a minha vida em araçatuba


Tô indo pra Araçatuba. E sempre que vou pra Araçatuba penso que seria difícil voltar a morar na cidade. E não por ser interior, não por não ter uma vida cultural agitada. O meu ‘não’ é pelo fato de eu já ter sido muito feliz lá, por eu ter uma história naquela escola, naquela nossa casa antiga, naqueles únicos bares em que todo mundo ia. O meu ‘não’ é por saber que não suportaria viver cada dia sabendo que aqueles dias já foram meus. Que aquela rotina de volta do colégio para casa já teve meu esforço, meus estudos e os tantos amigos que já não vejo mais. Seria muito difícil voltar a viver em Araçatuba com tanta memória. É como se a cidade virasse a mim para falar: olha, eu ainda estou aqui, e ainda provoco um monte de coisas aí dentro.
Eu lembraria de você, da nossa inocência, das nossas idas ao único shopping nos sábados à tarde. Eu lembraria daquela época em que os amores eram muito mais intensos, de verdade e dramáticos. Eu pensaria nas tantas vezes em que já fui naquele mercado para comprar os legumes do almoço com a minha mãe. Nas ansiedades. Nas festas à fantasia. Nas cartas anônimas. Em tudo o que eu não fiz. Nas tantas que eu fiz de monte.
Eu me recordaria do que separou eu e você. Do que você jamais vai entender. Do que a gente nunca mais vai conversar. Das festas agropecuárias da cidade, de uma época em que bandas boas eram Skank e Jota Quest. Talvez as únicas que a gente conhecia.
Da mercearia do lado de casa, da loja de papel de carta. Da rua em que eu andava de patins com minhas irmãs, do caminho para tantos lugares…. Muitos dias para uma única cidade. São 17 anos de acordar e dormir, sentindo tudo tremer e formigar. Araçatuba vai ser sempre a minha adolescência, o que eu já senti de mais forte, de medo, de felicidade. É um álbum de recordação, são fotos que ainda estão lá. É saudade, passado, são coisas que não começam de novo, vai ser tudo sempre o que já foi. Aquele nosso boliche, nosso cinema, o reencontro de pessoas que não convivem mais. Aquela escola construída por nós, cheia de energia, amigos, aniversários, peças de teatro e dança. Os nomes das ruas, a esquina em que virei sem dar o sinal no exame de motorista, a comemoração por ter sido aprovada, a quitanda que vende o queijo bom, a avenida em que eu tomei o trote quando passei na faculdade. Vocês indo lá em casa jogando ovos na minha cabeça por isso. Eu pintada, pronta para me mudar. Em prantos. O fim do dia, o mural no meu quarto, a cama, o guarda-roupa, o silêncio de lá. As idas no jornal da cidade, os sonhos ainda incipientes. Os churrascos até de madrugada. A melhor turma de amigos que a gente já teve. Vão ser sempre lembranças. Sensações que caminham, sussuram na cabeça, me abraçam, consolam e dizem – deixe estar garota, aproveite essa nostalgia, faça disso parte do que está vivendo agora.

E então eu vou.
E me entrego a tudo o que vier.

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6 comentários sobre “a minha vida em araçatuba

  1. Sabe o que pensei?
    “Que bom é ser interiorana, ir morar na ‘cidade grande’ e poder se emocionar ao ler um texto assim”.

  2. Clara! É bem assim msm, estou passando por essa fase agora. Vim do interior para a cidade grande a pouco tempo. Seu texto é bem emocionante e realista. :)

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