possíveis: no profissional, no amoroso…ver tudo isso dói muito, machuca e fere os olhos da Alma.

    …Uma hora isso tudo cansa. Por isso a Morte é necessária. Eu vejo ela como uma forma de Paz, de descansar dessa loucura denominada como o mundo real.

    Beijão, Claritcha.

  3. Pingback: O sofrimento de Santa Maria | …Às Claras….

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